Uma substância estudada há mais de duas décadas no Brasil, a polilaminina, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tornou-se recentemente o centro das atenções dentro e fora da comunidade científica.
O destaque nas redes sociais foi impulsionado por vídeos de pacientes que, após sofrerem lesões medulares, voltaram a apresentar movimentos com o uso experimental da substância. A expectativa em torno do composto, no entanto, vem acompanhada de recomendações de prudência por parte de cientistas.
Para a biomédica, neurocientista e divulgadora científica Mellanie Dutra, é fundamental equilibrar o entusiasmo com a cautela, já que a pesquisa ainda está em fase inicial e sem comprovação de eficácia. “Precisamos dar espaço para a ciência acontecer”, afirma.
Entenda o estudo
A pesquisadora responsável pelo estudo, Tatiana Sampaio, explica que a polilaminina é uma versão recriada em laboratório da laminina, proteína natural produzida pelo nosso corpo, disponível principalmente na placenta.
A laminina tem papel central na orientação do crescimento dos axônios, prolongamentos dos neurônios que conduzem os impulsos elétricos e permitem a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo.
Segundo a cientista, a técnica desenvolvida na UFRJ reorganiza a estrutura da molécula, que costuma se perder no processo convencional de extração. Com isso, forma-se um composto mais estável e biologicamente ativo, que ajuda a criar condições favoráveis para que as fibras nervosas danificadas voltem a crescer e se reconectar.
Em uma lesão medular, a inflamação intensa e a morte celular levam à formação de uma espécie de “cicatriz” no sistema nervoso. Esse dano age como uma barreira física, semelhante a um desmoronamento que interrompe uma pista, impedindo que os impulsos nervosos atravessem o local da lesão.
A proposta da polilaminina é funcionar como uma “ponte”, favorecendo o redirecionamento das fibras nervosas e a possível retomada da comunicação entre cérebro e corpo.
A aplicação é realizada durante a cirurgia de descompressão da coluna, preferencialmente até 72 horas após o trauma, fase considerada crítica para tentar modular a resposta inflamatória e ampliar as chances de regeneração.
Fases da pesquisa
Apesar dos resultados iniciais promissores, a pesquisa com a polilaminina ainda precisa responder a uma série de questões antes que seu uso possa ser considerado seguro e eficaz em larga escala.
Entre os principais pontos está a comprovação da eficácia em humanos, que depende da realização de ensaios clínicos nas fases 1, 2 e 3 (veja mais abaixo), com a presença de grupos de controle, para confirmar se eventuais melhoras observadas são, de fato, resultado da substância.
Também é necessário avaliar a segurança a curto e longo prazo, incluindo a investigação de possíveis efeitos adversos e de óbitos relatados em estudos preliminares.
Outro aspecto importante diz respeito à chamada janela de aplicação: embora haja indícios de benefício quando a substância é administrada até 72 horas após o trauma, ainda não se sabe se ela teria efeito em lesões crônicas. Além disso, os estudos precisam definir qual é a dose ideal e o melhor método de aplicação para garantir resultados consistentes e seguros.
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da Fase 1 dos estudos clínicos em humanos, etapa que marca a transição dos testes laboratoriais para a avaliação em pacientes.
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Veja as etapas do estudo clínico:
- Estudos pré-clínicos: Realizados em células e modelos animais, servem para avaliar a segurança inicial da substância antes de sua aplicação em seres humanos.
- Fase 1 – Segurança e tolerabilidade (estágio atual): Testa a aplicação da polilaminina em um grupo de cinco pacientes com lesão medular aguda, com o objetivo principal de investigar possíveis efeitos adversos e a tolerância do organismo.
- Fase 2 – Eficácia e mecanismo de ação: Envolve um número maior de participantes para aprofundar a análise da segurança e verificar se o tratamento é capaz de promover melhora funcional, como recuperação de movimentos.
- Fase 3 – Confirmação em larga escala: Considerada a etapa mais robusta, reúne uma população ainda maior de pacientes para confirmar a eficácia do tratamento por meio de estudos controlados e identificar efeitos colaterais raros. É o último passo antes da solicitação de registro sanitário.
Somente após a conclusão dessas fases o medicamento poderá ser avaliado para aprovação e eventual comercialização.
Grupo de controle
Durante participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, a líder da pesquisa Tatiana Sampaio cogitou a possibilidade de realizar as próximas fases do estudo sem grupo controle, uma prática incomum e não recomendada pela comunidade científica.
A cientista afirmou que o desenho da pesquisa “vai depender da realidade” e indicou que, se os efeitos observados forem muito consistentes, como a recuperação da capacidade de andar, pode haver dificuldade em recrutar voluntários para etapas que não incluam a substância experimental. “Você teria coragem de fazer um estudo clínico controlado?”, questionou.
Para a neurocientista Mellanie Dutra, essa possível resistência reflete uma falha de compreensão sobre o método científico, agravada pela desinformação nas redes sociais. Ela explica que o grupo de controle é fundamental para comprovar a eficácia de um tratamento.
Em ensaios clínicos, esses pacientes não ficam sem assistência. Eles recebem o cuidado padrão, como cirurgia e fisioterapia, enquanto o grupo experimental recebe o mesmo tratamento associado à polilaminina. A comparação permite verificar se a melhora decorre da substância, e não da evolução natural do quadro ou da reabilitação.
“Imagina se, no ideário popular, as pessoas entendem que participar do grupo de controle não é bom e aí poucas se inscrevem. Essa falha pode prejudicar o andamento do estudo, dificultando o fechamento da pesquisa e atrasando a validação que o tratamento precisa para chegar com segurança a toda a população”, afirma a neurocientista.
A neurocientista também faz um paralelo com o desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19 para explicar o rigor do percurso científico. Segundo ela, a rapidez na liberação dos imunizantes durante a pandemia só foi possível graças ao grande número de voluntários e ao financiamento contínuo, fatores que também serão determinantes para o avanço das pesquisas com a polilaminina.