O mercado gaúcho do arroz encerra a semana “sob uma dinâmica de sustentação comercial incompleta”, define a consultoria Safras & Mercado. As referências de preços permanecem relativamente firmes, mas a circulação de negócios continua limitada pela postura defensiva da indústria, avalia o analista e consultor Evandro Oliveira.
O Indicador Safras do arroz em casca no Rio Grande do Sul, para grãos inteiros de 58% a 62% e pagamento à vista, encerrou a semana cotado a R$ 84,05 por saca, estável em relação à semana anterior. Na comparação mensal, houve alta de 1,22%, enquanto, frente ao mesmo período de 2025, a valorização foi de 47,09%.
Na origem, a retenção de oferta reduz a disponibilidade imediata de determinados lotes, mas a necessidade de caixa e o financiamento da safra 2026/27 podem estimular vendas seletivas.
Para Oliveira, essa queda de braço mantém o produtor resistente a descontos generalizados, embora negócios pontuais abaixo das ofertas pretendidas possam ocorrer quando a urgência financeira supera a estratégia de carregamento.
“O vetor de sustentação está na oferta negociável mais restrita, enquanto o limitador permanece na ausência de uma disputa compradora suficientemente intensa para consolidar uma valorização ampla”, pondera o analista.
Cautela na indústria
Na indústria, a reposição de passagem continua condicionada ao giro do beneficiado, à preservação do capital de giro e à dificuldade de repassar custos ao varejo.
A cautela nas decisões comerciais, reforçada pela incerteza eleitoral e pelo planejamento de encerramento do exercício, pode postergar compras volumosas justamente quando a cadeia precisa organizar o abastecimento de novembro e dezembro, acrescenta Oliveira.
A sazonalidade, entretanto, não garante uma retomada. “Sem aumento concreto dos pedidos, o encharcamento de canal continuará restringindo a aquisição de matéria-prima”, pontua.
No câmbio, a acomodação do dólar próximo de R$ 5,00, após níveis de mais de R$ 5,20, enfraquece potencialmente a paridade de exportação e favorece a competitividade do arroz importado, mantidas as demais condições.
Já na balança comercial de outubro, até a terceira semana, registrou exportações de 100,1 mil toneladas e importações de 78,2 mil toneladas, ambas em base casca, gerando superávit de aproximadamente 22 mil toneladas.
“O saldo é favorável, mas seu impacto depende da escala de retirada do excedente doméstico e da continuidade dos embarques. Saldo positivo, isoladamente, não comprova escoamento suficiente para alterar a formação de preços”, destaca o analista.
Problema na safra 2026/27
A safra 2026/27 acrescenta um fator potencialmente altista, diante de relatos de excesso de umidade, baixa radiação, emergência irregular e necessidade de ressemeadura em determinadas áreas.
Ainda assim, os levantamentos sobre o avanço da semeadura apresentam retratos distintos, sem base consolidada para quantificar perdas ou confirmar redução da produção além do esperado.
O quadro semanal, portanto, combina resistência na origem, escoamento comercial insuficiente e riscos futuros de oferta. Para Oliveira, a direção dos preços no curto prazo dependerá da reação do varejo, da evolução das paridades e da materialização dos embarques. Uma valorização mais ampla exige melhora observável da liquidez, e não apenas de expectativas.
