Rural

Pecuária é mais impactada pela falta de mão de obra do campo

Para sindicalista rural, a sucessão familiar é determinante na formação de trabalhadores para o manejo de animais

Sindicalista visualiza um apagão da mão de obra dos trabalhadores chamados de campeiros, no segmento pecuário
Sindicalista visualiza um apagão da mão de obra dos trabalhadores chamados de campeiros, no segmento pecuário Foto : Keke Barcelos / Embrapa Pecuária Sul / Divulgação / CP

As dificuldades da mão de obra no campo são mais críticas no ambiente da pecuária, no manejo cotidiano com os animais, do que na agricultura, o cultivo de lavouras. É o que afirma o presidente do Sindicato Rural de Dom Pedrito, Rodrigo Zamberlan Coradini, também produtor de arroz e soja e que atua na recria e engorda de bovinos.

Conforme ele, no caso da pecuária, o aprendizado é natural, de pai para filho na lida diária com os animais, transmissão impactada quando a sucessão familiar é interrompida, enquanto na agricultura é possível preparar um trabalhador por meio de um curso de curto espaço de tempo, visto as facilidades possibilitadas pelas tecnologias embarcadas nas máquinas e implementos.

Para Coradini, as máquinas que atendem à agricultura possuem muitas soluções em tecnologias, e assim se torna mais prático e fácil capacitar um jovem para usufruir tais recursos.

“Especificamente na nossa pecuária, temos um problema que afeta a todos. Um trabalhador da pecuária é alguém difícil de ser treinado, de ser ensinado. Tradicionalmente, é algo (conhecimento) passado de pai para filho. Então, é um feeling do lidar com animais. Não é uma coisa que ‘pega’ alguém ali, dá um curso de três meses e ele sai a fazer”. descreve o sindicalista.

“Realmente, (atualmente) você não tem mais esse contato do filho com o serviço do pai dele, que acabava passando esse conhecimento de geração para geração. Isso foi por séculos assim”, acrescenta. “E isso talvez a gente esteja sentindo, que provoque um gap aí, um apagão dessa mão de obra do campeiro, do tradicional trabalhador da pecuária”, deduz.

“Vemos o pessoal de uma geração anterior com uma qualidade, um conhecimento muito grande, e não estamos vendo uma reposição dessas pessoas, principalmente não na mesma qualidade.”

Melhor remuneração

E, conforme o sindicalista, as atividades no meio rural oferecem salários mais altos que os dos centros urbanos.

“Eu diria que ele (campo) remunera pelo menos, talvez, 50% mais do que a cidade ou até mais, ou bem mais ainda, em relação ao trabalho para uma pessoa da mesma qualificação no meio urbano. Para ‘pegar’ alguém que tenha a mesma formação. O campo, principalmente no interior, remunera bem”, complementa.

“E as condições de trabalho dentro das propriedades mudaram muito. Hoje tem internet via satélite, energia elétrica em todas as propriedades.”

Outra das razões para a carência de mão de obra é a migração das famílias do campo para a cidade, ainda potencializada pelos problemas das estradas vicinais (do interior) e das escolas rurais, utilizadas pelas famílias dos trabalhadores rurais. Ou seja, costumam permanecer no meio rural o marido ou o pai trabalhando no campo, com seu deslocamento para a cidade aos finais de semana. Mas os jovens acabam não mais retornando ao local de origem, em razão dos problemas de mobilidade.

“A questão de estradas é um problema. Você não vai ter uma boa educação no campo se você não tiver estradas. E não temos nenhum grande programa governamental”, entende. “É tudo ‘jogado’ para as prefeituras. Cada vez mais o governo estadual e, principalmente, o governo federal passam mais responsabilidades para as prefeituras”, ressalta.

E menciona a dimensão do município de Dom Pedrito: são 2.500 quilômetros de estradas interioranas, que exigem manutenção. “Como é que vamos conservar isso aí com os parcos recursos da prefeitura? Impossível.”

Programas sociais

O sindicalista ainda atribui uma parcela da escassez de trabalhadores, e não apenas no campo, aos programas sociais do governo federal, que não estimulam os trabalhadores a buscar a formalização.

“O país inteiro está sofrendo com um problema de mão de obra. E isso, em grande parte, a gente atribui a esse excesso de programas sociais, que está estimulando as pessoas a viver na informalidade”, avalia.

“E não libertam as pessoas, não estimulam elas a procurar o emprego formal, onde tarão evolução numa carreira. E quando ‘você’ tem um benefício, um Bolsa Família, ‘você’ se acomoda naquela situação, não busca a formalização, e fica eternamente preso nessa... fica um prisioneiro, refém daquela esmolinha do governo. E um ‘biquinho’ por fora e nunca aprende a desenvolver uma carreira onde pode ter uma evolução. E isso é um problema no país inteiro, em todos os setores”, lamenta.

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