Os insetos saíram de seus habitats naturais para viver em caixas e bandejas. É nesses espaços que a pesquisa vem transformando animais invertebrados em fertilizantes e em farinha de proteína. No Rio Grande do Sul, universidades e startups investem no desenvolvimento e no lançamento de insumos para a agricultura e de ração para a criação de aves, suínos, peixes e animais de estimação. Mas sua escala tem desafios.
O custo de produção nacional é alto em relação a outras fontes de proteína animal, mais baratas em razão da larga escala. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de carnes bovina, suína e de frango, junto com China e Estados Unidos. Para se ter uma ideia, em 2025, a produção total de carnes foi de 32,1 milhões de toneladas, volume que pode chegar a 32,3 milhões de toneladas este ano. Os dados são da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
“No Brasil, o cenário é particular, porque há abundância de proteínas de origem animal com custo competitivo", afirma o professor Luciano Trevizan, do departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ao lembrar que a forte produção de aves, suínos e bovinos gera grande volume de coprodutos, como vísceras e outros componentes, que são incorporados à alimentação animal e barateiam as formulações, dificultando a entrada da farinha de insetos nesse mercado.
“A aceitação cresce, mas está restrita a nichos específicos”, observa Trevizan. Ele indica que o avanço da farinha de insetos depende de redução de custos, ganho de escala e consolidação de sua função dentro da nutrição de animais de companhia. Nossa vocação para as proteínas tradicionais não invalida a importância que os insetos podem alcançar na alimentação dos brasileiros.
Vale destacar que os insetos estão na dieta de 2 bilhões de pessoas ao redor do mundo, especialmente na Ásia, na África e na América Latina. Este número equivale a um quarto da população mundial, segundo o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Ifad), vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU). Essa alternativa a proteínas tradicionais é também incentivada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (conhecida pela sigla FAO, do inglês Food and Agriculture Organization). Para a organização, os insetos são fonte sustentável e nutritiva de proteínas para combater a fome global e para reduzir o impacto ambiental da pecuária.
Entraves
Enquanto ocupa destacado espaço no prato de populações mundo afora, por aqui ainda não há liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para alimentação humana. Hoje, sua utilização é restrita à nutrição animal e como fertilizante, a partir dos dejetos. E, mesmo para essas finalidades, a criação de insetos tem outros entraves além de custos.
Pesquisadores estudam alternativas de fontes de nutrição para acelerar o desenvolvimento dos insetos e fortalecê-los e, ao mesmo tempo, torná-los baratos e de fácil acesso. Esses estudos vêm responder à necessidade de praticamente dobrar a atual produção de alimentos. Isso porque, até 2050, será necessário nutrir uma população estimada em 9,7 bilhões de pessoas, o que motivou a ONU a propor a utilização de insetos como comida de seres humanos e de rebanhos de animais.
O objetivo é garantir a segurança alimentar em um cenário em que a terra já é escassa, sendo raramente viável ou sustentável expandir a área dedicada à agricultura. Os problemas vão além. As mudanças climáticas reduzem a oferta de água, impactando profundamente a produção de alimentos, e os oceanos estão sofrendo com a sobrepesca, poluição e acidificação, esta última acelerada pelo aumento da temperatura global.
A estimativa é que mais da metade das espécies marinhas do mundo possam estar à beira da extinção até 2100, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Ou seja, para enfrentar os desafios alimentares e nutricionais de hoje e do futuro, o que comemos e os sistemas produtivos de alimentos devem ser reavaliados, com correção de ineficiências e redução do desperdício de alimentos. Além disso, a humanidade tem o desafio de buscar novas maneiras de cultivar alimentos em maior quantidade e com menos impactos ao ambiente.
Farinha de larvas concentra até 60% de proteína
A produção de insetos para a agricultura e produção de farinha foi um caminho natural para a Entomos, startup criada há um ano em Santa Cruz do Sul. Especializada em produção de proteína e fertilizante a partir da bioconversão de resíduos agroindustriais com larvas da mosca-soldado-negra (Hermetia illucens), a empresa é resultado da tese de doutorado da bióloga Daniela Costa e Silva, que buscou dois sócios para criar a marca.
“Quando surgiu a oportunidade de um doutorado em tecnologia ambiental, vi a oportunidade de pesquisar insetos em um projeto com desenvolvimento tecnológico. Terminei a tese com algumas formulações e continuamos fazendo testes de validação em resíduos de agroindústrias”, revela Daniela.
A Entomos começou comercializando fertilizante e, em dezembro de 2025, conquistou registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para produção de proteína à base de insetos, após oito meses de processo. Ao mesmo tempo em que aguardava a certificação, a empresa se preparou para ganhar escala. Os meses foram dedicados a validar o produto no mercado e atestar matérias-primas. Hoje, a marca alimenta os insetos com resíduos de malte, fornecidos por uma cervejaria, e de sobras de uma indústria de bolachas e massas.
Nutrição animal
A proteína será destinada à nutrição animal, servindo de matéria-prima para ração ou petisco para pets (cães, gatos e exóticos) e para animais de produção, especialmente aves, peixes e suínos. São duas variedades de farinha: integral, com cerca de 45% de proteína em cada quilo, e desengordurada, com 60% de proteína. Essa última passa por um processo para extrair o óleo, o que eleva a taxa de proteína e é indicada para formulação de ração de peixe.
Um quilo de larva viva rende 400 g de farinha integral após a desidratação ou 380 g de farinha desengordurada. Atualmente, a planta está projetada para receber 35 toneladas de resíduos orgânicos ao mês, o que renderia 6 toneladas de proteína e 8 toneladas de fertilizante.
Na mesma área industrial, é possível, pelo menos, dobrar a produção. Inicialmente, Daniela projeta que atenderá o mercado de petisco, que utiliza menos farinha e, quando entrarem na linha de ração, terão de aumentar a produção pela maior exigência de matéria-prima.
“A proteína de inseto é a mais sustentável, primeiramente pela questão do resíduo, deixamos de descartar resíduos que iriam para o aterro sanitário, que tem grandes passivos ambientais. O uso de água também é mínimo, basicamente para limpeza da indústria”, afirma a bióloga, contando que foram feitas adaptações no processo da proteína para não utilizar água. É feito um consórcio de resíduos, mesclando úmido e seco.
Entre as vantagens, a área necessária para produção é pequena, assim como o ciclo produtivo é curto: a cada 15 dias é possível finalizar um lote. Diferentemente da proteína de soja, produto desenvolvido por startup é voltado para a nutrição animal que demanda grande área para cultivo, muita água e um período maior de tempo de produção, entre o plantio, desenvolvimento, colheita e o processamento.
A circularidade na produção é completa, detalha Daniela. Na criação de insetos, até o esterco é utilizado como adubo, saindo pronto para uso do processo. É coletado durante o ciclo, tornando-se um subproduto com propriedades benéficas para o solo.
Hoje, a venda de fertilizante da Entomos é feita em agropecuárias e floriculturas no Vale do Rio Pardo. A ideia é expandir para a Região Metropolitana de Porto Alegre. Esse foi um dos motivos para a startup estar incubada no Tecnosinos, da Unisinos. “É uma forma de ter contato com empresas da região”, explica, não descartando a possibilidade de futuramente vender pela internet.
Pesquisas para consumo humano avançam
A resistência das pessoas ao consumo de alimentos à base de insetos, motivada por fatores psicológicos, culturais e sensoriais, ainda é um desafio. Porém, estudo da Embrapa Agroindústria de Alimentos indica que mensagens focadas em saúde e nas qualidades sensoriais, aliadas a apelo visual, podem aumentar a intenção de compra e impulsionar o setor de proteínas alternativas. Esse tipo de produto ainda está em fase de pesquisa e desenvolvimento no país, mas já começa a sair do laboratório e entrar no radar de startups.
O pesquisador e responsável técnico da Insect Protein, Lucas Villela, conduz estudos em parceria com representantes da academia que buscam inserir a proteína de inseto, especialmente derivada da larva Tenebrio Molitor (Mealworm), tanto na alimentação humana quanto em soluções para o campo. A partir de um experimento acadêmico, uma estudante desenvolveu um brownie e atraiu a atenção do público.
A repercussão levou a empresa a estruturar uma linha de pesquisa que avança em parceria com a UFRGS. O projeto, ainda em etapa de planejamento, está em fase de definição de objetivos e métodos. O desafio, segundo ele, é consolidar a base científica para consumo humano, especialmente na área de panificação, foco de pesquisas. “Esse é um dos desafios tecnológicos que temos, que é mostrar que é um alimento que pode entrar na dieta como uma ação de proteína em termos nutricionais, de segurança e de sustentabilidade”, explica.
A estratégia envolve estudos sobre composição, aceitação e viabilidade de uso cotidiano. Paralelamente, a Insect Protein tem em seu portfólio um insumo que ganhou protagonismo: o fertilizante. O esterco dos insetos, conhecido como frass, passou a ser aproveitado como produto. Hoje, a marca trabalha com duas frentes: biofertilizantes sólidos, já disponíveis, e líquidos, ainda em testes.
A versão sólida entra diretamente no solo e inicia a liberação de nutrientes sem necessidade de tratamento prévio. Estudos da Embrapa indicam que esse resíduo contém microbiota com potencial de estimular o desenvolvimento das plantas e inclui compostos como a quitina, associada ao controle de pragas. Pesquisas da UFLA e da própria Embrapa apontam redução de patógenos e aumento de produtividade em culturas como o tomate.
A evolução agora se concentra no fertilizante líquido. Os testes buscam validar o desempenho em campo e garantir que o produto mantenha o efeito observado na versão sólida, com impacto na sanidade das plantas e na redução de doenças.
“Ele não agride, evita a doença ao diminuir a população do patógeno no solo”, explica Villela.
A proposta é combinar nutrição e controle biológico em uma única aplicação, reduzindo a necessidade de intervenções adicionais. Ou seja, o produtor aduba e combate doenças ao mesmo tempo.
A produção dos fertilizantes ainda opera em escala reduzida. Instalada no Feevale Techpark, a estrutura atual conta com uma sala de criação e outra de processamento. Hoje, são cerca de 30 quilos de farinha e 90 quilos de fertilizante por mês. A demanda, no entanto, começa a pressionar por expansão. “Estamos recebendo pedidos de outros locais do país”, conta Villela, que tem planos de ampliar a estrutura para atender volumes.
Opção funcional em dietas hipoalergênicas fornecidas a pets, como cães e gatos
Os produtos com insetos têm potencial de fornecer dietas hipoalergênicas para animais não ruminantes, como cães e gatos. A análise é do professor Luciano Trevizan, do departamento de Zootecnia da UFRGS. “A proteína de insetos fornece aminoácidos essenciais, que são o que realmente importa para o organismo animal”, explica o pesquisador, que atua na área de nutrição de não ruminantes.
De acordo com o pesquisador, essa fonte de proteína pode cumprir o mesmo papel nutricional das tradicionais, embora apresente uma estrutura diferente, capaz de gerar respostas distintas no processo digestivo. “Essa diferença torna a proteína de insetos uma opção funcional para dietas hipoalergênicas”, aponta Trevizan, indicando que o ingrediente vem sendo utilizado principalmente em casos específicos de animais com sensibilidade alimentar, já que “proteínas inéditas podem reduzir reações adversas em comparação às fontes convencionais.”
Hoje, a farinha de insetos não compete como substituta direta de proteínas tradicionais. Na Europa, a realidade é diferente porque há menor disponibilidade de coprodutos animais, compara o professor. O uso de farinha de insetos em rações para pets já ocorre há anos em alguns países daquele continente, impulsionado por limitações produtivas locais. Por aqui, a pesquisa busca entender a qualidade dessa proteína e como utilizá-la melhor. Os estudos abrangem digestibilidade, palatabilidade e composição.
Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) as pesquisas mais recentes deixaram de testar ingredientes diretamente e passaram a investigar a exigência nutricional das larvas, especialmente em relação aos aminoácidos. O objetivo é entender quais níveis são necessários para maximizar o crescimento e o rendimento, explica o professor da UFSM Rodrigo Borille. A estratégia inclui o uso de aminoácidos sintéticos apenas como ferramenta de teste, permitindo formular dietas mais precisas no futuro.
Pesquisa
Apesar dos avanços, os resultados ainda não indicaram aumento significativo de desempenho das larvas. Há dificuldades metodológicas, como medir com precisão o consumo de nutrientes específicos. A estrutura limitada de laboratório e a falta de equipamentos também impactam o andamento das pesquisas. Borille mantém parcerias com instituições em Santa Maria e Santa Catarina, fornecendo larvas para estudos complementares, como processamento da farinha, fermentação e avaliação em animais. Nesses casos, a produção precisa ser padronizada para garantir consistência nos experimentos.
