Adriana Haas

Você, eu e Shakira no mesmo ritmo

Adriana Haas analisa como a trajetória da cantora e de outras mulheres revela um processo comum de redescoberta e reinvenção feminina

Shakira voltou aos palcos em uma fase marcada por reinvenção pessoal e questionamentos sobre maturidade, corpo e lugar das mulheres
Shakira voltou aos palcos em uma fase marcada por reinvenção pessoal e questionamentos sobre maturidade, corpo e lugar das mulheres Foto : Reprodução Instagram Shakira / Divulgação / CP

O que eu, você e Shakira temos em comum? Mais do que parece.

Em um artigo publicado dias antes de subir ao palco em Copacabana, a cantora começou com uma pergunta que atravessa muitas de nós, em diferentes momentos da vida: “por que eu?” Ela se referia ao convite para o show – algo que, guardadas as proporções, se parece com aquelas situações diante das quais, lá no fundo, não nos consideramos à altura.

Não porque, de fato, nos faltem atributos, mas porque fomos treinadas a procurar, em nós, aquilo que supostamente não basta. Esse olhar se revela com facilidade na relação com a aparência, sempre sob suspeita, mas também se infiltra em outras dimensões da vida.

No mesmo texto, Shakira relembra a tempestade pessoal que enfrentou quando uma traição e a separação fizeram desmoronar uma estrutura que parecia sólida.

Nas últimas semanas, acompanhei de perto duas mulheres que passaram por rupturas semelhantes e descreveram a mesma sensação: a de que, sem anúncio ou possibilidade de preparação, elas acordaram e eram mulheres diferentes, mas precisavam continuar dando conta das mesmas demandas cotidianas. E entre o que mudou e o que permaneceu, precisaram se redescobrir.

É comum acreditar que acontecimentos como esses nos tornem outras pessoas. No entanto, a verdade é que eles não nos transformam – apenas tornam impossível continuar sendo quem éramos. O que vem depois não é uma mudança instantânea, mas um processo de reencontro, um trabalho de reorganização interna que raramente encontra espaço no meio da vida que segue exigindo funcionamento.

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É aqui que histórias como a de Shakira, por mais distantes que pareçam, se aproximam das nossas. Embora as trajetórias sejam individuais, existe um pano de fundo comum para as mulheres, especialmente na maturidade.

Vivemos em uma cultura que não aposta na reinvenção feminina depois de certa idade. Ao contrário: sugere contenção, recuo, adaptação.

A reação ao retorno de Shakira aos palcos foi reveladora. Aos quase 50 anos, disseram que ela já não deveria estar ali. Que não teria mais energia.

Que deveria priorizar os filhos. Que seu corpo já não era o mesmo. A mensagem é conhecida e não se restringe a ela.

Ainda assim, ela foi – e conseguimos nos enxergar nesse movimento. Em maior ou menor escala, todas atravessamos momentos em que a vida muda de ritmo e somos chamadas a nos reorganizar sem roteiro claro, sem validação externa e, muitas vezes, sem nem mesmo linguagem para nomear o que está acontecendo.

A maturidade é um desses territórios. Um espaço fértil para transições em que deixamos de caber nas versões anteriores de nós mesmas.

Podemos tentar sustentar o que já não se sustenta ou nos permitir descobrir o que pode emergir dali. Não para repetir o compasso de antes, mas para continuar dançando mesmo quando já não esperam mais que a gente esteja no palco.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.