Rural

Agricultura de precisão no enfrentamento dos problemas climáticos

A ferramenta, em debate nesta semana em evento internacional em Porto Alegre, é destacada para otimizar as produtividades agrícolas por especialista da Esalq/USP, o gaúcho José Paulo Molin

"Os drones entraram efetivamente (na agricultura de precisão), não saem mais", ressalta o professor Molin
"Os drones entraram efetivamente (na agricultura de precisão), não saem mais", ressalta o professor Molin Foto : Jacto / Divulgação / CP

Porto Alegre sedia nesta semana, no Centro de Eventos da PUCRS, o 11º Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão e Digital (ConBAP) e a 17ª Conferência Internacional de Agricultura de Precisão (ICPA), eventos promovidos pela Associação Brasileira de Agricultura de Precisão e Digital (AsBraAP), em parceria com a International Society of Precision Agriculture (ISPA), encontro que recebe cerca de 900 participantes.

É a primeira vez que o evento internacional, que tem a participação de representantes de 28 países, além de 512 trabalhos científicos submetidos, ocorre fora da América do Norte.

Na abertura oficial, nesta segunda-feira, 13, o painel internacional aborda o cenário da agricultura de precisão e digital em diferentes continentes, com participações de convidados dos Estados Unidos e da Dinamarca, além de José Paulo Molin, gaúcho de Caxias do Sul, professor da Esalq/USP, de Piracicaba (SP), e uma das maiores autoridades brasileiras no tema.

Nesta entrevista, Molin destaca as aplicações da ferramenta para ganhos de rentabilidade e produtividade, assim como no enfrentamento dos problemas climáticos que atingem as lavouras gaúchas:

“Se conheço exatamente as condições e os limites de cada porção da minha lavoura, e com uma previsibilidade mínima climática que hoje se tem, temos uma modelagem climática de médio e longo prazo que nos dá sinalizações”, explica Molin.

O Brasil se tornou uma potência agrícola também pela aplicação de diversas tecnologias. Neste contexto, qual é o estágio hoje de adoção da agricultura de precisão (AP)?

É importante estabelecer o conceito de agricultura de precisão antes de colocar todo o enredo, porque existe muito mal-entendido também dentro do contexto do que é agricultura de precisão. Eu cito a nossa definição compacta da Sociedade Internacional (ICPA) e da Associação Brasileira (AsBraAP): agricultura de precisão é uma estratégia de gestão das lavouras que considera variabilidade espacial e temporal da lavoura para otimizar a sustentabilidade do sistema de produção. Traduzindo: agricultura de precisão não é tecnologia. É inevitável que a gente desmembre em duas grandes frentes: esta que lida com a variabilidade espacial das lavouras e aquela que tá embarcada nas máquinas, que são as tecnologias. A segunda surgiu para viabilizar a primeira. E isso é nítido no mercado. Em que estágio nós estamos? Os produtores iniciaram a adoção da agricultura de precisão no início dos anos 2000, muito devagarzinho, e tudo começou do Sul para o Norte.

O Rio Grande do Sul tem uma participação e um protagonismo muito grande com o surgimento de algumas iniciativas já naquele tempo unindo cooperativas, indústria, universidades. Destaco aqui as universidades, por quê? Porque elas formaram os profissionais que hoje estão atuando pelo Brasil afora. Boa parte deles é gaúcha e parte das consultorias de agricultura de precisão que estão por aí começou no Rio Grande do Sul. Outro destaque que dou nesse pioneirismo são algumas cooperativas que promoveram, que abraçaram a causa, promoveram, desenvolveram equipes internas para prover serviços aos cooperados e adotando, então, algumas das técnicas.

Onde estão os maiores gargalos da AP?

Quanto aos gargalos, nós estamos apenas no começo (da adoção da AP). Essa é a nossa visão. A agricultura com mais precisão é um processo bastante longo e nós começamos pelo manejo da fertilidade do solo, que foi uma vertente, vamos dizer, mais palpável, mais prática. Entendendo a variabilidade das lavouras, intervir para otimizar. E aí vem um gargalo, um outro problema de entendimento errôneo: não é para uniformizar as lavouras; é para otimizar cada pedaço das lavouras. Então, as lavouras são desuniformes pela natureza, principalmente pela formação de solo e relevo.

Ok, não tem como uniformizar; então, eu tenho como otimizar. Vamos pegar um exemplo prático: tem um talhão, uma parte que tem um solo mais arenoso e outro tem um solo mais argiloso. É óbvio que eu não vou conseguir uniformizar, mas, então, na parte mais arenosa, vou ter que tratar com um patamar de produtividade, enquanto que na parte mais argilosa, outro patamar. Portanto, tudo deve ser dosado em função dessa diferença. Objetivo: otimizar lucratividade, não a produtividade.

Como tem sido a adoção da AP pelos produtores gaúchos?

As cooperativas foram muito ativas nesse processo desde lá do início. Alguns agrupamentos aconteceram. Surgiram, então, as consultorias, a indústria fomentou algumas ações. Isso deu origem a um padrão de serviço chamado consultoria em agricultura de precisão que, depois, deu origem a uma associação brasileira de prestadores de serviço em agricultura de precisão, que se formou em 2015. Desde então, temos muitos colegas atuando pelo Brasil afora que vieram dessa vertente do Rio Grande do Sul. A questão de adoção é um processo lento e difícil. Tem alguns investimentos que precisam ser feitos e isso não é facilmente assimilado.

Ainda sobre o RS, como a AP pode auxiliar os agricultores no enfrentamento, na mitigação dos sucessivos problemas climáticos que atingem as lavouras do Estado?

A questão referente à mitigação dos problemas climáticos, que são recorrentes no Sul, a gente vê a agricultura de precisão como uma forma de amenizar esses problemas, sim. Por quê? Porque a agricultura com mais precisão, a agricultura de precisão, exige dados. É conduzir a lavoura com mais dados de lavoura, dados espacializados.

Então, se eu sei, se conheço exatamente as condições e os limites de cada porção da minha lavoura, e com uma previsibilidade mínima climática que hoje se tem, temos uma modelagem climática de médio e longo prazo que nos dá sinalizações. Então, eu vou fazer planejamento baseado nas limitações pluviométricas de chuva.

Por exemplo, nível de investimento, nível de adoção de aplicação dos insumos básicos, colocar mais ou menos nesse ano em função de previsibilidade das condições climáticas. Sim, agricultura de precisão, associada às outras frentes que estão oferecendo dados mais exatos, deve auxiliar o agricultor nas decisões para errar menos.

Em tempos de custos em alta e commodities em baixa, leia-se margens do produtor mais apertadas, como a AP pode contribuir para aumentar simultaneamente a produtividade, reduzir custos e atender às crescentes exigências de sustentabilidade e rastreabilidade?

A sustentabilidade da agricultura, está lá na definição da agricultura de precisão, da que eu chamo de definição oficial, porque para nós, para as entidades do ramo, ela é oficial, a considerar a variabilidade espacial e temporal das lavouras para otimizar a sustentabilidade. Mas com base em dados. Então, o agricultor precisa investir mais em dados, tempos modernos, ter mais afinidade com o digital das coisas, e aí, então, ter tecnologia embarcada nas máquinas para poder fazer isso.

Traduzindo: mapa de colheita é um ‘negócio’ necessário e obrigatório, mapeamento, periodicamente medir as condições da variabilidade espacial dos atributos do solo, fertilidade, e tantas outras frentes que estão aparecendo que fazem parte desse conjunto.

O alto custo de equipamentos e a falta de conectividade ainda limitam a expansão da agricultura de precisão. Que políticas públicas, modelos de financiamento ou iniciativas privadas podem acelerar a democratização dessas tecnologias, especialmente entre pequenos e médios produtores?

Claro que junto com essa onda de ter mais dados, conhecer melhor a lavoura para fazer a agricultura com mais precisão, surgiu uma sequência de novas soluções. E essas novas soluções requerem conectividade. Por quê? Porque a tecnologia está embarcada na máquina e a máquina gera dado, e esse dado precisa se transformar em informação, e essa informação vai ajudar o agricultor a otimizar o seu sistema. Conectividade é um desafio. Eu creio que creditamos que isso vem evoluindo meio que naturalmente em função da demanda, porque nem sempre onde tem conectividade ela é utilizada, efetivamente utilizada para esses fins.

Mas, basicamente, o que nós precisamos é conectividade da máquina com a sede, por exemplo, da máquina com a nuvem para que o dado seja coletado e capturado e depois utilizado. Tem uma vertente que está avançando forte, em paralelo a tudo isso, que é gestão de frota, gestão de máquina, porque a máquina é conectada.

Então, consigo monitorar tudo da máquina: funções, defeitos, problemas, alertas, manutenção, planejamento de manutenção, etc. Então, tudo isso faz parte de um conjunto. E a conectividade, tudo aparenta ser pelo que vem acontecendo, (é) uma solução que está acontecendo gradativamente, e tende a diferentes formas.

Uma é a via 5G celular, que são empresas privadas, por algumas iniciativas particulares. Grandes operações fazem isso, negociam com alguma ou grandes operações ou grupos, podem negociar a locação, o posicionamento de antenas. E a outra solução, que vem vindo também, é a de satélite de baixa altitude, sistemas privados de conectividade particular. Não tem muito mais do que isso, nem aqui, nem lá fora.

Quais tecnologias devem impulsionar a próxima geração da agricultura de precisão — como inteligência artificial, sensores, drones, imagens de satélite e máquinas autônomas — e quais destas têm maior potencial para transformar a produção brasileira nos próximos anos?

A próxima geração da agricultura de precisão em termos de tecnologia vem acontecendo gradativamente, de novo, nada é de supetão, mas já temos coisas bastante avançadas, recentes, disponíveis. Vou citar um exemplo ainda bem simples: a aplicação localizada de herbicida em cima da palhada faz alguns poucos anos e, agora, se a gente olhar nas feiras de máquinas de 2025, 2026, isso se tornou um lugar comum. Por exemplo, tecnologia para aplicação bico a bico na barra do pulverizador. Só aplicar onde tem erva daninha, baseada em tecnologias avançadas, ou câmeras, ou sensores de detecção de erva daninha. São exemplos de coisa fantástica do ponto de vista de efetividade. Mas, claro, todas elas têm lá seus seus gargalos, e o maior gargalo talvez seja custo. Mas tem uma relação benefício-custo que é importante, ou seja, só aplicar onde precisa e, com isso, ter uma sustentabilidade não só econômica mas também ambiental muito maior.

Agora, para que lado está indo o conjunto da obra? Os drones entraram efetivamente, não saem mais. O drone vai substituir a pulverização convencional de barra? A grande maioria acredita que não. Ele vai continuar e vai complementar, vide o que a gente encontra nas feiras ou nos pavilhões das grandes empresas. Ou seja, as grandes empresas já adotaram o drone como parceiro ou como membro do conjunto da equipe de uma frota, complementando os sistemas terrestres. E a robótica vem, os veículos autônomos vêm, é um processo de maturação. Isso é no mundo, não é no Brasil.

A Europa já é muito mais preocupada do que nós com relação à legislação sobre isso, ou seja, qual é o cenário de colocar um veículo desses, veículo autônomo, ou seja, o trator de hoje, as novas concepções de veículos que vêm por aí cada vez mais personalizados, autônomos, e que não causem danos a ninguém. E que sejam efetivamente um executor de tarefas com menos e interferência humana. E isso vem vindo. Já temos no Brasil, inclusive, produtos brasileiros no mercado, rodando. E a questão da inteligência artificial é um processo natural. Claro que ela já entrou na agricultura.

Agora, onde é que ela vai fazer efeito, vai impactar? Ela vai impactar onde já existem bons conjuntos de dados, ou seja, onde o cara já tem conhecimento. A inteligência artificial é só um procedimento de automatizar e acelerar a solução da identificação e da recomendação. Então, na medida que eu tenha mais dados, mais histórico, mais camadas de informação, a inteligência artificial vai ser mais efetiva para o usuário final. Isso tudo já está entrando, vai estar funcionando de forma, eu diria, natural, quase que imperceptível. Mas a agricultura é conservadora, não vamos esquecer disso. Então, a agricultura paga pelo conservadorismo. É conservadora, é resistente ao novo, naturalmente, e isso a gente sempre enfrentou e vai continuar enfrentando.

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