Rural

Embrapa lança primeiras cultivares de hortaliças alimentícias não convencionais

Com variedades de bertalha e caruru, busca ampliar oferta e consumo de pancs, que ainda têm poucas cadeias produtivas estruturadas no país

Cultivar BRS Ilekalu destaca-se pelo elevado teor de proteínas, que atinge 33,8% nas folhas
Cultivar BRS Ilekalu destaca-se pelo elevado teor de proteínas, que atinge 33,8% nas folhas Foto : Divulgação / Embrapa / CP

Após anos de estudo, a Embrapa está lançando suas primeiras cultivares de hortaliças do grupo de plantas alimentícias não convencionais (as chamadas pancs), a bertalha “BRS Tereverde” e o caruru “BRS Ilekalu”. Obtidas a partir de materiais genéticos selecionados da coleção mantida há duas décadas pela Embrapa Hortaliças (DF), as novas variedades chegam ao mercado com identidade genética conhecida, padrão de qualidade definido e orientações de cultivo validadas cientificamente, de acordo com a instituição de pesquisa.

O material foi desenvolvido por meio de uma parceria público-privada com a Isla Sementes. Novas variedades, como almeirão-roxo e vinagreira, deverão ser lançadas nos próximos anos.

A empresa de pesquisa lembra que, apesar do potencial agronômico, as pancs ainda têm participação pequena no mercado brasileiro e poucas cadeias produtivas estruturadas. Responsável pelo trabalho, o pesquisador Nuno Madeira afirma que a oferta das cultivares, aliada à indicação de sistemas de produção, deve ampliar o consumo das hortaliças não convencionais. “A expectativa é fortalecer a presença das pancs na agricultura familiar e no contexto da agricultura urbana, seja em quintais produtivos, hortas domésticas ou escolares”, diz.

Madeira observa que o lançamento dá visibilidade a espécies que têm alto valor nutricional e podem diversificar a alimentação. “Vale evidenciar que esse trabalho científico também reconhece e valoriza os conhecimentos acumulados por comunidades tradicionais ao longo de gerações”, destaca o pesquisador.

O agrônomo Gervásio Paulus, coordenador técnico estadual de Olericultura da Emater/RS-Ascar, espera que o aumento da pesquisa na área faça com que as plantas deixem de ser conhecidas como “não convencionais”. “Em termos mundiais, estima-se que existem cerca de 30 mil espécies que podem ser utilizadas como alimentos. E no máximo se consomem em torno de 30. Então, temos um potencial grande para trabalhar essas plantas”, explica.

Para disseminar o conhecimento sobre plantas comestíveis como ora-pro-nobis, capuchinha, dente-de-leão, peixinho e beldroega, a Emater promove espaços de demonstração durante feiras agropecuárias realizadas pelo Estado. A empresa também oferece cursos de cultivo e manejo de pancs, que, segundo Paulus, atraem principalmente profissionais de saúde interessados em manter hortas urbanas. “São consumidores que frequentam feiras, ficam conhecendo esses produtos e querem aprender como plantar. Elas geralmente são espontâneas, nascem sem ser semeadas. Não são difíceis de cultivar”, afirma o agrônomo.

Segundo Paulus, é preciso divulgar mais as pancs e, principalmente, estimular a identificação correta das espécies comestíveis. “É como no trânsito: na dúvida, não ultrapasse. Se tu não tens certeza, não consome ou não orienta para consumo, porque seria um risco. O conhecimento é fundamental”, recomenda.

Fontes de nutrientes

A “BRS Tereverde” é a primeira cultivar de bertalha (Basella alba L. e Basella rubra L.) com elevada produtividade e padrão visual, segundo a Embrapa Hortaliças. Foi obtida por meio da seleção massal de plantas de variedades locais cultivadas em Teresópolis (RJ), onde a espécie é cultivada há gerações e provavelmente foi introduzida da Índia durante o período da colonização portuguesa, e em Santa Isabel (PA).

Conhecida também como espinafre-de-malabar, a bertalha é uma boa fonte de fibras, vitaminas A e C e minerais, especialmente cálcio e ferro, de acordo com a Embrapa. A nova cultivar surge como alternativa para a produção de hortaliças folhosas durante os meses mais quentes do ano.

Já a“BRS Ilekalu”(Amaranthus cruentus) é a primeira cultivar de caruru selecionada especificamente para consumo como hortaliça folhosa. Nativo da América Central e da região Andina, o caruru apresenta ampla variabilidade genética, característica que exigiu um processo sistemático de seleção dos materiais. Um dos principais destaques da cultivar é o elevado teor de proteínas, que alcança 33,8% nas folhas.

Veja Também