Rural

Trigo gaúcho pode ter selo de origem no futuro

Representantes de entidades, empresas, administração pública e pesquisadores traçam boas perspectivas para o cereal

Foto : Fernando Dias / Seapdr / Divulgação / CP

Os resultados obtidos nos últimos anos mostraram que a cultura do trigo no Rio Grande do Sul evoluiu a ponto de levar a indústria moageira estadual a reduzir as tradicionais importações que fazia da Argentina e outros países e abrir a perspectiva de abastecer mais estados do Brasil no futuro. Foi o que apontaram os participantes da edição especial do programa Guaíba Correio Rural de sábado, apresentado pelo jornalista Sandro Fávero, na qual foi destacado o lançamento da campanha “Trigo Gaúcho –  é Bom, é Gaúcho, é Nosso”. 
A campanha é promovida pela Biotrigo Genética com apoio do Governo do Estado, Emater/RS-Ascar, Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro), Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag), Sindicato da Indústria do Trigo no Estado do Rio Grande do Sul (Sinditrigo/RS), Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria e de Massas Alimentícias e Biscoitos no Estado do Rio Grande do Sul (Sindipan/RS) e de veículos de comunicação, entre os quais o Correio do Povo e a Rádio Guaíba.
Ao ressaltar que a campanha destaca a qualidade e valoriza o trigo gaúcho, o gerente comercial para a América Latina da Biotrigo Genética, Fernando Michel Wagner adiantou que as ações de promoção não vão parar por aqui. “Espero que um dia possamos colocar nas embalagens um selo do grão produzido no Rio Grande do Sul”, revelou, referindo-se ao reconhecimento que isso dá ao produto, como já ocorre com o vinho e carnes de algumas regiões do Estado. 
O diretor de negócios e pesquisador da Biotrigo Genética, André Cunha Rosa, mostrou-se esperançoso de um dia ver o trigo gaúcho sendo levado de navio para os portos do Nordeste, onde há moinhos estruturados hoje para receber cargas de outros países, que podem ser substituídas pelas enviadas do Rio Grande do Sul.
<VS10.5>QUALIDADE. Os participantes do programa foram unânimes ao admitir que houve um esforço feito por toda a cadeia produtiva, com participação direta da pesquisa, na melhoria e desenvolvimento de cultivares para as condições locais. Além disso, houve foco na busca da qualidade para ampliar a entrega do cereal segregado aos moinhos, especialmente para a panificação, que consome cerca de 60% da farinha derivada do grão. Esses fatores estão entre as razões para que as importações feitas pela indústria gaúcha caísse de 443 mil toneladas em 2019 para 259 mil toneladas em 2020.
O presidente da FecoAgro, Paulo Pires, lembrou que nos anos 1970 houve uma campanha para elevar a produtividade do trigo no Estado de 900 quilos para 1.500 quilos por hectare. “Hoje temos lavouras que colhem mais de 4 mil quilos, com meta de ir a 6 mil quilos”, comparou. O dirigente destacou ainda que, se considerado o potencial de usar no inverno, para cultivo do trigo, 30% dos quase 7 milhões de hectares cultivados com soja e milho no verão, a área atual do cereal, próxima de 1 milhão de hectares, pode dobrar.
<VS10.5>SISTEMA. O vice-presidente e coordenador da Comissão de Trigo e Culturas de Inverno da Farsul e presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva das Culturas de Inverno do Ministério da Agricultura, Hamilton Jardim, destacou que o trigo tem que ser contextualizado dentro de um sistema de cultivo, citando ganhos que o plantio no inverno pode dar ao produtor pela sua própria rentabilidade e também pela que agrega às culturas de verão. “A soja plantada em cima do trigo ou de resteva bem manejada dá uns dez sacos a mais, tem produtores que conseguem até 15”, ressaltou.
“É muito importante incentivar o cultivo do trigo, até porque sua produção traz mais sustentabilidade, prepara e protege o solo no inverno para que possamos ter na safra de verão bons frutos e boas colheitas”, reiterou o secretário da Agricultura, Covatti Filho. “O trigo integra sistemas de rotação de cultura, melhorando a fertilidade química e física do solo”, reforçou o gerente regional da Emater/RS-Ascar em Ijuí, Carlos Alberto Turra.
O presidente do Sinditrigo, Rogério Tondo, recordou que há cerca de 20 anos o trigo gaúcho era tido como de baixa qualidade. E narrou a evolução do produto, que se destacava como matéria-prima para biscoitos e tinha como desafio o fornecimento para pães. Com ajuda da pesquisa, os produtores cumpriram esta tarefa. “Hoje, a maior parte do trigo do Rio Grande do Sul é destinada à panificação”, comparou. O presidente da Fetag, Carlos Joel da Silva, observou que “há variedades superiores às da Argentina” sendo cultivadas no Estado. “Hoje o produtor já vê perspectiva, tem preços, os moinhos estão comprando.”