Clair Kuhn, anunciado nesta quarta-feira, 19, como novo secretário de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, diz ter certeza de que está diante de “um desafio imenso”, para logo em seguida acrescentar a firme disposição de enfrentar as dificuldades impostas à agropecuária gaúcha pela catástrofe climática ocorrida em maio. “Vamos lá, vamos encarar”, garante.
Nascido no interior de Ibirubá, Kuhn salienta a condição de pequeno produtor rural, com uma propriedade no município vizinho de Quinze de Novembro. Foi vereador, secretário de Administração, vice-prefeito e prefeito de Quinze de Novembro por dois mandatos. Concorreu três vezes a deputado estadual, em 2014, 2018 e 2022, quando ficou na suplência. Desde o início da atual gestão, ocupava o cargo de diretor-geral adjunto da secretaria, além de coordenar as 21 Câmaras Técnicas Setoriais. Entre 2015 e 2018, presidiu a Emater/RS-Ascar. O novo secretário tem formação em educação física e MBA em gestão pública. Na manhã desta quinta-feira, Kuhn conversou com Correio do Povo.
O senhor já tem uma ideia da dimensão da catástrofe que se abateu sobre a agropecuária gaúcha?
Na função na qual eu estava na secretaria, como diretor-geral adjunto, e também como coordenador geral das Câmaras Setoriais, fizemos reuniões sistemáticas com todos os segmentos, principalmente os mais impactados. Recebemos as necessidades e as demandas. Esperamos a Emater fazer os levantamentos, entregues agora, em período posterior, para termos a dimensão. Na nossa região, do Alto Jacuí, não foi tão afetada, os municípios estão mais em situação de emergência, mas passei pela região dos vales para ter a dimensão do que ainda estamos vivendo. Agora vem a questão do que podemos fazer para a reconstrução e a manutenção do homem no campo nas regiões mais afetadas.
E o que pode ser feito?
Uma questão é certa. Não tem como fazermos sozinhos. Precisamos das entidades, das instituições, da união federativa, municípios, Estado e governo federal e, logicamente, trabalharmos com ações internacionais, para nos dar guarida neste momento. Precisamos de muita assistência técnica. Também é extremamente importante olharmos para a academia. Nosso quadro de funcionários tem de olhar para as universidades para obtermos resultados. Algumas ações começam se projetar. A academia diz que há fatos climáticos e de solo, em especial, que até então não eram vistos, são novidades.
Por exemplo?
O solo, por exemplo, sofreu uma degradação sem parâmetros. Em alguns lugares, o rio mudou de curso e, além de retirar a fertilidade [da camada] superior, formou um chão batido, com uma compactação imensa. Como se recupera a fertilidade? Estamos focados na questão científica, com nossa equipe e com a academia, e precisamos ir a campo. Falamos ontem com o governador, Eduardo Leite, e com o vice [Gabriel Souza] e houve esse pedido: “Clair, precisa ir a campo”.
A degradação do solo é o problema mais grave?
Num primeiro momento, a questão mais importante foi salvar vidas. Em seguida, foi tentar reconstruir as pontes, os acessos às propriedades. A Secretaria de Agricultura vem fazendo isso nos municípios em estado de calamidade, com recursos de R$ 500 mil em hora/máquina, para ter acesso às propriedades, levar comida às famílias e aos animais e poder escoar os produtos. A fertilidade do solo é o maior patrimônio do produtor. Sempre se correu atrás da fertilidade do solo. Se tínhamos de melhorar a fertilidade, agora, com certeza, é o grande desafio. E não somente na região que foi o epicentro do impacto, mas em mais de 350 municípios.
Quais seriam as primeiras tarefas para a reconstrução da agropecuária?
Nosso secretário-adjunto, Márcio Madalena, estava alinhando algumas ações, em parceria com Emater e outras instituições. Precisamos de análises, temos de trabalhar muito com a questão técnica e científica. Temos de ir a campo, botar o pé no barro e fazer ações de análise de solo para compreender o que, de fato, é necessário para trabalhar num projeto de recuperação. O que a secretaria vem fazendo, de fato, é poder, minimamente, chegar com alimento para os animais nas propriedades. São alimentos vindos de várias instituições, que estão fazendo as doações, e que a Secretaria de Agricultura, junto com a Emater, faz a distribuição, a logística. É uma ação que tem ser continuada. Também precisamos pensar na infraestrutura, mas aí passa muito por termos recursos, para os quais é preciso uma junção de forças, entre entidades privadas e governos municipais, estadual e federal.
Como a secretaria está se preparando para uma eventual estiagem durante a safra de verão?
Temos nosso sistema de meteorologia, que é o Simagro [Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos], que vem nos alertando sobre isso. O governo também tem a Sala de Situação. A questão climática e de meteorologia tem de ser olhada a cada dia, e também olhada muito para frente. Há a perspectiva de uma estiagem. Antes do período das enchentes, o governo lançou o programa de irrigação do Estado. Estamos, então, com possibilidade de ajudar em projetos de irrigação. Aliás, no dia 26, estaremos dando continuidade ao programa no município de Marcelino Ramos, em parceria com Emater. O governo tem dinheiro disponível para ajudar com 20% do valor do projeto de irrigação a ser instalado na propriedade, até um teto de R$ 100 mil. É um dos maiores projetos do Brasil em incentivo direto ao produtor.
Há possibilidade de liberação dos fundos setoriais em benefício dos produtores atingidos?
Trabalhamos para ajudar os agricultores com recursos aportados pelos governos da União, do Estado e dos municípios. A liberação dos fundos é uma das reivindicações. Estamos trabalhando nisso. Há questões burocráticas a serem vencidas. Seja de onde for, o importante é que recursos cheguem aos produtores, e com valor capaz de atender as demandas do momento.
Qual o saldo existente hoje nos fundos setoriais?
Não tenho essa informação ainda. Preciso falar com Secretaria da Fazenda para ter isso. São vários fundos.
O Parque de Exposições Assis Brasil estará recuperado até o dia 24 de agosto, data de início da 47ª Expointer?
Participei da reunião com as entidades copromotoras, ainda como diretor-adjunto, que foram enfáticas e unânimes em relação à realização da 47ª Expointer. A nossa subsecretária, a Beth [Cirne Lima], vinha trabalhando na reconstrução de algumas coisas que foram apontadas como deficitárias, na edição passada, como instalações hidráulicas, elétricas e outras de infraestrutura. As chuvas e o alagamento acabaram dando uma parada nesse processo, atrasando essa reconstrução. Houve uma acelerada depois da visita do governador, junto com as entidades que cobraram a realização do evento. Vamos fazer essa Expointer sair no prazo, dentro das condições adequadas. Será uma Expointer de reconstrução, de solidariedade e de inovação.