Rural

“Sobraram três vacas mortas na volta da casa”

Diante da perda avassaladora nas propriedades, agricultores familiares como Roberto Luiz da Silva, de General Câmara, questionam o futuro na atividade agropecuária depois de enfrentar a maior enchente da história

Das 36 vacas na propriedade, restaram apenas três carcaças de animais afogados pela enchente
Das 36 vacas na propriedade, restaram apenas três carcaças de animais afogados pela enchente Foto : Arquivo Pessoal / CP

O desastre das cheias colocou mais incertezas e dificuldades no caminho da agricultura familiar gaúcha. Atormentados por perdas de lavouras, rebanhos, isolados pela destruição de estradas, casas e galpões, produtores de áreas inundadas convivem com a desesperança e dúvidas sobre o futuro da produção agropecuária.
Em General Câmara, a 76 quilômetros de Porto Alegre, o pecuarista Roberto Luiz da Silva viu o trabalho de uma vida inteira sucumbir às águas barrentas do Rio Taquari. Nos últimos dias, Roberto, a esposa, Erecê Fernandes, e as filhas Bruna, grávida de sete meses, e Raíssa lutaram para salvar vacas leiteiras e a própria vida durante a enxurrada. Em depoimento ao Correio do Povo, Roberto narrou a agonia vivida por testemunhar o desaparecimento da vida como conheciam. O esforço físico e os investimentos que fizeram para melhorar a produção de leite foram jogados à lama. Assim como Roberto, milhares de famílias rurais procuram acordar do pesadelo e encontrar discernimento sobre o que fazer a partir de agora. Leia o depoimento:


“Aqui não dá para dizer que está bom. Vivíamos em quatro pessoas na casa, hoje estamos vivendo de favor. Moramos na localidade de Volta dos Freitas, em General Câmara. Nasci e me criei ali. Tenho 46 anos. Nunca tinha visto enchente chegar na minha casa. É uma parte baixa, chegava água em volta, mas na casa nunca foi. Então a gente estava acostumado com aquilo. Chegava água, a gente puxava as coisas para o alto e ficava tranquilo, prevenido, com comida, sem maior preocupação.
Desta vez foi diferente, homem. A gente se preparou, sabia que vinha enchente, mas ficou por ali. Falaram que era grande, mas pensamos que não teria problema. Poderia dar mais alto do que as outras, mas que não haveria problema. Fomos ficando, e o bicho foi pegando. Trabalho com tambo de leite, tinha 36 animais na propriedade.

A água foi subindo. Pensei, o que vou fazer? As vacas são meu ganha-pão. Fui amarrando elas nos tratores, que coloquei para fora dos galpões, para tentar salvá-las. Pensei, eu vou até o fim, não posso deixar, não posso perder isso aqui. Como vou pagar minhas contas? A gente tem dívidas, tem investimento. Passamos a noite em cima de um galpão porque começou a entrar água dentro de casa, monitorando os animais.

A água foi subindo, chegando à barriga, às costelas, cobrindo os animais. Falei, vou lá cortar as cordas para os bichos irem embora, pelo menos não morrerem aqui. Não adiantava, tinha que ser realista, as notícias não eram boas. A água era para subir ainda mais. Fui lá e cortei todas as cordas e disse para a família: vamos pedir socorro, aqui já deu o que tinha que dar. Perdemos tudo, indo água abaixo. E assim fiz. O pessoal veio com uma embarcação para nos resgatar. Saímos só com a roupa do corpo. Não tem como levar tudo em uma lancha. Saímos com a roupa que estávamos em cima do galpão, tentamos pegar uns documentos, pouca coisa. Foi tudo embora.

Eu tinha feito um galpão novo no ano passado, um investimento grande, com ordenha canalizada, sala de alimentação, tinha investido no leite. Estou há 13 anos na atividade. No ano passado investi pesado. Ficou resfriador, ordenha, tudo embaixo d’água. Na semana da enchente eu tinha pego ração, adubo, semente de azevém para fazer pastagem para as vacas.

Tenho um boleto de R$ 6 mil para pagar. Está lá o boleto e não sei como vou pagar. Pagar de que jeito? Ficou tudo. Carro, trator, a casa com toda a mobília dentro, coisas que levei 25 anos para conseguir, lutando, peleando, para em uma noite ir tudo água abaixo. Está sendo bem triste a situação. Estamos aqui, morando de favor com minha família em um galpão que o pessoal nos cedeu, para ter um canto, para pensar o que vamos fazer daqui para a frente. Desde que saí da propriedade já comecei a pensar em não voltar mais pra lá.

Não tem o que fazer. Investir em vaca de novo? Eu tinha 80 carretas de silagem de milho, tinha três hectares de milho para colher. Perdemos tudo. Dos animais, sobraram três vacas mortas na volta da casa, que tentaram escapar, mas duas ficaram trancadas dentro do galpão. Botaram o galpão todo abaixo. Ontem (terça-feira, dia 7) foram retiradas as três vacas mortas. Sobreviveram apenas dois gatos e um cachorro. É triste a realidade, homem, o que estamos vivendo. A gente é acostumado com o conforto da gente dentro de casa, cama boa, travesseiro bom.

Hoje estamos vivendo de colchão velho, não que eu esteja me queixando disso, porque graças a Deus tem pessoas que estenderam a mão. De noite, tu dormes um cochilo, acorda, começa a pensar na vida, nas tuas coisas. É triste. É o que eu e minha família estamos passando. Não desejo isso nem para meu pior inimigo. Aqui não tem mais nem uma bicicleta para andar mais. Estou sem rumo. Não sei para que lado vamos seguir, o que vamos fazer da vida. Só quero fazer força para não voltar mais pra lá. Não tem como viver mais lá.”