A vida é um teatro. Nem sempre, porém, somos nós que escrevemos o roteiro.
É mais ou menos isso o que o neurocientista espanhol Rafael Yuste defende quando descreve o cérebro como o “teatro do mundo”: um sistema que não lida diretamente com a realidade, mas constrói uma encenação coerente a partir de nossas memórias, percepções e expectativas. Segundo essa perspectiva, não vivemos a vida como ela é, mas como nosso cérebro consegue organizá-la.
Mas não é apenas o mundo exterior que entra nesse roteiro – nós também fazemos parte dele como as atrizes que desempenham papéis nessa grande peça. Ao longo do tempo, vamos consolidando uma narrativa que nos dá continuidade, identidade e direção. E um dos pontos mais interessantes é que, assim como na ficção, essa narrativa não precisa ser verdadeira para funcionar – basta que seja coerente para que o cérebro não precise reorganizar a trama. Assim, sob o disfarce da “coerência”, somos levadas a repetir as mesmas histórias, mesmo quando os antigos papéis não mais representam quem somos.
É assim que muitas mulheres chegam à maturidade com uma sensação difícil de nomear. A vida está, em tese, no lugar: escolhas feitas, papéis assumidos, estruturas construídas. Mas algo deixa de se encaixar e o que antes organizava começa a limitar. Surge a impressão de estar vivendo uma história correta – e, ainda assim, estranha. Em outros casos, um acontecimento externo (uma separação, um luto, uma doença, um revés profissional) deixa evidente a inquietação que antes se movia apenas internamente.
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Esse descompasso não indica fracasso – indica que a narrativa avançou e o roteiro ficou para trás. Na maturidade, não é apenas o corpo que muda: nós começamos a perceber que há outros papéis possíveis, mais alinhados com quem nos tornamos. E, quando isso acontece, temos a oportunidade de reconhecer que o roteiro talvez precise ser reescrito.
Esse movimento, contudo, não acontece quando fica restrito ao plano das ideias. O cérebro não altera seus modelos apenas porque tivemos um insight: ele precisa de evidências sobre outras formas de viver. Pequenas ações concretas, como sustentar um posicionamento novo, experimentar um desejo antigo e interromper um padrão automático funcionam como sinais de que a história pode mudar. São gestos discretos que começam a reorganizar a forma como a vida é interpretada.
No entanto, mudar o roteiro implica atravessar um período de menor coerência, em que a identidade parece menos estável e o entorno nem sempre acompanha. A antiga versão perde consistência antes que a nova se estabeleça. Esse intervalo costuma ser desconfortável e, por isso, evitado. Mas é justamente nele que a autoria se torna possível.
É nessa transição que a ideia de “assumir o protagonismo” deixa de ser aferrar-se a um papel fixo e passa a ser participar ativamente da construção do enredo – escolhendo o que permanece, o que precisa ser interrompido e quais partes de nós mesmas podem, enfim, ganhar voz e lugar na própria história.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
