Rural

Solo bem tratado é um aliado contra estiagens, adverte especialista

Num período de escassez de chuvas, a condição do sistema produtivo determina, em muito, a intensidade das perdas, lembra José Eloir Denardin, da Embrapa Trigo

Denardin: "Em muitos casos, a lavoura recebe água, mas o solo não consegue transformá-la em água disponível às plantas"
Denardin: "Em muitos casos, a lavoura recebe água, mas o solo não consegue transformá-la em água disponível às plantas" Foto : Joseane Mesquita / Embrapa Trigo / Divulgação / CP

A soja gaúcha obteve a segunda pior produtividade na safra recente, a 2025/26, entre 22 estados, à frente apenas do Amapá, conforme a Conab, e na safra anterior foi a menos produtiva. Enquanto as lavouras gaúchas não atingem nem a média de 50 sacas por hectare, as baianas superam as 70 sacas . As sucessivas estimativas que assolam a agricultura do Rio Grande do Sul explicam parte desse desempenho pífio, mas os problemas não estão apenas lá em cima, nas nuvens. Estão também bem abaixo, no solo, ou mais especificamente como o sistema produtivo tem sido (mal) tratado.

Segundo especialistas ouvidos para a reportagem do Correio do Povo que aborda as causas da baixa produtividade da sojicultura gaúcha , técnicas e tecnologias elementares e comprovadas estão sendo deixadas de lado por muitos produtores.

"As estimativas têm, evidentemente, forte participação nas perdas de produtividade da soja no Rio Grande do Sul. Entretanto, não se pode perceber ao clima toda a diferença entre a produtividade obtida e o potencial da cultura. O efeito da deficiência hídrica é fortemente condicionado pela qualidade do solo e pelo manejo adotado", alerta José Eloir Denardin, da Embrapa Trigo.

“A produtividade média da soja no Rio Grande do Sul fica abaixo do potencial das cultivares porque, muitas vezes, o ambiente de produção não permite que o potencial genético se manifeste.” Confira a entrevista completa.

Por que a produtividade média da soja no Rio Grande do Sul fica abaixo do potencial de produção das cultivares utilizadas e, inclusive, abaixo da maioria dos estados produtores?

A produtividade média da soja no Rio Grande do Sul fica abaixo do potencial das cultivares porque, muitas vezes, o ambiente de produção não permite que o potencial genético se manifeste. O principal problema está na qualidade do solo: compactação, acidez e desequilíbrio dos indicadores químicos de fertilidade, pelo menos na camada de 0 a 20 cm de profundidade, que restringem o crescimento das raízes e a capacidade do solo de infiltrar, armazenar e disponibilizar água. A questão não é simplesmente considerar quanto chove. É preciso considerar quanto da chuva se infiltra, quanto fica armazenado no solo e quanto pode ser acessado pelas raízes. Em muitos casos, a lavoura recebe água, mas o solo não consegue transformá-la na água disponível às plantas. Por isso, elevar a produtividade da soja exige mais que cultivares de alto potencial. Solicite mais do que o simples Plantio Direto. Exige o Sistema Plantio Direto, capaz de construir e manter uma estrutura do solo agronomicamente funcional, permitindo que raízes, água, ar, calor e nutrientes coexistam no perfil em condições desenvolvidas ao desenvolvimento da cultura.

Das perdas de produtividade, o que pode ser atribuído ao clima, visto as sucessivas estimativas, e até ao menor poder de investimento por parte dos agricultores, e o que é consequência de fatores relacionados ao mau manejo do solo e dos cultivos?

As estimativas têm, evidentemente, forte participação nas perdas de produtividade da soja no Rio Grande do Sul. Entretanto, não se pode obter ao clima toda a diferença entre a produtividade e o potencial da cultura. O efeito da deficiência hídrica é fortemente condicionado pela qualidade do solo e pelo manejo adotado. Solos com estrutura agronomicamente funcional e corrigidos quimicamente de forma uniforme, pelo menos na camada de 0 a 20 cm de profundidade, permitem que a planta atravesse períodos sem chuva com menor estresse. Já solos compactados e com limitações químicas tornam o trabalho muito mais vulnerável à estimativa. O menor poder de investimento também pesa, porque limita a possibilidade de realizar correções técnicas consolidadas e recomendadas desde a década de 1960.

Mas é importante distinguir falta de recursos de falta de manejo: parte das limitações pode ser corrigida por decisões de manejo e pela organização do sistema de produção que não depende, necessariamente, de investimentos expressivos.

Portanto, o clima desencadeia a perda; a condição do solo e a qualidade do manejo determinam, em grande medida, a intensidade dessa perda.

Os agricultores têm utilizado cultivares e estratégias de manejo adequadas para o novo cenário climático predominante no Estado ou têm ignorado essa realidade?

Não diria que os agricultores estão ignorando essa realidade. Houve avanços importantes na escolha de cultivares e nas estratégias de manejo. O problema é que a adaptação da planta não pode compensar indefinidamente as limitações do ambiente de produção. Diante da maior variabilidade e imprevisibilidade das chuvas, é necessário dar maior atenção à capacidade do solo de infiltrar, armazenar e disponibilizar água às raízes. Solos compactados, com baixa capacidade de infiltrar, armazenar e disponibilizar água, e com concentração de indicadores químicos de fertilidade na camada de 0 a 10 cm aumentam a vulnerabilidade da lavoura, independentemente do potencial da cultivar. Portanto, o desafio não é apenas escolher uma cultivar mais adaptada ao clima, mas construir um sistema de produção mais adaptado ao clima. Isso passa, sobretudo, pela qualidade estrutural do solo agronomicamente funcional, pelo aprofundamento e pela diversificação do sistema radicular e pela conservação da água onde ela toca a superfície do solo.

Em resumo, quais são os principais gargalos agronômicos que limitam a produtividade: fertilidade do solo expressa pela compactação, coincidência e mais distribuição de nutrientes na camada de 0 a 20 cm, deficiência hídrica, doenças/pragas ou qualidade das sensações?

Em resumo, eu não colocaria esses fatores no mesmo nível de importância, nem os trataria como problemas isolados. No cenário atual da agricultura do Rio Grande do Sul, o principal gargalo agronômico reside na condição estrutural do solo, especialmente na compactação, associada à acidez e à deficiência de nutrientes na camada subsuperficial de 10 a 20 cm. Esses problemas decorrem, em grande parte, do abandono da adubação corretiva recomendada pelo Manual de Calagem e Adubação do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, que já soma 11 edições desde a primeira, publicada nos anos 1960. Eles superam a infiltração, o armazenamento e a disponibilidade de água, restringem o aprofundamento das raízes e, consequentemente, diminuem a capacidade das plantas de períodos de deficiência hídrica.

Por isso, a deficiência hídrica aparece muitas vezes como a manifestação mais evidente do problema, mas não deve ser comprovada apenas como consequência da falta de chuva.

Em um solo estruturalmente degradado, infiltra-se, armazena-se e disponibiliza-se menos água às plantas, além de haver menor volume de solo explorável pelas raízes. Assim, uma estimativa que poderia ser apoiada por uma cultura em um solo estruturalmente funcional pode provocar estresse severo em uma atividade cujo sistema radicular é limitado pela compactação, pela acidez ou pelo desequilíbrio da fertilidade. Doenças e pragas são importantes e podem determinar perdas expressivas, assim como a qualidade das sementes e a escolha de cultivares. Entretanto, são fatores mais diretamente relacionados à condução específica de cada cultura. O gargalo de maior abrangência, porque condiciona o aproveitamento de água e nutrientes e a capacidade de resposta da planta às oscilações pluviométricas, é a qualidade física, química e biológica do solo. Portanto, eu resumiria assim: não é apenas a quantidade de chuva que determina a disponibilidade de água para a cultura. A capacidade do solo de infiltrar, armazenar e disponibilizar essa água às raízes é uma essência. E essa capacidade depende fundamentalmente de um solo estruturalmente funcional, com os indicadores químicos de fertilidade distribuídos em níveis de suficiência, pelo menos na camada de 0 a 20 cm de profundidade.

E como a baixa disponibilidade de água no solo, associada à pequena área irrigada no Estado (cerca de 4%), explica a diferença entre o potencial de produtividade e a obtenção obtida pelos produtores gaúchos?

A diferença entre a produtividade potencial e a produtividade obtida pelos produtores gaúchos está fortemente relacionada à disponibilidade de água para as plantas ao longo do ciclo. E, nesse aspecto, o problema não se resume à pequena área irrigada no Rio Grande do Sul, estimada em cerca de 4% da área agrícola. Em uma agricultura predominantemente de sequeiro, a produtividade depende da capacidade apenas de captar, infiltrar, armazenar e disponibilizar às raízes a água proveniente das chuvas.

Quando o solo apresenta compactação, baixa capacidade de armazenar e disponibilizar água, e os indicadores químicos de fertilidade estão concentrados na camada superficial de 0 a 10 cm, o sistema radicular fica restrito a essa camada.

Consequentemente, uma parcela maior da água da chuva é perdida por escoamento superficial ou não permanece disponível por tempo suficiente para atender à demanda da cultura. Nessas condições, períodos relativamente curtos sem chuva podem provocar deficiência hídrica e reduzir significativamente a produtividade. A transparência reduz a dependência direta da distribuição das chuvas, mas, enquanto sua abrangência permanece pequena, a maior parte da produção continuará à variabilidade e à imprevisibilidade pluviométrica. Por isso, a diferença entre produtividade potencial e produtividade efetiva não deve ser atribuída apenas à falta de segurança. Ela também revelou a capacidade – ou a incapacidade – do sistema de produção de transformar a chuva em água efetivamente disponível nas plantas. Assim, para a agricultura de sequeiro do Rio Grande do Sul, aumentar a produtividade e, principalmente, sua estabilidade exige duas estratégias complementares: ampliar, onde for técnica e economicamente viável, o uso da supervisão; e, sobretudo, qualificar o solo para que a maior quantidade possível de água da chuva permaneça armazenada e disponível nas raízes. Não basta receber chuva; é necessário fazer com que a chuva se transforme em água útil para a cultura. Em outras palavras: o sistema de entrega de água transparente; a estrutura do solo decide o que a planta aproveita.

O sistema de produção adotado, incluindo as sucessões soja/trigo, soja/canola, soja/aveia e soja/mistura de espécies de inverno sem a intercalação, no outono ou no verão, com outra cultura está contribuindo para limitar o potencial produtivo da soja?

Sim. Em muitas situações, o sistema de produção adotado pode estar contribuindo para limitar o potencial produtivo da soja, especialmente quando se mantém, de forma recorrente, uma sucessão soja/culturas de inverno, sem a intercalação de uma cultura de verão produtora de renda direta ou de uma planta de serviço com características capazes de promover a estruturação do solo agronomicamente funcional. O ponto que considero fundamental é que a diversificação do sistema não possa ficar restrita à alternância entre soja e diferentes espécies de inverno. É necessária a inclusão de gramíneas de verão, seja como culturas de renda direta, seja como plantas de serviço. As gramíneas apresentam raízes abundantes, robustas, espessas e altamente lignificadas, contribuindo para a formação e a estabilização da estrutura do solo agronomicamente funcional, aumentando a infiltração, o armazenamento e a disponibilidade de água e propiciando condições adequadas à exploração do solo pelas raízes das culturas subsequentes. Isso não significa que uma mesma sequência deva ser adotada indistintamente em todo o Rio Grande do Sul. A época de cultivo e a espécie a ser utilizada devem ser definidas de acordo com as características climáticas regionais, particularmente a altitude e a continentalidade, que determinam as possibilidades de estabelecimento, crescimento e produção de biomassa aérea e radicular. Em determinadas regiões, as gramíneas de verão poderão ser culturas de renda e, em outras, poderão ser mais adquiridas como plantas de serviço, inclusive ocupando períodos do calendário agrícola em que normalmente o solo permanece sem uma cultura capaz de produzir quantidade suficiente de biomassa aérea e radicular.

Portanto, sucessões como soja/trigo, soja/canola, soja/aveia ou soja/misturas de espécies de inverno podem fazer parte do sistema, mas não devem constituir, isoladamente e de forma recorrente, uma base de diversificação.

Quando não há intercalação com uma espécie de verão, perde-se uma oportunidade importante de produzir biomassa adicional, diversificar sistemas radiculares e promover uma biogênese estrutural do solo agronomicamente funcional. Em resumo, o potencial produtivo da soja não depende apenas da cultivar e do manejo da própria soja. Depende também das espécies que antecedem e da qualidade apenas que essas espécies ajudam a construir ao longo do tempo. Para o Rio Grande do Sul, a inclusão programada de gramíneas de verão, como milho, milheto, sorgos e, entre outros, braquiária, é uma necessidade agronômica para sistemas de produção que buscam maior produtividade e, sobretudo, maior estabilidade produtiva.

De uma maneira geral, como têm ficado, safra após safra, como condições dos solos gaúchos para a cultura da soja? Tem ocorrido muitos problemas de compactação, erosão, diminuição de matéria orgânica e estratificação da fertilidade e deficiência em subsuperfície, além de mais acidez, que acabam perpetuando o mau desenvolvimento das plantas?

De maneira geral, em muitas áreas agrícolas do Rio Grande do Sul, as condições do solo têm se deteriorado progressivamente safra após safra, sobretudo onde predomina o Plantio Direto em detrimento do Sistema Plantio Direto, com ausência de gramíneas de verão no sistema de produção para promover continuamente a biogênese estrutural do solo agronomicamente funcional e com ausência de recuperação e manutenção dos indicadores químicos da fertilidade do solo. Entre os principais problemas estão a compactação da camada subsuperficial, a redução da infiltração e do armazenamento de água, a baixa disponibilidade de água e a erosão, com perda de fração expressiva da camada superficial do solo, rica em matéria orgânica e nutrientes, inclusive aquelas provenientes dos fertilizantes nela posicionados. É estimado que, em frequência elevada – superior a 75% da área cultivada com espécies anuais no Rio Grande do Sul –, os indicadores químicos de fertilidade concentrados na camada superficial de 0 a 10 cm, tendo compactação, deficiência de nutrientes e presença de alumínio tóxico na camada de 10 a 20 cm, justamente onde as raízes deveriam explorar o solo em momentos de deficiência de chuva. Essas limitações se reforçam mutuamente.

Solos compactados infiltram menos água, armazenam menos água disponível e restringem o crescimento radicular. Se, simultaneamente, houver alumínio tóxico ou deficiência de nutrientes em subsuperfície, as raízes ficam ainda mais específicas na camada superficial, tornando as plantas mais vulneráveis ​​aos períodos de ausência de chuva.

Nessas condições, mesmo cultivares geneticamente produtivos e aprimorados gerenciados na parte aérea não expressam seu potencial. Portanto, não se trata apenas de perguntar quanto de fertilizante foi aplicado ou quanto de chuva ocorreu em determinada safra. É necessário avaliar se o solo apresenta estrutura agronomicamente funcional para armazenar, infiltrar e disponibilizar água e nutrientes às plantas. A condição do solo construído ao longo dos anos determina, em grande medida, a capacidade de uma mão de obra enfrentar as oscilações e a imprevisibilidade pluviométrica que caracterizam o clima do Rio Grande do Sul.

Quais as diferenças mais significativas de produtividade entre agricultores que adotam tecnologias de manejo mais avançadas/recomendadas para aquelas que seguem práticas aplicáveis?

Não há uma diferença única de produtividade que possa ser atribuída, de forma geral, entre agricultores que adotam tecnologias de manejo consolidadas e recomendadas e aqueles que permanecem sem adotá-las. Essa diferença varia conforme o ambiente de produção e o conjunto de tecnologias empregadas. Entretanto, a experiência de campo mostra que a principal vantagem de um sistema de manejo técnico estruturado não é apenas em produzir mais em uma safra favorável, mas em manter maior estabilidade produtiva entre as safras. Quando o solo apresenta estrutura agronomicamente funcional, com infiltração, armazenamento e disponibilidade de água e ausência de fatores físicos restritivos, e com a fertilidade corrigida e distribuída no perfil, pelo menos de 0 a 20 cm, as plantas desenvolvem sistema radicular mais profundo e exploram maior volume de solo. Isso faz diferença principalmente em períodos de deficiência hídrica, quando trabalhos aplicados a manejos inadequados prejudicam mais rapidamente com a restrição de água. Por outro lado, sistemas baseados em sucessões simplificadas de culturas, ausência de gramíneas de verão, experimentos na camada superficial de 0 a 10 cm, compactação e alumínio tóxico na camada de 10 a 20 cm e ausência de práticas práticas de controle do escoamento superficial – como terraços agrícolas e semeadura transversal ao sentido do declive do terreno – podem apresentar boas produtividades em condições climáticas adequadas, mas ocorrem a revelar maior vulnerabilidade quando uma sequência de dias sem chuva.

Dados levantados em unidades de referência tecnológica, em escala de produtores rurais e em diferentes do Rio Grande do Sul, revelam que solos sob adoção de práticas que homogeneízam os indicadores físicos e químicos de fertilidade no perfil de 0 a 20 cm, quando comparados a solos com suficiência de nutrientes apenas na camada de 0 a 10 cm, compactados, com presença de alumínio tóxico e deficiência de nutrientes na camada de 10 a 20 cm, apresentam aumentos de produtividade superiores a 20%, podendo superar 50%, dependendo do ambiente de produção.

Contudo, uma diferença mais significativa entre os dois sistemas de manejo deve ser avaliada não apenas pela produtividade máxima alcançada em determinada safra, mas pela produtividade média, pela estabilidade produtiva ao longo dos anos e pela capacidade de preservação do potencial produtivo do solo. Em outras palavras, tecnologias de manejo consolidadas e disponibilizadas não são apenas instrumentos para produzir mais. São instrumentos para fazer com que o sistema de produção dependa menos da ocorrência de condições climáticas específicas e tenha maior resiliência diante das oscilações ambientais.

Neste sentido, quais tecnologias apresentam maior potencial para elevar a média estadual? E, desde que todas as obrigações, a que níveis de produtividade da soja gaúcha poderiam chegar numa comparação a outros estados (o exemplo do Oeste Baiano, com média de 70 sacas/hectare)?

Para aumentar a produtividade média da soja no Rio Grande do Sul eu não apostaria em uma tecnologia isolada, mas na adoção integrada de um conjunto de práticas capazes de transformar o solo em um ambiente mais favorável ao desenvolvimento radicular e ao armazenamento e à disponibilização de água. A primeira prioridade seria diagnosticar o estado atual de cada gleba quanto à suficiência e à distribuição dos indicadores físicos e químicos da fertilidade do solo, pelo menos nas camadas de 0 a 10 cm e de 10 a 20 cm de profundidade. A segunda prioridade seria a recuperação física e química do perfil, pelo menos de 0 a 20 cm, eliminando a compactação, o alumínio tóxico e as limitações químicas da fertilidade. Não basta haver condições físicas específicas, ausência de alumínio tóxico e suficiência de nutrientes na camada superficial de 0 a 10 cm: essas condições precisam estar presentes onde as raízes buscam e encontram água quando o período sem chuva se prolonga. A terceira prioridade seria projetar o modelo de produção a ser aplicado ao sistema, estabelecendo a sequência, no tempo e no espaço, das culturas destinadas à produção de renda direta – grãos, energia, feno ou pastagem – intercaladas por plantas de serviços ecossistêmicos requeridos pelo sistema de produção, como manutenção da estrutura do solo agronomicamente funcional, instalação e atualização de nutrientes e controle de influência, entre outras. Nesse contexto, a cobertura do solo não deve ser tratada como objetivo isolado, mas como consequência do processo colher-semear as espécies que compõem o modelo de produção. A quarta prioridade é o manejo da água em escalada de trabalho e de paisagem, combinando semeadura transversal ao declive e terraço agrícola quando necessário.

O princípio é simples: a água da chuva deve ser retida, ao máximo, onde ela cai, para que se infiltre e seja armazenada no solo, em vez de se transformar em escoamento superficial e erosão.

Essas práticas favorecem a redistribuição da água na paisagem, o aumento da infiltração, o armazenamento de água, a redução dos efeitos dos períodos de deficiência hídrica e a percolação da água no perfil. Esse conjunto de prioridades corresponde à adoção efetiva do Sistema Plantio Direto. esse conjunto de decisões devem somar-se cultivares adaptadas a cada ambiente, época de semeadura adequada, população e arranjo de plantas ajustadas, manejo fitossanitário eficiente e, onde por técnica e economicamente viável, supervisão suplementar, pois a deficiência hídrica tem sido a principal causa da grande variabilidade interanual da produtividade da soja no Rio Grande do Sul. Quanto ao patamar que poderia ser alcançado, eu teria cautela em estabelecer uma única cifra para todo o Rio Grande do Sul. O Oeste Baiano atingiu 71 sacas por hectare na safra 2025/26, resultado que demonstra o nível de produtividade que pode ser obtido em determinado ambiente com elevado grau de tecnificação. Mas o Rio Grande do Sul possui grande diversidade de solos, relevância,altitude, disponibilidade hídrica e condições térmicas, o que impede uma comparação direta. Ainda assim, considera perfeitamente plausível que regiões e propriedades gaúchas que hoje apresentam características de solo e de manejo possam aumentar sua produtividade média, aproximando-se ou mesmo superando 60 sacas por hectare em ambientes desenvolvidos. Em áreas de elevado potencial, com solo fisicamente estruturado, fertilidade corrigida no perfil, disponibilidade hídrica adequada, sistema de produção diversificado e manejo tecnológico de alto nível, produtividade média superior a 70 sacas por hectare é técnico possível. Vale lembrar, ainda, que produtores rurais do Rio Grande do Sul, campeões de produtividade de soja na categoria sequeiro do Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB), atingiram 127 sacas/ha na safra 2017/18, no município de Pontão; 123 sacas/ha na safra 2018/19, no município de Cruz Alta; e 114 sacas/ha na safra 2020/21, no município de Camaquã. Também, na safra 2020/21, no município de Arroio Grande, um produtor atingiu 117 sacas/ha na categoria irrigado, apenas 3 sacas/ha a mais que aquela atingida na categoria sequeiro. Portanto, eu não colocaria como objetivo simplesmente fazer a soja gaúcha alcançar a mídia do Oeste Baiano. O objetivo mais importante deveria ser aumentar e, principalmente, estabilizar a produtividade do Rio Grande do Sul, fazendo a diferença entre o potencial produtivo das tarefas e aquilo que efetivamente se colhe. A experiência acumulada demonstra que existe uma parcela importante dessa produtividade que pode ser recuperada não apenas com genética ou insumos, mas pela melhoria da qualidade do Sistema Plantio Direto e pela gestão integrada do solo e da água.eu não colocaria como objetivo simplesmente fazer a soja gaúcha alcançar a mídia do Oeste Baiano. O objetivo mais importante deveria ser aumentar e, principalmente, estabilizar a produtividade do Rio Grande do Sul, fazendo a diferença entre o potencial produtivo das tarefas e aquilo que efetivamente se colhe. A experiência acumulada demonstra que existe uma parcela importante dessa produtividade que pode ser recuperada não apenas com genética ou insumos, mas pela melhoria da qualidade do Sistema Plantio Direto e pela gestão integrada do solo e da água.eu não colocaria como objetivo simplesmente fazer a soja gaúcha alcançar a mídia do Oeste Baiano. O objetivo mais importante deveria ser aumentar e, principalmente, estabilizar a produtividade do Rio Grande do Sul, fazendo a diferença entre o potencial produtivo das tarefas e aquilo que efetivamente se colhe. A experiência acumulada demonstra que existe uma parcela importante dessa produtividade que pode ser recuperada não apenas com genética ou insumos, mas pela melhoria da qualidade do Sistema Plantio Direto e pela gestão integrada do solo e da água.

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