A madrugada do dia 26 de abril de 2024 foi marcada pelo incêndio em uma das unidades da Pousada Garoa, em Porto Alegre. O fogo deixou 11 mortos, ao menos 15 feridos. Naquela madrugada, estavam 35 pessoas, sendo que parte residia ali por meio de subsídio da Prefeitura de Porto Alegre.
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Passado um ano, a promessa de moradia digna segue sem se cumprir. Cartazes fixados em postes e anúncios entregues por redes sociais vendem o sonho de quarto a baixo custo e sem burocracia. Fotos mostram cômodos com vista para o Guaíba e outras benesses, fazendo com quem se depara com a oferta não consiga associar a Pousada Garoa com ambientes precários.
Panfletos distribuídos no Centro Histórico indicam que o escritório da empresa, na avenida Benjamin Constant, funciona de segunda a sexta, das 9h às 18h. O Correio do Povo foi conferir, mas ninguém atendeu ao estridente chamado da campainha. Além da identificação na fachada e de alguns telefones para contato, por uma porta de vidro foi possível ver um cartaz da pousada em uma das paredes do interior junto de uma mesa e um computador. Ao fundo há uma passagem para um outro ambiente onde havia luz acesa.
Entre um pequeno balcão e a entrada, haviam araras com roupas. No vidro da porta, um adesivo anuncia a promoção “Torra Torra: três camisetas por R$ 90,00”.
O escritório fica praticamente ao lado do prédio onde mais de 40 pessoas viviam em condições precárias, flagradas à época do incêndio pelo Correio do Povo. Ali, não há mais atividade. Por buracos no portão era possível ver pilhas de madeira que um dia foram divisórias de quartos. Havia muita sujeira por todo o térreo e no acesso ao subsolo, que também era usado como moradia e depósito de lixo e móveis quebrados.
Uma porta social ao lado dá acesso a dois apartamentos – como originalmente concebidos – no andar superior do prédio. Ali encontramos uma moradora, que não permitiu a entrada, mas confirmou que quatro pessoas vivem no espaço. Os quartos são divididos com tábua de lambri e cada módulo comporta dois residentes, que compartilham cozinhas e banheiros.
“É pequeno, mas para quem veio de abrigo, está bom”, justifica.
Ela vive há sete anos no local e diz pagar R$ 550,00 por mês, sem reajustes, e que custeia a despesa com benefício social.
Na unidade da avenida Sertório, nenhuma alteração externa. Assim como no ano passado, portas trancadas e nenhum sinal de moradores ou funcionários. Na fachada, uma placa indica telefones que não são mais do empreendimento e o endereço do escritório na Benjamin.
Já a unidade da rua Sete de Setembro foi desativada após o incêndio e a perda do contrato com a prefeitura. O prédio está à venda e desocupado. À noite, a calçada é tomada por moradores de rua que buscam abrigo sob a marquise.
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Na avenida Farrapos, o local do incêndio segue em escombros. Fachada e interior restam destruídos e sem perspectiva de recuperação. Ao lado, outra unidade da Garoa segue aberta e atraindo moradores. O lugar foi evacuado na noite do incêndio, mas reocupado em seguida. A única lembrança do fogo é a faixa identificando a empresa, com parte rasgada e derretida pelo calor.
A porta de aço da entrada fica trancada. Na marquise, uma câmera de vigilância controla o movimento. Após algumas batidas, uma funcionária atendeu – uma simpática venezuelana que vive no Brasil há dois anos e mora em outra unidade. Ela informou sobre o sistema de locação, valores e vagas disponíveis. Por fiam, apresentou as instalações, sob o interesse na locação.
No hall, havia um extintor de incêndio e um cartaz avisando sobre a obrigação de pagar adiantado. “Pagou, Morou” é o lema e Pix, a forma de acerto preferida. Uma porta à esquerda que leva a um balcão de atendimento. e atrás fica ao menos uma dúzia de quartos térreos e uma escada de madeira que conduz a um mezanino improvisado com mais habitações.
“Levar-te (sic) aos de cima, que são mejores”, avisou a mulher em uma mistura dos idiomas Português e Espanhol.
A zeladora voltou na porta principal, trancou com chave rumou para o andar superior, acessado por uma escada de alvenaria. A primeira parada é a cozinha coletiva, onde quatro pessoas conversavam e preparavam o café. Ela avisou que não há limite de horário para uso, desde que seja respeitado o silêncio à noite. Um dos moradores do lugar demonstrou simpatia e reforçou que o espaço é de todos.
Ao lado do espaço de refeições fica o banheiro, com dois vasos sanitários e uma pia que um dia foram da cor branca estão à disposição dos ocupantes do prédio. O chuveiro não fica no mesmo espaço.
Na sequência a mulher puxou do bolso um molho de chaves e abriu o cadeado que trancava a porta de um dos quartos vagos. O cheiro que vem do ambiente após a porta ter sido escancarada remete a um desgostoso déjà-vu; é como se estivesse de volta a abril de 2024.
Não há janela, apenas uma lâmpada pendurada pelo próprio fio que conduz a energia elétrica, assim como flagrado no ano passado. Lá dentro, nada além de uma cama de solteiro, do tipo box, muito suja. O chão é de parquet e as divisórias de lambris pintados em verde, como nas demais unidades.
Havia um quarto aberto, desocupado. Este possui janela para rua, porém há um buraco grande no vidro. Pela forma – um retângulo – a abertura abrigou no passado um aparelho de ar-condicionado.
O restante do ambiente também permanece fiel ao inquietante cenário da Pousada Garoa incendiada em abril de 2024 – em nada compatível aos anúncios de quartos limpos, arejados e com vista para as belezas naturais que um desavisado pode encontrar em redes sociais ou pelas ruas de Porto Alegre.