Para garantir o suprimento a um valor aceitável no preço da saca, os operadores vão depender de subsídio estatal para trazer a commodity de outras regiões. Ou seja, a iniciativa privada vai ficar na mão do governo. Mesmo assim, a garantia da União de que não vai haver desabastecimento apazigua o sentimento catastrófico cevado a cada nova previsão de safra. A última projeção da Emater prevê produção de 3,082 milhões de toneladas – quebra de 41,89% em relação à estimativa inicial, de 5,3 milhões de toneladas. Já levantamento realizado pela Farsul indica tombo de 49%.
A verdade é que o Rio Grande do Sul vai ter que buscar de outros estados 3 milhões de toneladas de milho, três vezes o volume captado em anos normais. Nas contas do diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do Rio Grande do Sul (Sips), Rogério Kerber, o custo ao Estado deverá ser de R$ 1,5 bilhão, incluindo o desembolso com produto, logística e Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).
Agora, o que é um livro em branco é o preço do cereal que, no momento, insiste em permanecer acima da casa de R$ 30 entregue na indústria. São poucos os que arriscam um palpite sobre o comportamento das cotações em 2012. Historicamente, uma safra cheia sempre achata os preços do milho no RS. No ano passado, no entanto, a colheita foi farta e, mesmo assim, os preços permaneceram elevados.
As exportações do Brasil (9,5 milhões de toneladas em 2011), de acordo com o presidente da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), Nestor Freiberger, é que teriam dado sustentação a um valor inflado do grão. "O preço, como está, não oferece competitividade", reclama o dirigente. No entanto, conforme ele, alguns associados já compraram o milho com valor 10% menor do que o praticado no momento. Isso seria sintoma das promessas de leilões e de mecanismos de escoamento de safra, como o PEP, além da própria safra.
Com o valor do milho em riste, a expectativa é que os produtores de estados que praticam safrinha, como Mato Grosso e Paraná, se sintam estimulados a apostar alto. O que ninguém está contando, alerta o analista de mercado Carlos Cogo, é que essa produção já está 50% comprometida com contratos de compra antecipada pela indústria no caso do MT.
Outra carta na manga dos que necessitam da matéria-prima é a possibilidade de uma safrinha emergencial no RS, com replantio do cereal em áreas devastadas pela seca. Mas, a julgar pelo interesse no Troca-Troca, único termômetro no momento para medir a gana dos agricultores para assumir o risco, essa possibilidade é escassa e concentra-se basicamente em plantio para silagem. De uma oferta de 40 mil sacas de semente disponibilizada fora de época pelo governo do Estado, apenas 13 mil foram solicitadas – o que equivale a 13 mil hectares plantados. "Os agricultores não estão acreditando que vai chover o suficiente," justifica o diretor do Departamento de Agricultura Familiar da Secretaria de Desenvolvimento Rural, José Batista.
Em um cenário ainda incerto, mas nebuloso quando o assunto é milho, as agroindústrias pedem autorização para participar de leilões de trigo, ao que estão impossibilitadas no momento. "É preciso criar uma portaria interministerial para isso", diz Kerber.
