Rural

Safra está mais amigável às frutas de verão

Em 2024, a melancia teve safra reduzida e preços altos, o que gerou a entrada de novos agricultores no negócio

Ceasa-GO . Foto: Wenderson Araujo/Trilux
Ceasa-GO . Foto: Wenderson Araujo/Trilux Foto : Wenderson Araujo / Trilux / CNA / Especial / CP

O verão dos gaúchos tem suas particularidades. Com temperaturas extremas, a estação pede alimentos que refresquem, hidratem e adocem o paladar, do mais jovem ao mais idoso consumidor. Neste início de 2025, as frutas preferidas pelos habitantes do Rio Grande do Sul e que estão disponíveis em grande quantidade de dezembro a março vão ser encontradas em feiras e gôndolas de supermercado, mas não sem expressar o estresse climático que caracterizou o ano de 2024, além de outras variáveis, como o equilíbrio entre oferta e demanda.

A melancia, por exemplo, no ano passado, teve boa rentabilidade para o produtor, que conseguiu preços altos pelo quilo da fruta no Estado. Neste ano, a safra no Rio Grande do Sul chegará ao consumidor por valores mais acessíveis, o que já desagrada o produtor. É o caso de Luiz Fernando Martins, que planta soja e melancia nos municípios de Arroio Grande e Rio Pardo. Ele relata a situação difícil de ambas as culturas, mas por motivos diferentes. Na soja é a estiagem que assola metade do território gaúcho que tira o sono do agricultor. “Hoje as perdas são de 20% nas lavouras do cereal”, calcula. Referindo-se à melancia, ele aponta o excesso de produção no Brasil como a razão para a baixa dos preços pagos ao produtor.

Martins, que desde os 12 anos está acostumado a trabalhar na terra, é filho e neto dos precursores do plantio de melancia na região de Triunfo. Atualmente, ao fazer um comparativo entre ambas as culturas, da soja e da fruta, questiona os resultados financeiros do seu esforço. “Os dois estão em situação crítica. A melancia não tem preço porque várias regiões do país produzem na mesma época que o Rio Grande do Sul”, desabafa.

Além dos gaúchos, a fruta é cultivada na Bahia, no Ceará e em São Paulo. Em 2024, o fenômeno El Niño impactou os resultados da colheita da melancia no Rio Grande do Sul. “Foi um ano de produção extremamente baixa, queda na oferta e preço elevado”, recorda. Segundo ele, foi justamente esse cenário que resultou na situação atual dos fruticultores. “O pessoal não observou a quantidade de produção que quebrou (em 2024) e só focou no preço. Aí desencadeou esse plantio desgovernado”, explica.

Conforme o agricultor, muitos produtores aumentaram a área para a cultura e há outros que ingressaram no cultivo pela primeira vez. Martins prepara-se para colher, até fevereiro, 4,5 mil toneladas da fruta. Além de abastecer o Rio Grande do Sul, as cargas são enviadas para o Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

Segundo Martins, o quilo da melancia está sendo comercializado entre R$ 0,30 e R$ 0,50 para o produtor rural, valores que não cobrem o custo. “No ano passado chegou a R$ 2,30, mas o lucro foi curto”, compara, apontando as perdas ocasionadas pelo fenômeno climático. “O excesso de fake news sobre os preços em 2024, nas redes sociais, impulsionou a alta de plantio na safra 2025. “Chegaram a divulgar R$ 3,00 o quilo (para o produtor)”, afirma.

Também na uva o prognóstico melhorou em relação aos últimos dois anos, especialmente no quesito quantidade. A safra da fruta é estimada em 700 milhões de quilos no Rio Grande do Sul, o que representa uma alta de 45% em relação à safra anterior, de acordo com dados do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis). O gerente técnico estadual adjunto da Emater/RS-Ascar, Luís Bohn, considera a perspectiva animadora, depois de dois anos de perdas. “Um por causa de estiagem e em 2023 por conta dos eventos climáticos”, destacou. Na projeção da Emater/RS, a safra de uva deve chegar aos 860 milhões de quilos.

As variedades vitória e niágara já começam a ficar disponíveis para o mercado consumidor. Sobre os preços, Bohn, salienta que é normal estarem um pouco elevados.“Isso vale para qualquer cultura e vai entrar em equilíbrio pela demanda e oferta”, avalia. O gerente técnico estadual adjunto adianta que há um movimento de ampliação da área de cultivo para a safra 2026. No presente, o Rio Grande do Sul reserva 44 mil hectares para as parreiras, entre uvas de indústria e de mesa. “Vamos saber no decorrer deste ano”, antecipou.

Conforme Bohn, a possibilidade dessa ampliação está atrelada a um mercado mais aquecido.

“Há uma tendência de valorização, cada vez mais, do consumo de frutas. É um grande movimento de educação alimentar. Além do reconhecimento do consumo de sucos e vinhos, que nos sinalizam para esse incremento”, comenta.

Bohn expõe que muitas áreas de uvas destinadas à mesa estavam quase extintas no Rio Grande do Sul, em virtude da competição com os viticultores e vitivinicultores do Nordeste do país, e que esse espaço aos poucos está sendo retomado. A possibilidade de cobertura dos pomares e avanços em genética e tecnologia estão viabilizando essa recuperação.

Em contrapartida, a pujança da safra de uva, Luís Bohn destaca que os consumidores não devem esperar grande tamanho do famoso, no Rio Grande do Sul, abacaxi terra de areia. “Nesta safra a temperatura um pouco mais reduzida e a nebulosidade no período da primavera perturbaram bastante o desenvolvimento. É uma fruta tropical que necessita de bastante sol, antecipa. Mas, apesar da aparência menor, Bohn destaca que o sabor do abacaxi terra de areia não decepcionará. Conforme ele, a expectativa é de 7,2 mil toneladas na safra atual.

Uvas, vinhos e espumantes. Foto: Wenderson Araujo/Trilux | Foto: Wenderson Araujo / Trilux / CNA / CP

Banana gaúcha também enfrenta competição

Bananas produzidas pelo agricultor Sidnei Justin | Foto: Sidnei Justin / Especial / CP

Produtor de Itati, Sidnei Justin relata que o cultivo tem mais rentabilidade no inverno do que no verão, porque a fruta pode participar de aquisições de alimentos em mercados institucionais e o preço se mantém mais atrativo

No Rio Grande do Sul, o cultivo da banana ocorre durante todo o ano. O verão, contudo, não é a melhor época de vendas para os agricultores. O fruticultor no município de Itati, Sidnei Justin, explica que, em termos de preços, o inverno é mais vantajoso por dois motivos. O primeiro é o acesso, por meio de cooperativa, de mercados institucionais estaduais ou federais.

O segundo é que na estação mais fria do ano há menos competição no mercado local. “Chega o verão os preços acabam caindo bastante, há muita oferta para escoar a produção”, detalha.

Sobre a produção, Justin relata que a colheita da banana costuma ser semanal ou quinzenal. A fruta possui um tempo diferenciado de validade, maior do que outras frutíferas mais sensíveis e perecíveis à ação do tempo.

“O bananal não exige todo manejo a exemplo de uma lavoura e isso vale, inclusive, para produção orgânica da fruta”, explicou o agricultor que adota o sistema agroflorestal em sua propriedade e dedica-se à cultura da pitaya, do açaí e do morango, entre outras frutas.

Sidnei Justin ressalta que os fruticultores locais tentam comercializar a banana em todo o Rio Grande do Sul, mas há dificuldades em relação à logística. Para ele, é necessário uma organização mais apurada para escoar toda a produção de frutas e ocupar as oportunidades de mercado no próprio Estado.

O administrador da Associação da Rede de Cooperativas da Agricultura Familiar e da Economia Solidária (Redecoop), Bruno Engel, complementa que a banana também tem uma resistência maior frente a eventos climáticos, como as cheias que ocorreram no Rio Grande do Sul. A exceção, recorda ele, foram os ventos do ciclone bomba em 2020, que atingiram 100 quilômetros por hora em algumas regiões do Estado. “Ela sofre como qualquer outra cultura mas é mais resiliente no processo de produção. Nesse período do verão (a partir do mês de janeiro), começa a ter uma oferta maior porque o cacho se desenvolveu após o período do inverno”, afirma Engel. A Redecoop reúne 53 cooperativas associadas, que representam 13 mil famílias de agricultores em diferentes regiões do Estado.

Juntas, revela o administrador, ultrapassaram R$ 400 milhões em faturamento no ano passado.
De acordo com a pesquisadora de frutas da equipe Hortifruti do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), Marcela Barbieri, a banana, ao lado da laranja, é uma das frutas com mais perspectivas de crescimento no consumo alimentar dos brasileiros nos próximos anos, acompanhando a estimativa de aumento da população nacional e sua renda.“Como resultado, poderemos notar um reflexo disso no aumento de área para algumas culturas (Brasil) e no ganho de produtividade para a maioria delas, a fim de compensar a demanda. Cabe destacar que o ganho de produtividade virá de investimentos em tecnologias, que já são observados ano após ano no setor”, explica.

Segundo Marcela, os fruticultores do setor já estão adaptando suas produções às novas tendências do consumo nacional, incluindo a fruta processada.

“Hoje, por exemplo, vemos produtores de banana também partindo para a industrialização, produzindo snacks e doces. Além da praticidade, é importante destacar que há a busca por hortifrutis mais sustentáveis e, por isso, temos observado produtores implementando ESG (ambiental, social e governança), novas certificações e alterando técnicas produtivas por soluções mais sustentáveis”, afirma.

Produção farta e tendência de alta no consumo

Ceasa/RS, pêssego, janeiro 2025 | Foto: Gabriel Pitome / CeasaRS / Especial / CP

No Estado, a Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa/RS) confirma que a oferta de frutas deste ano está bem melhor que a de 2024 e atribui os volumes à melhora no clima depois das enchentes de maio

Uma safra mais robusta tem garantido ao consumidor gaúcho uma oferta de frutas melhor que a do início do ano passado, quando vários cultivos apresentaram perdas em razão dos caprichos do clima no Rio Grande do Sul. O diretor técnico adjunto da Emater/RS-Ascar, Luís Bohn, lembra que o cultivo de pêssegos também sofreu impacto das ocorrências de nebulosidade no período da primavera. Bohn recorda que maio é um período chave para o manejo da cultura e foi, justamente, quando ocorreu a enchente histórica no Estado.

Conforme Bohn os números da produção de pêssegos gaúchos ainda não estão consolidados, mas normalmente gira em torno de 80 mil toneladas para o pêssego de mesa.

“A safra tem transcorrido com algumas perdas localizadas. A área de cultivo no Rio Grande do Sul é de 4.900 hectares”, completa.

No geral, o engenheiro agrônomo e gerente técnico das Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa/RS), Léo Omar Duarte Marques, confirma a oferta mais variada. “No ano passado a safra de uva, do melão, da melancia, do pêssego tinha sido muito ruim para nós. Esse ano estamos num inverso”, comparou. Segundo Marques, a safra de melancia é a melhor dos últimos anos em termos de qualidade. A fruta está muito doce e é uma das mais em conta para o consumidor, além da uva de mesa e do melão gaúcho. “O clima foi curioso depois que passou a enchente. Ficou praticamente perfeito,” sublinhou, complementando que não houve muita umidade na primavera e isso favoreceu algumas culturas, a exemplo de melancia.

Do ponto de vista nacional, o mercado de frutas e vegetais está em expansão, com previsão de crescimento durante os próximos anos. A estimativa é de que o faturamento do setor aumente 33% em cinco anos, de estimados 25,8 bilhões de dólares em 2024 para 33,6 bilhões de dólares em 2029, de acordo com a empresa de pesquisas Mordor Intelligence.

Análise do Setor de Hortifruti do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), a partir de dados da Euromonitor, indica que tendência para os próximos anos é que o consumo brasileiro de frutas e hortaliças cresça mais em receita do que em volume.

O Hortifruti Cepea avalia que, além do incremento da receita sobre a produtividade, no médio prazo, o segmento no Brasil deve observar o avanço no consumo de frutas, mais do que o de hortaliças. O pesquisador de frutas do Cepea Lucas Bezerra alerta para alguns entraves do setor em atender a perspectiva dessa demanda.

“Os principais desafios estão voltados ao quesito de transporte e logística. Produtos mais sensíveis e perecíveis em muitos casos acabam chegando aos principais centros de distribuição e consumo já com uma qualidade abaixo do esperado em virtude do maior tempo necessário para transportar a fruta dos polos produtores. Assim, seriam necessários investimentos em infraestrutura tanto em rodovias como em hidrovias”, pontua o pesquisador.

Segundo a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), o Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo, atrás de China e Índia. A União Europeia é o principal continente consumidor das frutas brasileiras.

Ceasa/RS, abacaxi 2025 | Foto: Gabriel Pitome / CeasaRS / Especial / CP