Rural

Mercado do trigo muda o foco para a qualidade

Chuvas no Sul comprometeram as características do cereal da nova safra, com diminuição do cereal tipo 1, o mais valorizado

Até 25 de setembro 28,9% da área de trigo no país tinha sido colhida, segundo a Conab
Até 25 de setembro 28,9% da área de trigo no país tinha sido colhida, segundo a Conab Foto : Joseani Mesquita Antunes / Embrapa Trigo / Divulgação / CP

A colheita de trigo avança pelo país, mas os resultados desta safra têm decepcionado o mercado, sobretudo quanto à qualidade do cereal.

A avaliação é do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da USP, que aponta o excesso de umidade ao longo do ciclo acabou por resultar em aumento da oferta de trigos tipos 2 e 3, com PH reduzido, e em diminuição na disponibilidade de trigo tipo 1.

Segundo pesquisadores do Cepea, com menor oferta de cereal dentro dos padrões de qualidade demandados, vendedores que ainda dispõem de bons volumes têm elevado os preços de suas ofertas.

A colheita brasileira segue avançando e se aproxima de um terço da área cultivada. Conforme dados divulgados pela Conab, até 25 de setembro, 28,9% da área já havia sido colhida.

Quanto às negociações, a consultoria Safras & Mercado destaca que o mercado encerrou setembro com uma mudança importante.

“O mês começou com compradores confortáveis, produtores seletivos e expectativa de que o avanço da colheita no Paraná aumentasse a pressão sobre os preços. Ao longo do período, porém, o foco migrou da quantidade disponível para a qualidade da nova safra, principalmente após episódios de chuva no Sul”, descreveu Safras & Mercado.

Para o analista de Safras & Mercado Thiago Oleto, o mercado físico chegou ao fechamento do mês mais valorizado em diversas praças, mas ainda com baixa liquidez e crescente diferenciação entre trigo de boa qualidade industrial e lotes inferiores.

RS mais firme

Conforme a consultoria, o Rio Grande do Sul apresentou uma trajetória ainda mais firme. No começo de setembro, a disponibilidade da safra velha era pequena e havia distância significativa entre compradores e vendedores.

E as indicações de compra estavam próximas de R$ 1.355 por tonelada no preço na origem (FOB), enquanto os vendedores buscavam entre R$ 1.400 e R$ 1.500 por tonelada.

“Na segunda metade do mês, a melhora da demanda dos moinhos aumentou a fluidez dos negócios, e lotes ao redor de R$ 1.500 por tonelada passaram a encontrar compradores com maior facilidade”, ressalta Oleto.

No fechamento de setembro, porém, a atenção gaúcha também estava concentrada na qualidade. A colheita ainda era inferior a 1% da área e os primeiros lotes apresentavam peso hectolitro (PH) entre 73 e 80, com maior concentração próxima de 77. Os volumes ainda eram insuficientes para determinar o padrão médio da safra.

Chuvas acumuladas entre 40 e 200 milímetros interromperam a colheita justamente quando aproximadamente 20% a 25% das áreas se aproximavam da maturação.

“Setembro terminou com risco crescente de uma situação em que a disponibilidade total de trigo não seja necessariamente pequena, mas a oferta de trigo com qualidade adequada à moagem possa ficar mais restrita”, avalia Oleto.

Preços físicos refletem cenário

Os preços físicos refletem essa mudança. Entre 2 e 29 de setembro, a referência de compra em Curitiba passou de R$ 1.460 para R$ 1.630 por tonelada. Em Maringá, avançou de R$ 1.400 para R$ 1.530 por tonelada; em Carazinho, de R$ 1.360 para R$ 1.500 por tonelada; e em Porto Alegre CIF, de R$ 1.440 para R$ 1.580 por tonelada.

Em contraste, o trigo para ração (feed) permaneceu bastante depreciado. No fechamento do mês, a indicação nominal em Carazinho e Santa Rosa estava em apenas R$ 769 por tonelada, reforçando a abertura do diferencial entre trigo industrial e produto de baixa qualidade.

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