Rural

Sinais de limitação para o avanço dos preços do leite

Redução do consumo de derivados e fim do auxílio emergencial podem pressionar produção, que, por sua vez, enfrenta elevação de custos

Depois de alguns meses de curva ascendente, o preço do leite e seus derivados chegou a um ponto em que deixa toda a cadeia produtiva preocupada porque há sinais de queda de consumo. Isso pode dificultar o repasse dos custos, que, por sua vez, seguem em alta.
O relatório mensal do Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite  do Rio Grande do Sul (Conseleite/RS) divulgado durante a semana mostra redução de 5,18% entre o preço do litro pago ao produtor  em setembro, consolidado em R$ 1,6237, e o projetado para outubro, de R$ 1,5482.
Ao mesmo tempo, análises do Cepea/Esalq/USP indicaram que a valorização ocorrida durante os últimos meses não deve se manter nos próximos e revela que houve queda no preço de derivados como o leite UHT (9,9%), muçarela (7,3%) e leite em pó (1,5%). Pressionados pela retração do consumidor, os canais de distribuição já pressionam a indústria a evitar aumentos. Também elevaram as importações porque, em alguns casos, se mostram competitivas com os preços internos mesmo com as altas cotações do dólar.
As áreas de produção, beneficiamento e produção de derivados, por sua vez, estão diante de custos crescentes para itens como grãos, embalagens, ingredientes e medicamentos. O presidente do Conseleite/RS, Rodrigo Rizzo, entende que esse contexto de escalada dos custos é irreversível neste momento. “É isso que a pandemia nos deixa e precisamos estar cientes de que não iremos conseguir reduzir esses parâmetros agora”, salienta, avaliando que não há condições, neste momento, de prever a tendência de preços.
O presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Rio Grande do Sul (Sindilat/RS), Alexandre Guerra, explica que o recuo de preço pago ao produtor começou no consumidor, que diminuiu em 6,3% a aquisição de leite UHT e 4,7% a compra de queijo muçarela. “Essa baixa no consumo passa para a indústria, que não ganhou o que projetou, e volta para o produtor”, observa. Guerra acredita que prever preços é difícil, já que “vivemos tempos de mercados inseguros e que precisam ser avaliados a cada mês”.
O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag/RS), Carlos Joel da Silva, afirma que para o produtor a situação é ruim. Ele cita a estiagem que, entre outros danos, está dificultando o trato do gado leiteiro pela falta de pastagens, pela alta na cotação da saca de milho, que chega aos R$ 80,00, e pela escassez de milho de qualidade para fazer silagem.
“Se persistir a estiagem, a tendência é de baixar a produção e o preço se mantém”, avalia Silva. Mas isso não necessariamente é bom para o pecuarista, porque terá menos leite para ofertar. Por outro lado, o presidente da Fetag/RS esclarece que se chover aumenta a disponibilidade e o preço pago ao produtor vai cair.
Outro item que entra nos cálculos da cadeia leiteira é o auxílio emergencial do governo federal para a população de baixa renda enfrentar a pandemia da Covid-19. “Se for suspenso (ao final do ano, como está previsto), o consumo deve cair e proporcionar a formação de estoque”, prevê Rizzo. “Neste quadro, a tendência será de queda no preço”, explica.