O financiamento da área agropecuária do Rio Grande do Sul caiu 29,3%, passando de 4,98 milhões de hectares no acumulado de 12 meses até julho de 2025 para 3,52 milhões no período seguinte, segundo nota técnica da Farsul, com informações do Banco Central.
O estudo apontou que o Estado tem a maior área financiada no país: 13,5%. Está à frente de Mato Grosso (13,1%) e Paraná (12,4%), apesar de o valor liberado ao RS ter caído 18,3%, para R$ 23,1 bilhões, e o número de contratos, 16,4%, para 189.655.
Dentro do Rio Grande do Sul, a soja concentra 46,2% da área financiada e teve retração de 35,2%, mais forte do que o observado para a soja no resto do país. O trigo, que responde por 7,9% da área gaúcha (contra apenas 1,9% no Brasil), perde 52% de área financiada, e o arroz, com 6,4% da área do estado, cai 32,2%.
No Brasil, o recuo foi de 25,8%, passando para 25,4 milhões hectares. O valor liberado nas operações caiu 12% no período, de R$ 205,8 bilhões para R$ 181,1 bilhões, e o número de contratos recuou 10,3%, de 867.035 para 777.849. “A queda proporcionalmente maior na área financiada do que no valor liberado é, em si, um sinal de alerta: o crédito concedido está cobrindo menos hectares a um custo maior por hectare, reflexo direto do encarecimento do dinheiro”, ressalta o documento da entidade.
Motivo para a redução
A Farsul avalia que o crédito ficou mais escasso devido a três fatores. A taxa Selic em 14% ao ano é um deles. “Como parte do crédito rural é ofertada a taxas equalizadas pelo governo, o espaço fiscal para sustentar taxas mais baixas também fica mais apertado quanto mais alta é a Selic. Isso limita a capacidade de o Plano Safra compensar o encarecimento do crédito privado”, explica o documento.
Outro motivo é que a parcela da carteira de crédito rural em algum grau de estresse (atraso, inadimplência, prorrogação ou renegociação) mais que dobrou em dois anos. No Brasil, passou de 11,8% em julho de 2024 para 16,8% em julho de 2025 e 23,5% em julho de 2026. No Rio Grande do Sul, a trajetória foi de 28,6% para 35,5% e 41,3% no mesmo intervalo, quase a metade de toda a carteira do Estado.
A entrada em vigor da Resolução CMN 4.966/2021 também foi citada por alterar as regras contábeis dos bancos, que passaram a exigir a projeção de riscos futuros. Diante dessa mudança e do cenário de instabilidade no campo, as instituições financeiras restringiram a oferta e renovação do crédito rural.
Consequências
Para a Farsul, a retração do crédito rural tende a impactar o PIB agropecuário e a balança comercial. Os efeitos podem aparecer ainda na defasagem da safra 2026/27, no câmbio e nos preços de alimentos, conforme a entidade.
