Política

Entenda em 10 pontos o caso “Dark Horse”

Filme sobre Jair Bolsonaro cria trilha do dinheiro que cruzou emendas parlamentares e o STF

A nova frente de investigação ganhou força nesta quinta-feira
A nova frente de investigação ganhou força nesta quinta-feira Foto : AFP

O filme “Dark Horse”, sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tornou-se um dos pontos de contato entre duas investigações que tramitam no Supremo Tribunal Federal. A produção é investigada por causa de dois caminhos financeiros distintos: um ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e outro relacionado a recursos de emendas parlamentares destinados a entidades que têm ligação com a produtora.

A nova frente de investigação ganhou força nesta quinta-feira,10, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão. Entre os alvos estão o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e a empresária Karina Ferreira da Gama, ligada ao Instituto Conhecer Brasil e à produtora do filme.

O nome do filme aparece, portanto, em dois contextos diferentes. No Caso Master, a pergunta é de onde vieram os recursos privados usados para financiar a produção. Na investigação conduzida por Dino, a PF tenta descobrir se dinheiro público destinado a emendas percorreu empresas e acabou chegando à produtora.

Entenda o caso:

1. Desde o início

“Dark Horse” foi concebido como uma cinebiografia de Jair Bolsonaro e tem o ator americano Jim Caviezel no papel do ex-presidente. A produção brasileira é da Go Up Entertainment, ligada à empresária Karina Ferreira da Gama. Mário Frias participa do projeto e também aparece no elenco.

As filmagens ocorreram em 2025 e o projeto ganhou atenção antes mesmo das atuais investigações. O motivo foi a dimensão da produção e, principalmente, a identidade de alguns dos financiadores. Entre eles estava Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, cuja atuação empresarial viria a ser alvo de uma investigação da Polícia Federal. O filme deixou de ser apenas um projeto cinematográfico associado ao bolsonarismo e passou a aparecer em documentos e reportagens sobre as movimentações financeiras de Vorcaro.

2. Ligação com Daniel Vorcaro

A conexão com o Banco Master começa no financiamento do filme, já que Vorcaro destinou recursos para “Dark Horse”. Parte desse dinheiro passou pelo Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos utilizado no financiamento da produção. Vorcaro tornou-se alvo de uma investigação de grande porte envolvendo o Banco Master, e suas movimentações financeiras passaram a ser examinadas pela Polícia Federal.

Com isso, os recursos destinados ao filme também entraram no radar. A investigação precisa estabelecer a origem do dinheiro, identificar os intermediários e verificar se os valores utilizados na produção têm alguma relação com as operações investigadas no caso bancário.

3. A crise do Banco Master

Em novembro de 2025, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero devido a suspeitas de fraudes financeiras bilionárias, lavagem de dinheiro e por chefiar um esquema de intimidação e coação. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.

A partir desse momento, os negócios e as movimentações financeiras do banqueiro passaram a ser examinados dentro de uma investigação mais ampla. Operações que poderiam ser vistas isoladamente ganharam outro significado para os investigadores, que passaram a procurar conexões entre os diferentes pagamentos realizados por Vorcaro.

4. Financiamento

Em maio, o site The Intercept Brasil revelou que Flávio havia pedido Vorcaro US$ 24 milhões, equivalentes a cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar o filme.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) envolveu-se em decorrência da captação de recursos para o filme. Mensagens e gravações revelam o senador em contato com Vorcaro para tratar de pagamentos relacionados à produção. O candidato do PL à presidência nega irregularidades e afirma que buscava financiamento privado.

4. Trilha de dinheiro

O Instituto Conhecer Brasil recebeu recursos públicos para projetos específicos. Karina Gama, responsável pela entidade, também está ligada a Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”. Essa ligação empresarial fez com que a Polícia Federal passasse a analisar as contas e os contratos do instituto e das empresas relacionadas.

O deputado Mário Frias destinou emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil e, segundo a PF, também fez transferências diretamente para a Go Up Entertainment. O valor identificado nas movimentações é de aproximadamente R$ 645,4 mil. Os pagamentos passaram a ser analisados em conjunto com os demais recursos que circularam pela produtora.

5. Os R$ 750 mil

A NTT Brasil é uma empresa administrada pelo empresário Heric Dias e está ligada a um grupo empresarial que inclui fornecedores contratados pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB). O instituto é presidido por Karina Gama, que também é dona da Go Up.

O repasse de R$ 750 mil da NTT Brasil para a Go Up Entertainment chama a atenção: antes desse pagamento, cerca de R$ 700 mil haviam sido recebidos por empresas ligadas ao grupo do Instituto Conhecer Brasil. Esses recursos tinham relação com emendas parlamentares destinadas a projetos da entidade. A PF ainda precisa provar que os R$ 750 mil transferidos à Go Up eram, de fato, provenientes das verbas públicas.

6. Datas de transferências

Segundo a PF, a Go Up Entertainment movimentou cerca de R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. Esse intervalo coincide com o período em que o filme estava sendo produzido, que, por sua vez, ocorreram entre outubro e dezembro de 2025.

A produtora também registrou despesas relacionadas à realização das filmagens, incluindo gastos com hospedagem e alimentação. A PF encontrou uma cadeia de movimentações que levanta a possibilidade de que recursos públicos tenham chegado à Go Up Entertainment.

8. Por que o STF está envolvido

As investigações chegaram ao Supremo por envolverem autoridades que têm prerrogativa de foro. Mas as duas apurações não estão reunidas em um único processo, ou seja, a investigação relacionada ao Banco Master e aos negócios de Daniel Vorcaro está sob relatoria do ministro André Mendonça. Já a apuração sobre possíveis irregularidades envolvendo emendas parlamentares está sob relatoria de Flávio Dino.

Mendonça analisa uma investigação que tem como eixo as movimentações relacionadas a Vorcaro. Dino conduz a apuração que trata do caminho de recursos públicos e das relações entre entidades, empresas e pessoas ligadas à produção do filme.

9. Operação Make Up

A operação deflagrada nesta quinta-feira representa uma nova etapa da apuração sobre os recursos públicos. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em quatro Estados e no Distrito Federal. Entre os alvos estão Mário Frias e Karina Gama.

As buscas têm como objetivo recolher documentos e outros elementos capazes de esclarecer a movimentação financeira. A investigação passa, portanto, da análise dos registros bancários para uma etapa em que contratos, documentos contábeis, aparelhos eletrônicos e outros materiais poderão ser confrontados com as informações já obtidas pela PF.

Flávio Dino também retirou o sigilo da decisão que autorizou as medidas. Com isso, detalhes da investigação e da cadeia financeira identificada pelos policiais passaram a ser conhecidos publicamente.

10. O que une as duas investigações

Em uma investigação, a empresa Go Up Entertainment aparece como destino de recursos ligados ao financiamento feito por Daniel Vorcaro. Na outra, aparece no final de uma sequência de transferências que começa em entidades beneficiadas por recursos públicos.

Isso explica por que o caso do Banco Master “chega” ao filme, mas também por que não se deve tratar automaticamente todas as movimentações como parte de uma única operação. São duas investigações, com origens diferentes, que encontram a mesma produtora.

*Sob supervisão de Thiago Padilha

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