Existe uma pressa silenciosa acompanhando nossas trajetórias profissionais. Aos 20 e poucos anos, precisamos descobrir o que queremos fazer. Aos 30, já deveríamos ter construído uma carreira. Depois dos 40, espera-se que estejamos colhendo os resultados das decisões tomadas anteriormente. E, em algum momento dessa linha do tempo imaginária, mudar de direção começa a ser tratado como atraso.
No empreendedorismo, essa ideia talvez seja ainda mais evidente. Gostamos das histórias de quem começou cedo, fundou uma empresa ainda na universidade, criou uma startup antes dos 30 ou alcançou resultados extraordinários em poucos anos. São histórias inspiradoras. O problema começa quando transformamos exceções em régua para medir todas as outras trajetórias. Talvez tenhamos confundido começar cedo com chegar preparados.
Quem começa um negócio depois de anos de carreira não parte necessariamente do zero. Pode não ter uma empresa pronta, clientes ou faturamento, mas tem o repertório como algo difícil de colocar em uma planilha.
Ela leva consigo reuniões que deram errado, negociações que poderiam ter sido conduzidas de outra maneira, relações construídas ao longo dos anos, conhecimento sobre um setor, capacidade de reconhecer problemas mais rapidamente e, principalmente, uma noção mais clara sobre aquilo que quer e sobre aquilo que não aceita mais.
Experiência também é capital.
Talvez os números estejam começando a mostrar isso. Dados do Global Entrepreneurship Monitor 2025 apontaram que, pela primeira vez na série histórica brasileira, iniciada em 2000, 33,7% dos empreendedores em estágio inicial têm mais de 45 anos. Estamos falando de aproximadamente um em cada três novos empreendedores.
Entre as mulheres, o movimento também merece atenção. Dados divulgados pelo Sebrae indicam que 2,7 milhões de brasileiras com mais de 55 anos estão à frente de negócios no País. Esse movimento também aparece quando olho para perto. O Ladies in Tech, comunidade que sou diretora há cinco anos, reúne hoje 373 mulheres. Dessas, 112 têm 45 anos ou mais e destas, 57 já passaram dos 50. São três em cada dez integrantes, proporção muito próxima da que o Global Entrepreneurship Monitor encontrou no País inteiro. Aquilo que eu poderia interpretar como uma característica da minha comunidade é, na verdade, o retrato de um movimento que já está em curso e ainda recebe pouca atenção. Não vejo esses números apenas como uma discussão sobre idade. Vejo como um convite para repensarmos a maneira como enxergamos uma trajetória profissional das mulheres.
A carreira de uma mulher nem sempre segue a linha reta que aprendemos a considerar ideal. Existem pausas, mudanças de cidade, maternidade, responsabilidades familiares, recomeços, oportunidades que não chegaram no momento esperado e decisões que só se tornam possíveis depois de determinados ciclos. Durante muito tempo, tratamos qualquer interrupção dessa trajetória como perda de tempo.
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Mas perda de tempo para quem?
Uma profissional que passou vinte anos conhecendo profundamente uma indústria pode enxergar um problema que alguém chegando agora ainda não consegue perceber. Uma mulher que liderou pessoas durante anos pode chegar ao empreendedorismo entendendo melhor como construir uma equipe. Quem já errou algumas vezes pode tomar decisões diferentes quando recebe uma nova oportunidade.
Isso não significa romantizar a maturidade ou dizer que existe uma idade melhor para empreender. Jovens trazem outras vantagens, assim como experiência não garante sucesso a ninguém. O ponto é justamente o contrário: precisamos parar de procurar uma idade certa.
Vivemos um momento em que as pessoas terão carreiras mais longas, passarão por diferentes profissões e precisarão se adaptar várias vezes ao longo da vida. Nesse cenário, a ideia de escolher um caminho aos 20 anos e simplesmente segui-lo até o fim parece cada vez menos compatível com a realidade. Também precisamos permitir que uma mulher olhe para aquilo que construiu até aqui não apenas como passado, mas como matéria-prima para o que ainda pode construir.
Ainda assim, seria incompleto encerrar por aqui. Repertório, sozinho, não abre portas. Uma mulher que recomeça aos 45 costuma ter muito mais conhecimento do que alguém que começou aos 25, mas menos acesso. Quando decide começar, muitas descobrem que quase ninguém sabe que elas existem fora do cargo que ocupavam. O currículo é sólido e a agenda está vazia. Talvez seja por isso que eu desconfie da palavra atraso. O que costuma faltar nesses recomeços não é tempo, é rede. E rede, diferente de idade, pode ser construída a partir de agora.
Porque existe uma diferença enorme entre começar do zero e começar de novo. Quem recomeça leva consigo conhecimento, conexões, erros, escolhas, cicatrizes e aprendizados. Talvez não tenha mais a mesma disposição para virar noites trabalhando, mas provavelmente também não precise cometer todos os erros que cometeria anos atrás.
Se você adia uma decisão há algum tempo porque sente que perdeu a janela, proponho uma troca de pergunta. Em vez de se perguntar se ainda dá tempo, pergunte quem precisa saber que você está começando. Perguntar se ainda dá tempo não leva a lugar nenhum, porque essa pergunta não tem resposta. A outra tem, e normalmente ela cabe em uma lista de dez nomes.
