Conversei com uma amiga enquanto ela viajava pela Patagônia. Era um sonho de anos que acabou adiado por causa das prioridades, do trabalho, do casamento, da maternidade, de um câncer. Daqueles planos que ficam esperando pelo momento certo, que nunca chega – porque a vida sempre oferece caminhos entre os quais precisamos escolher, mesmo quando a gente acha que não tem escolha.
Mas depois de quase 50 anos, ela começou a se sentir estrangeira na própria vida. A mulher que a maturidade lhe apresentava não cabia mais no que havia construído com tanta certeza e esforço. Deu um tempo no trabalho, voltou a estudar, se divorciou e começou a riscar a lista de lugares a conhecer, iniciada enquanto tratava a doença. Queria ser estrangeira em outro lugar para encontrar-se em si.
Muitas mulheres deixam de se reconhecer quando chegam na maturidade. Percebem que desejam outras coisas – às vezes, sonhos antigos que ficaram na gaveta, às vezes aspirações novas. Nem tudo vai passar pelo crivo da realidade, mas essas intuições merecem, no mínimo, a perguntinha mágica: “e se?”. E se ali estiver uma oportunidade? E se for o primeiro passo de uma aventura? E se for divertido?
Para descobrir, precisamos nos colocar no papel de estrangeiras de um outro jeito: saindo da ilha que somos e observando-a como uma iniciante, decifrando suas armadilhas e provando suas delícias. Eu gosto muito das viagens para isso. Nelas, você pode deixar o contexto em que repete automaticamente tarefas, rotinas e hábitos para perceber os lugares (e a si mesma) com outros olhos.
Mas isso só é possível se for uma viagem diferente das férias tradicionais, nas quais você carrega as mesmas pessoas, pensamentos e reações da “vida normal”. É preciso uma separação radical do cotidiano. Eu sou entusiasta das viagens solo como ferramenta de autodescoberta na maturidade. Comecei aos 45 e não parei mais, tenho feito pelo menos uma por ano. Cada expedição gera novas descobertas, internas e externas.
Para quem ainda não encara viajar sozinha, vale ir com uma amiga (desde que ela esteja no mesmo ritmo e sejam feitos alguns “combinados” para garantir a autonomia de cada uma). Com várias amigas eu não recomendo, porque em grupos de pessoas conhecidas nós tendemos a manter os comportamentos habituais – afinal, não queremos correr o risco de decepcioná-las apresentando uma versão diferente de nós.
Viajar é apenas uma das maneiras pelas quais você pode olhar para si como uma estrangeira que deseja desvendar-se – mas é das mais divertidas e está entre os principais sonhos das mulheres maduras com as quais converso. Se também for o seu, por que não fazer desse desejo o “rito de passagem” a uma nova etapa da sua vida? Com essa intenção (e um tantinho de coragem), a mulher que volta não é a mesma que vai.
Adriana Haas é jornalista, escritora e tradutora da maturidade. Tem dois livros e uma newsletter semanal sobre o assunto, e adora reunir mulheres para conversar sobre ele – porque acredita que, juntas, as maduras são revolucionárias.
