A viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) para os Estados Unidos, descumprindo ordem judicial, gera uma série de consequências para o campo da direita no Brasil e não há nenhuma liderança no país com capital político suficiente para assumir automaticamente o vácuo gerado pela queda do terceiro integrante da família Bolsonaro. Os desdobramentos, contudo, são imediatos e é preciso uma reorganização rápida. A avaliação é feita de forma unânime por analistas políticos e, em reservado, por expoentes gaúchos de siglas ao centro e à direita, como o próprio PL, o PP e o MDB.
Há, conforme as avaliações, pelo menos quatro consequências imediatas. A primeira é a dificuldade em manter a coesão entre os 59,8 milhões de eleitores que digitaram 22 no domingo. “A derrota de Flávio já levava naturalmente a algum tipo de reorganização, já que o apoio de grupos à direita a ele era mais pragmático do que ideológico. A fuga só precipita esse movimento, e ele precisa ser rápido. Mesmo o eleitor conhecido como bolsonarista-raiz, na prática, está se perguntando por que, enquanto sonhava com novas mobilizações, seu líder pegou um avião para Miami”, explica o professor Rodrigo González, da pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs.
O segundo desdobramento vem colado no primeiro. Começam as especulações sobre quem são os nomes com as melhores condições de assumir a liderança do campo da direita, com a lista encabeçada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Cresce no campo à direita o entendimento de que, apesar da narrativa pública inicial de parte de bolsonaristas de que Flávio é um perseguido político, a argumentação não vai resistir aos fatos e nem ao andamento das investigações que pesam sobre o senador, e tem grandes chances de “puxar para baixo” quem insistir nela. “Esse negócio de liderar a oposição dos Estados Unidos fica parecendo que não tem ninguém aqui capaz de fazer isso”, resume uma das lideranças aliadas ao PL no RS.
Flávio é investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e movimentações financeiras atípicas no mesmo processo que investiga o advogado Willer Tomaz. Foi no âmbito deste inquérito que a Polícia Federal (PF) pediu a apreensão de seus passaportes, autorizada pelo relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Alexandre de Moraes. Flávio é investigado também em outro processo no STF, que trata do financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro.
Na manhã da quarta, 28, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, voltou a reunir dirigentes estaduais e parlamentares na sede do PL em Brasília, entre eles o presidente do partido no RS, o deputado federal Giovani Cherini. Lideranças da legenda que estão na capital federal admitem que o momento é de fragilidade e que ainda não foi batido o martelo sobre o discurso a ser adotado daqui para a frente, porque há a concordância de que qualquer erro extra, a esta altura dos acontecimentos, pode resultar em perdas a longo prazo.
O governador eleito, Luciano Zucco, por sua vez, permanece no RS, para onde voltou na segunda, após integrar o grupo que acompanhou a apuração ao lado de Flávio no domingo. No Estado, a orientação é focar nas agendas da transição, dando destaque para a apresentação de mais nomes do secretariado nesta quinta-feira.
Cautela no Congresso e recuo em temas que pautaram eleição
A terceira consequência imediata da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil é o enfraquecimento da força que o PL parecia ter estabelecido no Congresso, garantindo, no primeiro turno, as maiores bancadas tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados a partir de 2027. Na terça-feira, enquanto o país acompanhava as notícias sobre o paradeiro do candidato derrotado à presidência, a federação partidária União Progressista, que reúne PP e União Brasil, divulgou nota anunciando seu apoio à reeleição de Davi Alcolumbre (União/AP) para a presidência do Senado.
No documento, os presidentes das duas siglas assinalam que “a continuidade de sua liderança (Alcolumbre) contribui para a estabilidade institucional e o equilíbrio político de que o Brasil precisa para seguir avançando nas pautas de interesse da população”. A troca do comando da Casa será em fevereiro, assim como a da Câmara.
Desde o primeiro turno, ignorando a complexidade das articulações políticas, o PL dava como certo que assumiria o posto, tanto por ter eleito a maior bancada, como em função da segurança que nutria sobre a vitória de Flávio para a corrida presidencial. Também tinha convicção do apoio automático do PP. Os primeiros sinais contrários vieram entre os dois turnos da eleição, mas seguiram desprezados. Foi neste intervalo que Alcolumbre aprovou, em tempo recorde, o fim da escala 6x1. E a antes certeza sofreu o primeiro abalo no domingo, com a derrota do senador para o presidente Lula (PT).
Na terça, confirmado que Flávio havia mesmo decidido seguir para os Estados Unidos, a pretensão começou a fazer água de verdade, reforçada por uma conta básica da composição do Senado a partir de 2027. O PL, sozinho, terá 29 das 81 cadeiras. O PT ficará com 10. Aliados como PSB, PDT e Rede somam outros seis. A federação União Progressista tem 11. Estarão na mesa, pelo menos, votos do MDB, PSD e Republicanos (17 ao todo). “O erro estratégico do PL até aqui foi acreditar que pode bancar a presidência do Senado por seu tamanho, ignorando a negociação”, resume o professor Rodrigo González.
Já havia a tendência, após o domingo, por parte de siglas do Centrão, de reaproximação com o governo, de olho tanto na ocupação de espaços no Executivo como de poder no Congresso. Na Câmara, antes mesmo da derrota, o presidente, Hugo Motta (Republicanos), colocou em curso uma tática para sua reeleição. Tanto ele quanto Alcolumbre abriram apoio para Lula na eleição, contrariando, inclusive, o posicionamento de seus partidos no segundo turno.
Dedicada ao estudo de partidos políticos e comportamentos eleitorais, a professora Silvana Krause, do programa de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs, assinala a dificuldade do PL em evitar rachas ou dissidências, a depender da pauta no Congresso. “O PL, partido digital, provavelmente enfrentará muita frustração. Os influencers da extrema-direita são canais diretos com seus eleitores em específico, e é um desafio controlar isso. Existem ainda as disputas dentro do partido e entre aliados. E, claro, há o Centrão, que perdeu espaço para o PL no primeiro turno”, elenca.
A quarta consequência da saída de Flávio é a possibilidade de recrudescimento das pautas bolsonaristas, a começar pelo enfrentamento ao Supremo. “Uma liderança que tem entre as principais bandeiras de campanha a defesa do impeachment de ministros da Corte e que, ante a determinação do recolhimento de passaportes dada por Alexandre de Moraes, foge, ao invés de enfrentar o STF, vai manter a pauta como?”, exemplifica González.
Entre integrantes do PL gaúcho, é tido como certo que, primeiro, Alcolumbre já está fazendo sinalizações com vistas a atrair partidários do ex-presidente Jair Bolsonaro. Que o partido vai precisar negociar. E que, se o atual presidente do Senado se reeleger para o posto, o ministro Kássio Nunes Marques também deve começar a temer um processo de impeachment caso mantida a pressão sobre Moraes.
