Rural

Energia limpa aponta novas perspectivas para o agronegócio gaúcho, diz analista

Em evento na Federasul, presidente da Brasoja analisou impactos do cenário geopolítico e do início da produção de etanol no Estado

Para Antonio Sartori, Brasil precisa aumentar produção de biocombustíveis
Para Antonio Sartori, Brasil precisa aumentar produção de biocombustíveis Foto : Camila Cunha

Conflitos geopolíticos, ameaça de eventos climáticos com potencial de dano, volatilidade de preços de commodities agrícolas. Essa combinação de fatores, que aponta um cenário de incertezas para o agronegócio gaúcho, exigirá resiliência e profissionalismo por parte dos produtores, mas também ocorre em um contexto de mudanças decisivas no setor, segundo o presidente da corretora Brasoja, Antonio Sartori. O analista foi o convidado da reunião-almoço Tá na Mesa, realizada pela Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul) nesta quarta-feira (8), com o tema “Agro, o que vem pela frente? Soberania alimentar e energética”.

Em sua explanação, Sartori apresentou dados sobre o consumo global de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, motores do aquecimento global que, acredita ele, será irreversível no curto prazo. “A palavra mais importante do mundo hoje é energia, e o Brasil tem como aumentar sua produção de energias limpas e renováveis: mais biocombustíveis, mais etanol, mais (energia) eólica, mais solar”, disse.

Para fazer frente a esse cenário, segundo o analista, o Rio Grande do Sul precisará de uma “reconversão” de atividade econômica. “Vem aí uma mudança brutal no agro gaúcho a partir do ano que vem. Vêm ótimas perspectivas, para quem for dramaticamente competente, competitivo, não apenas dentro da fazenda, mas fora da fazenda”, enfatizou, em entrevista coletiva à imprensa antes do evento na Federasul. Um marco dessa transformação do agro, destacou, é a usina da Be8 (antiga BSBIOS) que está sendo construída em Passo Fundo, para a produção de etanol a partir de cereais de inverno, milho e sorgo. Com início de operação previsto para o segundo semestre deste ano, a planta recebeu investimento de R$ 1,3 bilhão e deverá produzir 210 milhões de litros de etanol por ano.

Hoje, lembrou Sartori, 99% do etanol consumido no Rio Grande do Sul vem de outros estados. “Vai ter etanol. E, a partir do ano que vem, vamos ter DDG. Não vamos precisar comprar carne do Mato Grosso, porque a pecuária vai mudar”, disse, explicando que o DDG, subproduto do etanol de milho, poderá ser usado como fonte de proteína para bovinos no sistema de cocho.

Ao comentar o impacto da guerra no Irã, o analista mostrou preocupação com o aumento de preços do diesel e dos fertilizantes. Para a safra gaúcha de soja, carro-chefe da pauta de exportações do Estado, ele estima uma produção de 19 milhões a 20 milhões de toneladas. “Está começando a colheita e, com a janela de plantio, outubro, novembro, dezembro e mais de 60 dias, a colheita também vai ser de 60 dias. Então, depende do que vem daqui para a frente, com o clima. A safra pode ser um pouco maior ou um pouco menor”, afirmou.

Outro fator de apreensão é o atraso na comercialização da soja, além do alto endividamento dos produtores gaúchos. “Historicamente, nesta época do ano, teríamos 30%, 40% da safra comercializada, (hoje) não temos 20%”, disse Sartori, citando a disparidade de produtividade entre as lavouras. Segundo Sartori, agricultores da região de Santa Rosa, por exemplo, vão colher menos de 30 sacas por hectare, enquanto em outras regiões a colheita chega a 65 sacas por hectare. Muitos negócios foram feitos com base em cotações da soja de R$ 120 a R$ 130 a saca. “Com todo esse clima de incerteza, principalmente depois do que aconteceu no conflito Estados Unidos-Israel e Irã, a conta não fecha mais, porque o frete subiu muito”, observou.

O produtor rural também deve estar atento ao possível retorno do El Niño, que poderá impactar o plantio da próxima safra de verão, observou Sartori. Em março, a agência climática americana NOAA informou que há 62% de probabilidade de ocorrência do fenômeno climático entre junho e agosto. “Historicamente, o El Niño provoca chuvas acima normal no sul da América do Sul. Para nós, é bom. E falta de chuva no Centro-Oeste, como já aconteceu em anos anteriores. Só que o passado é história. Não está escrito o que vai acontecer”, disse o analista.

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