Arte & Agenda

Porto Alegre, enfim, abraçou o Fantaspoa

Percepção de aumento de público indica que o festival alcançou novas audiências

Cinemateca Capitólio registrou várias sessões com muita procura ao longo das últimas duas semanas
Cinemateca Capitólio registrou várias sessões com muita procura ao longo das últimas duas semanas Foto : Mari Korman / Divulgação Fantaspoa / CP

Há pouco menos de um ano, escrevi um texto para o site do Correio do Povo. Nele, afirmava que Porto Alegre ainda não havia percebido o tamanho do Fantaspoa, festival de cinema dedicado ao gênero fantástico e que chega ao final de sua 22ª edição neste domingo, depois de ter exibido 210 filmes de 45 diferentes países. Duas semanas cobrindo de perto o evento me deram a certeza de que era preciso voltar ao tema.

A razão é muito simples: o cenário, antes tarde do que nunca, começou a mudar. Sessões que antes ficavam vazias, agora estão enchendo. As que antes lotavam, agora têm ingressos esgotados com antecedência. Mesmo as masterclasses, que nem sempre atraíam tanta atenção, também estão sendo realizadas com a sala cheia. Os indícios estão todos aí: o Fantaspoa mudou de patamar.

Antes de seguir, uma ressalva: os sinais de que a comunidade passou a abraçar o festival são inequívocos. Mas tudo isso nos parâmetros do próprio evento. O Fantaspoa não é, e imagino que nem pretenda ser, um evento de grande porte na comparação com grandes shows ou competições esportivas. Ele tem seu público cativo, mas não vai ser o assunto nas rodas de conversa do dia seguinte e nem o tema da conversa com o motorista do Uber. Fecha parêntese.

Estreia do filme "Virtuosas" estava com lotação esgotada mais de duas horas antes da exibição | Foto: Ma Villa Real / Divulgação Fantaspoa / CP

A impressão de crescimento do ano passado para cá surgiu logo nos primeiros dias do Fantaspoa 2026. Achei conveniente, no entanto, esperar mais para não correr o risco de fazer uma análise baseada no que poderia ser apenas uma boa largada. Não foi. A procura, principalmente na Cinemateca Capitólio, continuou. Nos finais de semana, quem chegava à bilheteria menos de 15 ou 20 minutos antes do início do filme, invariavelmente saía pela porta e caminhava alguns metros pela Demétrio Ribeiro até o final da fila. Isso quando ainda restavam ingressos.

Os números oficiais do Fantaspoa só devem sair no domingo. Essa análise de que houve crescimento, portanto, está baseada - até aqui - mais em observação do que qualquer coisa. O entendimento geral de quem frequenta o festival tem sido esse, mas é importante ressaltar que não é uma visão unânime. Seja como for, a partir desta ideia de que o interesse aumentou, vem a questão que realmente me parece a mais importante para o momento: o que mudou do ano passado para cá que justifique essa curva crescente?

Não há uma resposta objetiva, mas uma série de hipóteses que, acredito, podem levar a uma reflexão sobre o tema. Todas elas, de uma forma ou de outra, foram discutidas em conversas nos últimos dias com pessoas diretamente envolvidas com o festival. Reproduzo-as a seguir, não necessariamente em ordem de importância.

FESTIVAL DE CINEMA

O rótulo de evento dedicado exclusivamente aos filmes de terror acompanhou por muito tempo o Fantaspoa. Nos últimos anos, o status parecia vir em curva descendente, mas ainda assim aparecia aqui e ali. Quem acompanha o festival, porém, sabe o quanto a pecha não corresponde à realidade. 2026 foi o primeiro ano em que não vi ninguém se referir ao festival de forma estereotipada.

Mais do que isso, o status parece ter mudado: agora, o público que vai às sessões encara o Fantaspoa como um festival de cinema e ponto. Não era raro ver gente na bilheteria com uma lista na mão, comprando, de uma vez só, ingressos para vários filmes, o que indica toda uma preparação a partir da divulgação da programação oficial, justamente uma característica de festivais. Tudo isso também está diretamente relacionado com o próximo tópico…

Filas foram uma contante nas sessões dos finais de semana | Foto: Giovanni Ramos / Divulgação Fantaspoa / CP

RENOVAÇÃO DO PÚBLICO

De todas as perguntas, esta talvez seja a mais distante de uma resposta objetiva. Nas rodas de conversa no festival, é unânime a tese de que o público “rejuvenesceu”. Não que faixas etárias mais altas tenham sumido, pelo contrário. Mas uma rápida olhada nas filas era suficiente para se perceber o predomínio de uma audiência que, no máximo, tem 30 anos. As razões que geraram tanta atração nesse segmento permanecem um desafio para os próprios organizadores.

Pode ter a ver com o fato de o festival ter superado o rótulo dos filmes de terror? Pode. Pode ter a ver com o fato de o Fantaspoa estar, enfim, sendo reconhecido como um evento cultural no calendário da cidade? Pode. Pode ter a ver com um público que está descobrindo (ou estudando) o cinema e, por isso, interessado em aproveitar as mais variadas linguagens? Pode. Mas também pode estar relacionado com o festival ter virado cult e, portanto, ser algo que, supostamente, agrega status para quem o frequenta - ou, traduzindo, cai bem uma fotinho no Instagram dizendo que foi no festival? Também pode. Poder, tudo pode.

PRESENÇA LOCAL

A diversidade geográfica do festival é um dos seus destaques há muito tempo. Mas selecionar filmes que dialoguem, seja como for, com Porto Alegre desperta um tipo diferente de atenção. E chama mais o público local. “Lick me”, o curta-metragem que antecedeu o clássico “Carrie - A Estranha” em mais uma das sessões com ingressos esgotados, foi todo filmado em Porto Alegre, com grande parte da equipe daqui.

“Virtuosas”, outro para o qual não havia mais lugares disponíveis horas antes, não foi feito aqui, mas tinha entre suas protagonistas a atriz Maria Galant, que é daqui. O mesmo vale para “Os Infiéis”. Ou então para outra produção da qual se falou muito no festival: o curta-metragem “Favela Amarela”, codirigido pelo também gaúcho Nicolas Lobato - e que também teve sessão esgotada. Aliás, na mesma exibição, havia outra produção gaúcha: “Contrato”.

A presença, na frente ou atrás das telas, de profissionais da cidade e do estado garante uma mobilização não apenas dos envolvidos diretamente, como de suas redes sociais (as reais, não as virtuais), o que aumenta a procura de forma exponencial.

ENGAJAMENTO OFICIAL

O Fantaspoa existe há mais de 20 anos, mas foi só ali por volta de 2010 que começou a furar uma primeira bolha, em grande parte por causa das redes sociais. De lá para cá, no entanto, o engajamento que vinha crescendo era o do público. Em 2026, contudo, os realizadores parecem também ter incrementado seus processos de difusão dos filmes.

Se nas edições anteriores eu sempre tive que procurar produtores e diretores em busca de uma entrevista, neste ano, pela primeira vez, houve movimento no sentido oposto. Não foi um, nem dois que entraram em contato colocando-se à disposição, muitos deles de fora do país. Seja com eles ou com outros, ao final das entrevistas, a grande maioria também se mostrou aberta a publicações colaborativas, o que aumenta o alcance do conteúdo.

Isso sem falar em casos como, de novo, “Favela Amarela”, que conta com um ambicioso plano transmidiático e que mobilizava fãs antes mesmo da estreia. O perfil oficial do filme no Instagram tem mais de 4 mil seguidores. Pode parecer pouco na comparação com influenciadores. Mas, em se tratando de um curta-metragem que sequer havia sido visto pelo público até pouco tempo, é muita coisa.

Sessões comentadas, como a do filme "Cielo", registraram as maiores buscas por ingressos | Foto: Mari Korman / Divulgação Fantaspoa / CP

BOCA A BOCA

De todas as teorias, essa talvez seja a mais provável. Não que o Fantaspoa não tenha divulgação nas mídias tradicionais. Tem - e essa própria matéria que você está lendo é prova disso. No entanto, mais do que qualquer veículo, é o boca a boca que tem sedimentado a base do público do festival.

É alguém que vai, gosta e recomenda a um amigo. Que, no ano seguinte, vai, gosta e recomenda a outro. E assim sucessivamente. A leitura de dentro da organização é que 2026 foi o ano em que as sementes plantadas ao longo do tempo mais floresceram.

CULTURA DA FILA

Esta última tem mais a ver com a cidade, mas, de qualquer forma, se encaixa no contexto. Quem frequenta a noite de Porto Alegre bem sabe que há uma cultura um tanto quanto irritante de que a festa só é boa se houver fila em frente ao local. Transpondo esse comportamento para o festival, o fato de os primeiros dias terem registrado várias sessões lotadas criou uma impressão, para quem via de fora, de que se estava perdendo o evento do momento.

Como ainda restava a outra semana, o fluxo de público se manteve. Na teoria, isso só poderia acontecer ao acaso, visto que a programação não leva isso em conta. Mas há quem diga que a escalação de filmes como “Godzilla em Santa Fe”, “Herança de Narcisa” e “Virtuosas” na primeira semana não foi tão ao acaso assim.

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