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Um quarto do milho exportado pelo Brasil em 2025 foi para o Irã

Decisão de Trump de taxar países que negociarem com os iranianos poderá ter efeitos no agro brasileiro

Das 40,9 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil no ano passado, 9,1 milhões foram para os iranianos, ou 22% dos embarques do cereal
Das 40,9 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil no ano passado, 9,1 milhões foram para os iranianos, ou 22% dos embarques do cereal Foto : Pixabay / Divulgação / CP

O anúncio do presidente Donald Trump que irá impor uma tarifa adicional de 25% a países que fizerem negócios com o Irã pode impactar diretamente o agronegócio brasileiro. Para o consultor gaúcho Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, para o agro global e, de “forma particularmente sensível”, para o agronegócio brasileiro, os efeitos são relevantes, ainda que assimétricos entre mercados.

“Milho, soja e fertilizantes emergem como os segmentos mais expostos, seja pela concentração de fluxos comerciais com o Irã, seja pela amplificação da volatilidade em um ambiente já marcado por excesso de oferta global e competição acirrada entre exportadores”, lista Cogo.

Para o consultor, a decisão de Trump “inaugura uma nova fase de interferência geopolítica no comércio internacional”. “A medida, descrita como ‘final, conclusiva e efetiva imediatamente’, extrapola o escopo tradicional de sanções bilaterais ao adotar um caráter extraterritorial, penalizando terceiros países e introduzindo riscos sistêmicos às cadeias globais de suprimento, financiamento e logística”, analisa.

No ano passado o Brasil teve um superávit comercial de US$ 2,8 bilhões com o Irã, visto os embarques de US$ 2,9 bilhões e as importações de US$ 84,6 milhões. “Embora o Irã represente apenas 0,84% das exportações brasileiras (31º destino) e 0,03% das importações (82º fornecedor), sua relevância torna-se expressiva quando analisada sob a ótica setorial do agronegócio”, esclarece Cogo.

Geopolítica

Os principais produtos enviados pelo Brasil ao Irã em 2025 foram milho, US$ 2 bilhões – o que fez do Irã o maior cliente no ano passado, ou 67,9% do total exportado àquele país, e soja em grão: US$ 563,6 milhões, 19,3% do total. Já quanto as compras brasileiras, destaque a fertilizantes, com US$ 66,8 milhões, ou 79% das importações junto ao país.

“A adoção de sanções com alcance extraterritorial reforça a tendência de crescente predominância de fatores geopolíticos e de segurança regional sobre os fundamentos tradicionais de oferta e demanda”, explica o especialista.

“Em 2026, o comércio internacional de grãos passa a operar sob maior grau de fragmentação, com aumento dos riscos financeiros, logísticos e contratuais, afetando diretamente a previsibilidade dos fluxos comerciais”, acrescenta.

Vulnerabilidade no milho

No caso do milho, Cogo entende que é o segmento de “maior vulnerabilidade” para o Brasil. Em 2025 o país exportou ao todo 40,9 milhões de toneladas, das quais 9,1 milhões para os iranianos, ou 22% dos embarques do cereal. “A instabilidade política e financeira no Irã resultou na paralisação de cerca de 90% das operações comerciais, principalmente em razão de dificuldades na obtenção de cartas de crédito e na comunicação bancária internacional”, conta.

“Diante da superoferta global e da concorrência intensa, especialmente dos Estados Unidos, a realocação dos volumes tradicionalmente destinados ao Irã torna-se extremamente limitada, pressionando preços internos, elevando estoques e comprimindo margens ao produtor brasileiro, sobretudo nas regiões exportadoras”, conclui.

Na soja, os efeitos diretos da medida são menores. “O Irã não representa um destino crítico para as exportações brasileiras, enquanto a demanda internacional, em especial a asiática, tende a se concentrar no Brasil por períodos mais prolongados, em função da competitividade de preços e da escala produtiva”, descreve. Já em relação aos fertilizantes, o impacto é “marginal em volume e relevante em percepção de risco”, define Cogo.

“Embora o Irã não figure entre os maiores fornecedores globais de fertilizantes, sua participação em determinados nitrogenados e misturas químicas confere importância marginal ao país”, estima. “As importações brasileiras de fertilizantes iranianos somaram US$ 66,8 milhões em 2025, valor reduzido em relação ao total importado pelo país. Não se observa risco imediato de desabastecimento”, entende.

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