Rural

Suinocultura celebra temporada de sucessos

Recordes de exportações e custo de produção mais baixo na alimentação dos rebanhos colocam a atividade em momento animador

A suinocultura brasileira é a quarta maior exportadora do mundo e o Rio Grande do Sul o segundo no ranking de maiores exportadores entre os estados
A suinocultura brasileira é a quarta maior exportadora do mundo e o Rio Grande do Sul o segundo no ranking de maiores exportadores entre os estados Foto : Ronaldo Rosa/Embrapa/Divulgação/CP

A suinocultura brasileira vivencia um dos seus melhores momentos nos últimos tempos. No Rio Grande do Sul, que detém a terceira maior suinocultura entre os estados em número de abates e a segunda em exportações, não é diferente. As principais razões da conjuntura favorável são os custos mais baixos para a alimentação dos suínos e as exportações em alta, cujos números dos embarques têm sido superados mês após mês. O país está consolidado na quarta colocação entre os maiores exportadores da proteína, logo atrás do Canadá, ranking que tem Estados Unidos e União Europeia na frente. No ano passado, o Brasil embarcou o seu recorde de 1,253 milhão de toneladas de carne suína, o que gerou a receita de 3,033 bilhões de dólares. Os principais destinos foram Filipinas, China e Chile.

Em 2025, até outubro, as vendas ao exterior superaram as do mesmo período de 2024 em 12,9%: 1,266 milhão de toneladas, contra 1,121 milhão de toneladas em igual intervalo do ano passado. Em receita, a alta acumulada chega a 22,7%, com 3,046 bilhões de dólares até outubro, contra 2,482 bilhões de dólares no mesmo período de 2024. Assim, a receita registrada nos dez primeiros meses já supera o total obtido no ano passado, de 3,033 bilhões de dólares. E o número já é recorde histórico para um ano inteiro. Os embarques de outubro, de 144 mil toneladas, foram o segundo maior resultado mensal da história do setor, 10,1% a mais que outubro de 2024. Já o Rio Grande do Sul, no mês passado, vendeu ao exterior 36,5 mil toneladas, 32% a mais que em outubro/24.

No Estado, o setor suinícola tem uma grande representatividade entre as atividades agropecuárias. O Valor Bruto de Produção (VBP) em 2024 foi de R$ 9,53 bilhões, ou 9% de todo o VBP da agropecuária gaúcha. Em relevância, está atrás somente de soja, do arroz e do frango. Foi o que apurou a Radiografia da Agropecuária Gaúcha 2025, elaborada pela Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi). O documento apontou o abate de 10,27 milhões de cabeças no ano passado, o que resultou em 958,7 mil toneladas de carne. As exportações geraram a receita de 625,8 milhões de dólares, e os principais clientes foram, pela, ordem, China (29,1% do total), Filipinas, Chile, Singapura e República da Geórgia.

Além das exportações aquecidas, o presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs), Valdecir Folador, destaca as cotações em baixa de milho e soja, a base da alimentação dos suínos, como um fator fundamental para fase alentadora da suinocultura. Segundo ele, já são 14 meses de um momento positivo. “O setor recuperou preços, recuperou rentabilidade e estabilidade de custos. Então, o setor vem passando um momento muito bom economicamente. Os produtores estão conseguindo ter margens positivas”, descreve.

“O preço do suíno está bom, o mercado está enxuto, pouca oferta de animais no mercado independente, do suinocultor fora do sistema de integração das cooperativas e das grandes agroindústrias. Então, a compra está muito boa. E o preço está cobrindo os custos de produção e deixando margem”, avalia o presidente. De acordo com Folador, se for comparado o preço e o custo, o produtor, ao longo do ano de 2025, teve uma margem, recuperando o caixa, colocando em dia todas as suas contas e fazendo melhorias nas suas granjas. “É um ano de preços bons e é o que vemos para o encerramento de 2025. Em 2026, tudo se desenha para que tenhamos boas cotações e o produtor tendo lucro”, completa.

Folador ressalta que o Rio Grande do Sul mantém um mercado consolidado, tanto nacional como internacional, com 25% da produção encaminhada a outros países. Do restante produzido, metade vai para outros estados. “Temos um parque industrial muito bem estabelecido, forte, sólido economicamente. Todas as grandes empresas brasileiras têm plantas frigoríficas no Rio Grande do Sul, sistemas de produção com seus produtores integrados. Então, a suinocultura do Rio Grande do Sul é extremamente qualificada e profissional”, define o dirigente.

No Estado, 70% da produção é gerada por produtores integrados a indústrias, inclusive cooperativas, e o restante por independentes, que comercializam seus animais junto a pequenas, médias e grandes empresas, até com frigoríficos de Santa Catarina e Paraná. Os independentes podem negociar para ter melhores margens e rentabilidade conforme cada comercialização.

Já o integrado recebe pelos índices estabelecidos de produção, pela produtividade e coeficientes do animal, e assim mantém uma renda mais constante. “Nos momentos ruins de mercado ele (integrado) não sente as oscilações, nos momentos bons valores melhores são repassados a ele”, diz Folador.

Efeitos do clima são desafio para o produtor

Secas e enchentes dos últimos anos causaram alta no preço dos grãos, especialmente do milho, o qual representa 65% das rações servidas aos suínos

Apesar dos preços das principais matérias-primas da alimentação estarem mais em conta na prancheta do suinocultor, o presidente da Associação dos Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs), Valdecir Folador, revela que os problemas climáticos que atingiram as lavouras gaúchas nas safras recentes encareceram os grãos e reduziram a oferta do milho, que representa 65% da ração, e da soja, responsável por mais 25% da dieta dos animais. “Este é o principal desafio e o que a gente sente com os impactos climáticos”, conta. Segundo ele, foi necessário buscar milho em estados do Centro-Oeste, além do Paraná e até do Paraguai. Outro efeito das sucessivas estiagens foi a dificuldade que muitos suinocultores enfrentaram para o abastecimento de água das granjas. Alguns tiverem que investir em novas formas de captação de água, como armazenar a que escorre dos telhados da estrutura, o que exigiu novos investimentos.

A atividade, no passado acusada de poluidora pela geração de amplos volumes de dejetos, se submeteu a uma grande transformação e atualmente pode ser considerada exemplo na produção ambientalmente sustentável. “Hoje para você ter uma granja de suínos, do tamanho que for, independente ou dentro do sistema de integração, tem que ter todas as leis ambientais cumpridas, as licenças de instalação, de operação, capacidade de armazenagem de dejetos”, argumenta Folador. Desta forma, define o dirigente, o produtor precisa cumprir todas as normas exigidas pela legislação ambiental ou não consegue manter suínos na propriedade. “Neste ponto a suinocultura vem fazendo o seu dever de casa, o produtor vem cuidando porque, afinal de contas, a propriedade do produtor é o maior bem que ele tem”, entende. “Ele não tem interesse nenhum de causar algum dano ambiental em sua propriedade para desvalorizar o seu negócio e sofrer as consequências que, se ele não cumprir a legislação, são aplicadas”, ressalta.

Da mesma forma, o bem-estar animal é uma prioridade dos suinocultores gaúchos. Conforme Folador, a grande maioria deles já está adaptada às regras, normas e requisitos exigidos pelas normativas nacionais, principalmente as granjas novas. Nas mais antigas, que ainda são numerosas no Estado, com instalações de até 30 anos, os suinocultores receberam um prazo para implantação das melhorias.

“Os suínos têm comida à vontade e de excelente qualidade, formulada por nutricionistas com todos os níveis necessários para o melhor desempenho e saúde dos animais”, descreve Folador. “Tem médicos veterinários dando assistência em tempo integral nas granjas. Recebem todas as vacinas tanto do trato intestinal quanto do trato respiratório, e vacinas preventivas a doenças”, acrescenta. Também têm oferta de água potável, com estação de tratamento na granja, a mesma água que é consumida pelo produtor e sua família.

As situações mais favoráveis para o setor têm estimulado, inclusive, um ambiente mais propício para a sucessão familiar. Folador revela que cresceu o número de jovens que tinham deixado o campo e agora estão retornando justamente porque a atividade tem sido remuneradora. “Aos poucos vai melhorando esta situação dos jovens assumindo as granjas porque eles veem que a atividade da suinocultura na propriedade ainda deixa uma renda melhor do que qualquer emprego lá na cidade”, avalia.

A suinocultura ainda exige bastante dedicação do dono no negócio, mesmo que a automação das granjas tenha facilitado o cotidiano. “Por mais que tenha exigências, o produtor tem que trabalhar de domingo a domingo, tem as tarefas a serem feitas, porque para criar suínos você precisa estar presente. Tem cuidados que não tem como abrir mão nem no sábado, nem no domingo, nem no Natal, nem em 1º do Ano ou outra data especial. Mas a renda que tem proporcionado tem sido bastante satisfatória”, atesta.

Um dos maiores problemas enfrentados hoje pelo setor são as altas taxas de juros para financiamentos, que tornam os investimentos muito custosos. Conforme Folador, a taxa Selic “inviabiliza qualquer tomada de crédito para ampliações e crescimentos, construção de granjas novas”, o que tem levado a atrasos nos investimentos por parte de muitos suinocultores. “O governo federal fala muito em ‘Plano Safra com valores recordes’, mas quando tu vai lá buscar este dinheiro para aplicar em investimentos, seja de melhoria, de ampliação, granjas novas para crescimento, os juros inviabilizam todo e qualquer negócio”, lamenta.

O dirigente sinaliza que os investimentos hoje na suinocultura para o crescimento e inovação das granjas estão mais lentos ou mesmo pontuais, com os produtores fazendo só quando há recursos próprios. Ou para situações muito necessárias. “O dinheiro está muito caro e inviabilizando o crescimento econômico da atividade”, define.

Automação das granjas facilitou o trabalho dos suinocultores (Foto: Cooperativa Ouro do Sul/Divulgação/CP)

Cooperativa Ouro do Sul se dedica à criação de suínos há 90 anos

A Cooperativa Ouro do Sul, sediada em Harmonia, se dedica à suinocultura há nove décadas. A instituição mantém nos municípios de São José do Sul, Salvador do Sul, Maratá e Tupandi um total de 55 associados fornecedores de animais para o abate diário de 500 suínos, cujos subprodutos são comercializados por grandes redes de supermercados do Rio Grande do Sul. A cooperativa nasceu em 1935 justamente para industrializar os suínos dos associados, que até então tinham que transportar os animais de carroça por um dia de viagem até um frigorífico de Erechim. Três anos depois também começaram a ser abatidos bovinos, e hoje a Ouro do Sul atua em outras áreas, incluindo três supermercados.

A cooperativa gera em sua granja todos os leitões que os cooperados integrados engordam, que ainda recebem a ração e a assistência técnica. Ao todo, a Ouro do Sul abate entre 120 mil a 125 mil animais por ano. Conforme o diretor administrativo da cooperativa, Rogério Luis Meirer, o setor da suinocultura viveu uma “crise severa” em 2022 e 2023 em razão do aumento significativo dos custos da alimentação, mas, a partir de 2024, o cenário mudou. “O ano passado foi muito positivo, e este ano ainda continua favorável, por alguns motivos”, revela.

Entre as razões do momento satisfatório, estão os custos de milho e soja “razoavelmente estabilizados”, define, o que é fundamental, pois a alimentação representa 70% dos custos de produção na suinocultura. Além disso, Meirer revela que pela proximidade às unidades dos supermercados, a cooperativa pode oferecer cortes de suínos resfriados frescos, ou seja, uma carne diferenciada e mais valorizada.

Além disso, cita o dirigente, as exportações ajudam a aliviar a pressão sobre o mercado interno. “Apesar de não exportarmos, pois vendemos só no mercado interno, as exportações nos ajudam em muito. Se mantendo nos níveis em que estão elevadas, enxugam um pouco o mercado interno, e desta forma conseguimos sustentar preços mais justos”, descreve. Para se ter uma ideia do momento positivo, o abate diário está no limite. “Estamos com uma lista de espera (de suinocultores) considerável querendo alojar, mas estamos no limite da nossa capacidade”, pontua.

Sobre o futuro da atividade, não apenas para os associados, Meirer entende que são muitas as circunstâncias, de produção e de mercado comprador, que podem definir as realidades futuras da suinocultura. “Esse mercado é desafiador, é cíclico. Estamos olhando hoje os resultados, mas com atenção para o futuro. A suinocultura vive vários ciclos. Já viu vários ciclos: dois, três anos com resultados positivos; dois, três anos com resultados muito ruins”, analisa. “Se toda a conjuntura se mantiver como está hoje, as exportações nestes patamares, os custos estabilizados, a gente enxerga isso com bons olhos. Mas, infelizmente, a gente não pode projetar isso muito para a frente, porque tem toda uma instabilidade social, política e econômica que não nos permite fazer um diagnóstico positivo ao longo prazo”, acrescenta.

Família Mossmann amplia instalações

Um dos associados da Ouro do Sul, também vice-presidente da cooperativa, Juliano Mossmann, de São José do Sul, descendente de uma família de suinocultores. Ele entrou na atividade exatamente em 19 de setembro de 2010. O produtor cria por ano três lotes de 1.150 suínos cada, ou seja, produz 3.450 suínos a cada 365 dias, em dois pavilhões que somam 1.400 metros quadrados.

No momento, Mossmann está investindo R$ 450 mil, por meio de recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), na construção de um pavilhão de 750 metros quadrados para alojar mais 630 animais. A nova estrutura atende a normas de biosseguridade, como ter cerca de isolamento e tela anti-pássaro.

“A granja vai ser isolada. Eles chamam isso de biosseguridade, para diminuir o risco de qualquer contaminação”, descreve. Segundo Mossmann, toda a estrutura para os animais na sua propriedade é automatizada. Para atender as normas de bem-estar animal, a ração é oferecida permanentemente. “É o trato livre, e seguimos cuidando dos suínos”, define. E as cortinas para controlar a temperatura interna são controladas por sensores. O trabalho mais pesado hoje é mover os dejetos para outras propriedades agrícolas, algumas a uma distância considerável, para adubar suas lavouras ou pastagens. O suinocultor também atribui aos custos menores e às exportações o cenário mais propício da atividade.

“O momento para a suinocultura está favorável. O principal fator é a questão dos custos. Como as commodities milho e soja hoje estão com valores um pouco abaixo de patamares que já estavam, isso acaba trazendo um cenário favorável à suinocultura”, analisa. “Não que a carne esteja mais cara do que já estava em patamares anteriores, mas o custo de produção para conseguir levar o animal até o frigorífico está menor”, argumenta. “E também as exportações mês após mês batendo recordes de toneladas, isso acaba mantendo menos matéria-prima, menos produto dentro do mercado interno”, completa.

Juliano Mossmann está ampliando a estrutura para produção de suínos (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/CP)

Rodeio Bonito produziu 266 mil animais em 2024

Segundo a Radiografia da Agropecuária Gaúcha 2025, lançado pelo governo estadual durante a Expointer deste ano, os dez municípios que detiveram em 2024 as maiores produções suinícolas do Estado foram, pela ordem, Rodeio Bonito, Palmitinho, Aratiba, Santo Cristo, Nova Candelária, Rondinha, Boa Vista do Buricá, Três Passos, Pinheirinho do Vale e Pinhal. O líder, Rodeio Bonito, com 7 mil habitantes, esteve à frente do ranking por seis anos, mas em 2023 tinha perdido o posto para Rondinha, lugar recuperado no ano passado, quando exatos 266.011 suínos foram produzidos. A região onde se localiza o município, a Médio Alto Uruguai, é a maior produtora do Rio Grande do Sul, com 1.982.523 suínos abatidos em 2024, ou 17,47% do total.

O prefeito de Rodeio Bonito, Paulo Duarte, destaca a relevância da suinocultura para a cidade. “É o maior retorno disparado do município. A suinocultura representa uns 70% do ICMS do município. E agrega ainda a questão da bacia leiteira e o gado de corte, porque os dejetos são utilizados para fazer a adubação das pastagens. Já dá o ‘casamento’. Futuramente, vão ser usados (os dejetos) também para a produção de grãos”, diz.

“Além de movimentar o comércio, a suinocultura está melhorando a qualidade de vida, a parte financeira das pessoas”, descreve Duarte. Conforme o prefeito, a estabilidade tem melhorado bastante. “Pessoas que tinham dificuldade de recursos no dia a dia, hoje, com a suinocultura, já mudaram. É outro patamar, uma vida melhor na parte financeira”, complementa.

Duarte relata que o incremento na arrecadação com a atividade permite investir na área social, na saúde, na educação, obras, agricultura, tudo aquilo que envolve o desenvolvimento de Rodeio Bonito.

O município se tornou gigante na atividade a partir da iniciativa do precursor Sady José Acadrolli, que hoje ainda mantém uma grande estrutura em suinocultura na localidade. Os suinocultores locais são produzidos no modelo integrado para duas grandes agroindústrias, a JBS e a cooperativa catarinense CooperA1. “Estamos bem servidos de empresas parceiras com os suinocultores, que, com certeza, estão viabilizando e melhorando mais”, comenta Duarte. Ele conta que a prefeitura facilita os investimentos dos produtores, cedendo as máquinas para realizar a terraplanagem, a estruturas de produção e para a construção de estradas, além de disponibilizar a manta para fossas dos dejetos. “A suinocultura aqui está num patamar muito alto. Eu acredito que cada vez vai melhorar mais”, prevê.

Rodeio Bonito é o município com a maior suinocultura do RS (Foto: Edevaldo Stacke/Divulgação/CP)

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