Rural

Em momentos de ‘vacas gordas’, produtor precisa economizar, diz engenheiro agrônomo da FGV

Fenômeno climático El Niño deve persistir até o início de 2027, segundo Guilherme Bastos, com perdas nas lavouras ainda imprevistas e dependentes de fatores estratégicos

Coordenador da FGV Agro, Guilherme Bastos, avalia momento para o setor
Coordenador da FGV Agro, Guilherme Bastos, avalia momento para o setor Foto : Karina Reif / Especial /CP

Os modelos climáticos de previsão indicam a presença do fenômeno El Niño até, pelo menos, o início de 2027, mas os impactos dependem do momento de plantio da safra de verão, das condições do solo e da disponibilidade de insumos, segundo avaliação do coordenador da FGV Agro, Guilherme Bastos. “É muito difícil fazer uma avaliação exata, porque você tem várias condições”, afirma. Por isso, na opinião dele, os produtores precisam ser estratégicos e ter uma reserva financeira para o caso de perda de lavouras por conta do excesso de chuvas, por exemplo.

“No caso do produtor hoje, a gente viu que tem muitas seguradoras que tiraram o pé do Rio Grande do Sul, exatamente pela sequência de fenômenos climáticos que aconteceram. Então, o produtor teria que fazer sua reserva forte. Para entrar em uma atividade neste nível de risco e sem proteção, nos momentos das vacas gordas, ele (produtor) teria que reservar parte disso, porque, caso contrário, ele vai ser pego no sobressalto”, resume o engenheiro agrônomo, que participou, nesta quinta-feira, do 3º Encontro de Jornalistas: Impactos Econômicos e Sociais pelas Mudanças Climáticas no Brasil, organizado pelo Instituto Clima e Sociedade, em São Paulo.

Conforme ele, ainda assim, a disponibildiade de seguro para o setor deve continuar sendo cobrada. “Infelizmente, o que temos hoje é uma sinalização de redução dos recursos disponíveis para o programa de seguro rural. Então, esse aqui é um problema que tem que ser devidamente cobrado, porque sem ele você deixa ainda mais toda esse setor agropecuário descuidado”, observa.

Indústria a céu aberto

“A agricultura é uma indústria a céu aberto”, diz e, para minimizar os efeitos do clima no setor do agronegócio, Bastos defende medidas estratégicas adotadas por todas as esferas de poder. “Não adianta a gente ficar esperando apenas o governo federal prover tudo, porque ele tem limites de atuação”, afirma.

Segundo ele, o gargalo na adaptação climática está no âmbito municipal. “Dos 5.570 municípios do país, 94% não têm mapeamento, 87% não têm plano municipal de redução de riscos, 78% não tem plano de contingência para seca e 72% não têm prevenção de enchentes no Plano Diretor”, detalha, afirmando que as medidas adaptativas se decidem justamente nas prefeituras.

Irrigação

Uma das ações de prevenção observada por ele é a irrigação. “A questão da irrigação é super importante”, declarou. Sobre a preocupação com o uso da água e a competição para fins urbanos, justificou que isso deve ser administrado e balanceado. “Você precisa de gestão de recursos hídricos, mas você tem que trazer isso como uma questão de segurança alimentar”, diz. A reservação de água para irrigação ajudaria, portanto, a garantir a produção de alimentos.

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