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Ipanema: conheça a história do bairro porto-alegrense que homenageia o Rio de Janeiro

Anunciado nos anos 1930 como a “mais agradável estação de veraneio”, o bairro costumava reunir multidões às margens do Guaíba

Antes das estradas facilitarem o caminho até o litoral, era em balneários como Ipanema, às margens do Guaíba, que porto-alegrenses passavam o verão
Antes das estradas facilitarem o caminho até o litoral, era em balneários como Ipanema, às margens do Guaíba, que porto-alegrenses passavam o verão Foto : Alberto Etchart / CP Memória

Nos anos 1930, o engenheiro Oswaldo Coufal decidiu recriar na Zona Sul de Porto Alegre um pedaço do Rio de Janeiro. Batizou ruas, avenidas e o próprio loteamento com nomes cariocas, criando às margens do Guaíba a Ipanema gaúcha.

O projeto urbanístico do bairro fez parte de um movimento maior, que buscava criar o destino ideal para quem não podia viajar até as praias do litoral nas temporadas de verão ou mesmo nos fins de semana, já que, na época, o trajeto podia durar mais de um dia. Não à toa, as ruas do bairro também carregam nomes de praias do litoral do Rio Grande do Sul, como Atlântida, Capão da Canoa e Tramandaí.

A tradição de aproveitar os dias quentes no Balneário Ipanema persistiu por décadas. Prejudicadas pela distância e pelas dificuldades de acesso às praias oceânicas, milhares de famílias encontravam nas águas do Guaíba sua principal alternativa de lazer. O Correio do Povo retratou esse cenário no início dos anos 1970 ao escrever que “quem não foi ao Atlântico, procurou o Guaíba”. Segundo a reportagem, as praias do bairro recebiam multidões de crianças e famílias nos dias de sol.

Fotos e registros da época mostram a extensa faixa de areia disputada por banhistas. Além do banho de lago e dos pedalinhos, a orla reunia passeios de bicicleta, partidas de vôlei e praticantes de natação que aproveitavam para se refrescar e praticar esportes.

Bairro Ipanema em registro de 1970 | Foto: José Abraham / CP Memória

A paisagem que faz de Ipanema um dos principais cartões-postais de Porto Alegre ainda preserva o encanto visual, mas a relação com as águas já não é a mesma. Atualmente, os monitoramentos de balneabilidade realizados pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) classificam a praia como imprópria para banho, embora ela continue sendo frequentada pela população.

A diferença é lembrada pelo professor, historiador e morador do bairro desde 1940, Harry Rodrigues Bellomo. Em depoimento publicado na dissertação “O Veraneio de Antigamente”, ele recorda que as águas eram limpas o suficiente para ver os peixes, numa época em que “o Arroio Capivara ainda não poluía a praia”.

Com o crescimento urbano, esse arroio passou a receber águas contaminadas por esgoto doméstico antes de desaguar no Guaíba, contribuindo para a degradação ambiental da região e para o fim de uma era para os veranistas porto-alegrenses.

Aviso sobre balneabilidade da praia | Foto: CP Memória

Mas nem sempre o Arroio Capivara esteve associado à poluição. No início da década de 1930, quando a região ainda era conhecida como Passo do Capivara, suas águas irrigavam plantações e abasteciam as propriedades rurais que ocupavam aquela parte da Zona Sul de Porto Alegre. Enquanto bairros vizinhos, como Tristeza, Pedra Redonda e Cavalhada, já se desenvolviam, Ipanema permanecia pouco ocupado, de acordo com a pesquisa “História dos bairros de Porto Alegre”.

Entre as propriedades da região estava a chácara de veraneio do comerciante português Antônio Francisco de Castro, conhecido como Comendador Castro. Construído no fim do século XIX, o casarão da família ainda resiste na rua que hoje leva seu nome e é um dos poucos remanescentes daquele período. Após a morte do comendador, em 1929, parte das terras foi vendida por seus herdeiros a Oswaldo Coufal, que daria início ao loteamento do Balneário Ipanema.

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O planejamento do Balneário de Ipanema

Engenheiro, Coufal pretendia transformar uma área ainda essencialmente rural em um balneário planejado às margens do Guaíba. Baseado no conceito de “Cidade-Jardim”, o projeto previa ruas largas, calçadas e arborizadas, amplas avenidas e a “promessa de se transformar na mais agradável estação de veraneio da população”, segundo a historiadora Janete Machado.

Os terrenos eram vendidos em prestações sem juros, com anúncios publicados nos jornais destacando justamente a proposta de um espaço de lazer moderno para os porto-alegrenses.

A inspiração vinha da Cidade Maravilhosa, o Rio de Janeiro, cidade onde costumava passar as férias com a família. Foi dessa admiração que surgiram o nome Ipanema e a escolha de ruas que homenageiam bairros cariocas, como Leblon, Gávea, Flamengo e Leme. Em 1938, a prefeitura de Porto Alegre oficializou os nomes escolhidos por Coufal e seus sócios.

O sucesso do Balneário Ipanema não ficou restrito às temporadas de verão. A partir da década de 1950, muitos veranistas passaram a construir casas para morar definitivamente no bairro, atraídos pela tranquilidade, pela proximidade com o Guaíba e pela qualidade de vida oferecida na Zona Sul.

Paisagem no Balneário | Foto: CP Memória

Consolidação como bairro valorizado

Com o crescimento residencial, Ipanema passou a atrair médicos, advogados, empresários e outros profissionais liberais, consolidando-se como um dos bairros mais valorizados de Porto Alegre.

O antigo balneário deu lugar a um bairro predominantemente residencial, mas preservou características que o tornaram conhecido ao longo do século passado. Hoje, Ipanema reúne cerca de 13,7 mil habitantes, o equivalente a 0,97% da população de Porto Alegre. É também um dos bairros mais envelhecidos da capital, com aproximadamente 48% dos moradores com 60 anos ou mais, e figura entre os de maior renda média por domicílio, de 6,94 salários mínimos, de acordo com informações do Observa POA.

A relação com a natureza, que ajudou a moldar a história de Ipanema, continua presente no cotidiano. A orla do Guaíba segue atraindo caminhantes, corredores e ciclistas, enquanto áreas verdes do entorno permanecem no centro dos debates sobre o futuro do bairro.

Em junho deste ano, moradores da Zona Sul realizaram uma caminhada na orla de Ipanema em defesa da Mata do Espírito Santo, uma das últimas áreas remanescentes de Mata Atlântica na região. O grupo protesta contra um projeto de loteamento habitacional previsto para uma área de cerca de 13 hectares entre os bairros Ipanema e Espírito Santo, demonstrando que, quase um século depois da criação do balneário, a preservação de sua paisagem natural continua mobilizando a comunidade.


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