Rural

Tabaco ganha destaque nas exportações

Produto ainda não manufaturado mantém segunda posição no ranking das vendas externas do agronegócio do Rio Grande do Sul, com valor de 2,97 bilhões de dólares, atrás apenas da soja em grãos

Foto : SindiTabaco / Divulgação / CP

“Batemos na trave.” Assim, reage o presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (Sinditabaco), Valmor Thesing, ao examinar os resultados das exportações brasileiras de fumo e, portanto, gaúchas, em 2024. A trave a qual se refere Thesing era a expectativa, manifestada no final de outubro, de que a movimentação dos negócios externos do setor no país atingisse 3 bilhões de dólares. Chegou perto, 2,97 bilhões de dólares, um aumento de 9,1% em relação a 2023.

No setor, o segmento do fumo não manufaturado (fumo em folha, em fardos) representou o grande destaque, com 2,7 bilhões de dólares. Desse total, 93,7%, ou 2,53 bilhões de dólares, foram provenientes dos embarques do Rio Grande do Sul. Foi o segundo produto mais exportado pelo Estado no ano passado, de acordo com o Painel de BI (Business Intelligence) das Estatísticas das Exportações do RS, ferramenta de dados lançada em dezembro pelo Departamento de Economia e Estatística (DEE) da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do governo do Estado.

Com participação de 11,6% no total de 21,9 bilhões de dólares oferecidos pela exportação ao RS em 2024, o fumo não manufaturado ficou atrás apenas da soja em grãos, que somou 4,56 bilhões de dólares (20,9%). O desempenho dos dois segmentos repete, ainda que com crescimento, resultados de anos anteriores, como explica Ricardo Leães, pesquisador da DEE.

“Desde o início da série histórica das exportações no Rio Grande do Sul (iniciada em 1997), temos poucas surpresas. A transformação mais significativa foi a queda dos calçados, principal produto até o final dos anos 1990 e o surgimento da soja. Hoje, a tendência é a soja ser sempre o produto mais exportado (considerando valor)”, diz Leães.

O segundo lugar, no entanto, acaba envolvendo alguma disputa, na qual o fumo não manufaturado tem desempenhado com relativo conforto. Thesing comemora os números de 2024 como o terceiro melhor no histórico, além do crescimento registrado desde 2021. Em 2024, aumentou 8,9%. Em 2023, 10,9%. Em 2022, notáveis 70,8%. Na análise de Leães, os aumentos refletem o aumento de preço do produto e a pressão internacional para redução da produção, “por conta dos efeitos deletérios do tabagismo”.

O pesquisador ressalta que o fumo produzido em Santa Catarina e no Paraná, de maneira geral, vem para o Rio Grande do Sul. Os números confirmam. Na safra de 2023/2024, por exemplo, o RS colheu 43,3% das 541 mil toneladas de fumo brasileiro, mas embolsou 93,7% dos dólares que renderam a exportação. “O produto precisa passar por algum tipo de beneficiamento. O produtor colhe, coloca nas estufas, mas é preciso passar pela indústria, que classifica o fumo de acordo com a qualidade, empacota e vende para o exterior”, diz Leães, descrevendo parte da atividade do que compõe o sistema integrado de produção de tabaco do país. Para Thesing, é justamente esse sistema que está garantindo o desempenho. “Esse sistema tem mais de cem anos no Brasil, que inclusive serviu de modelo para outras cadeias produtivas”, salienta Thesing.

“As empresas fornecem assistência técnica, fornecem os insumos. Ao longo de décadas, o Brasil foi se especializando nesse sistema, o que levou a essa posição destacada, de ser o maior exportador global de tabaco”, acrescenta.

Juntos, União Europeia, China e Estados Unidos absorveram 63,79% das exportações de fumo não manufaturado do Rio Grande do Sul, o equivalente a 1,61 bilhão de dólares. Em sétimo lugar no ranking, o Paraguai é o único país sul-americano entre aqueles com mais de um ponto percentual no valor total das exportações. Os negócios com a nação vizinha resultaram num faturamento de 81,5 milhões de dólares, mas parte desses recursos pode estar retornando à origem por meio do contrabando de cigarros. Realizada em 2022, uma pesquisa do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade aponta que 33% do cigarro consumido no Brasil, naquele ano, foram provenientes de descaminho vindo do Paraguai.

Fumicultura poderá alcançar safra 37% maior

Colheita do cultivo já atingiu 90% da área plantada no Rio Grande do Sul, de 131,7 mil hectares, devendo encerrar-se em março nos estados três sulinos com previsão de volume entre 650 mil e 750 mil toneladas

| Foto: Leandro Maciel

Aberta no dia 8 de novembro de 2024, em Rio Pardo, a colheita do tabaco no Rio Grande do Sul alcançou, cerca de três meses depois, no dia 7 de fevereiro, 90% da área plantada, de acordo com a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). Considerando os três estados da Região Sul do Brasil, os principais produtores do país, as previsões são positivas, com possibilidade de o volume ser 37% maior em 2024/2025, comparado com 2023/2024. A colheita deve ser finalizada em março.

“Estimamos algo em torno de 650 mil a 700 mil toneladas para os três estados do Sul”, diz Valmor Thesing, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (Sinditabaco). Em 2023/2024, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná somaram 508 mil toneladas. Com isso, a produtividade subiria 25,67%, índice impulsionado por Santa Catarina (34,05%), Rio Grande do Sul (22,13%) e Paraná (21,50%). As três unidades federativas ampliaram em 9,08% a área destinada à cultura, na comparação com o ciclo anterior, atingindo 309.892 hectares. O maior aumento ocorreu no Paraná, 13,63%, que soma 83.981 hectares. Santa Catarina, com 94.212 hectares, adicionou 11,78%. O Rio Grande do Sul segue com o maior território dedicado ao tabaco, com 131.789 hectares, mas com o menor crescimento da área, 4,6%.

Na avaliação do presidente da Afubra, Marcílio Drescher, o incremento da área e do número de famílias envolvidas com a atividade seria decorrente dos bons rendimentos obtidos com as duas últimas safras. Entre os três estados do Sul, o número de famílias subiu 3,57%, passando de 133.265 em 2023/2024 para 138.020 em 2024/2025. Novamente o Paraná lidera a expansão (10,1%), seguido de Santa Catarina (4%) e Rio Grande do Sul (0,96%).

No Rio Grande do Sul, a lavoura do fumo foi pouco afetada pela estiagem que atinge o Estado desde dezembro.

“O impacto é relativamente pequeno quando nós comparamos com outras culturas. Calculamos que seja, no máximo de 10%. Vamos ter que aguardar os próximos dias”, afirma Thesing.

Na Região Centro, incluindo os vales do Rio Pardo e do Taquari, a atividade está praticamente concluída, informa o presidente do Sinditabaco. Mesmo onde o clima impôs alterações, a produtividade manteve-se preservada.

Conforme o Informativo Conjuntural da Emater-RS/Ascar, na região de Santa Rosa, por exemplo, a safra foi encerrada precocemente, com a produtividade seguindo “em patamares excelentes”, acima dos anos anteriores.