Com 70% das empreendedoras brasileiras trabalhando sem colaboradores, a tecnologia e a inteligência artificial podem ajudar a devolver um dos recursos mais escassos para quem toca o negócio: tempo
Existe uma imagem que ainda romantizamos no empreendedorismo. Falo da empresária que construiu seu negócio sozinha, que atende o cliente, responde o WhatsApp, publica nas redes sociais, faz orçamento, cobra pagamento, organiza a agenda, controla o financeiro e, no meio disso tudo, ainda precisa entregar aquilo que efetivamente vende. Quando consegue fazer tudo, é eficiente. Quando não consegue, muitas vezes acredita que o problema está nela.
Mas talvez a pergunta esteja errada, pois em vez de perguntarmos como uma empreendedora pode aprender a fazer cada vez mais coisas, deveríamos começar perguntando por que tanta coisa ainda depende dela para acontecer.
Uma pesquisa divulgada em agosto pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora ajuda a dimensionar esse cenário. Sete em cada dez empreendedoras brasileiras trabalham por conta própria, sem colaboradores. O levantamento ouviu 1.176 mulheres das cinco regiões do país e trouxe um termo que chama atenção para essa realidade, as “eu-presas”, negócios em que praticamente toda a operação depende de uma única pessoa.
O dado ganha outra dimensão quando olhamos para o que acontece fora da empresa. Segundo a mesma pesquisa, 73,8% das empreendedoras são mães, 57,3% são as principais provedoras de suas famílias e 80,7% já precisaram interromper as atividades do negócio para realizar tarefas de cuidado. Estamos falando de mulheres que não apenas empreendem sozinhas. Muitas vezes, elas também administram sozinhas uma enorme disputa pelo próprio tempo.
Já escrevi nesta coluna sobre o peso da dupla jornada para quem empreende. Mas existe uma outra parte dessa discussão que precisamos começar a fazer sobre como a tecnologia pode reduzir a quantidade de tarefas que continuam dependendo exclusivamente de nós.
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Tempo também é estrutura
Quando falamos em inteligência artificial e automação, é comum imaginar grandes empresas, equipes de tecnologia ou processos sofisticados. Mas talvez uma das transformações mais relevantes esteja justamente do outro lado, com os pequenos negócios que ainda não podem contratar uma equipe inteira.
Hoje, uma empreendedora pode automatizar lembretes de pagamento, organizar contatos de clientes, estruturar propostas, resumir informações, criar respostas iniciais para perguntas recorrentes, planejar conteúdos ou reduzir o tempo gasto em tarefas administrativas. Não significa entregar o negócio para uma máquina. Significa decidir melhor onde a presença humana realmente precisa estar.
Tempo economizado não é uma abstração
Um estudo do National Bureau of Economic Research (NBER), realizado com 7.137 profissionais de 66 empresas, mostrou que trabalhadores que utilizaram uma ferramenta de inteligência artificial generativa integrada à rotina passaram a gastar cerca de duas horas a menos por semana com e-mails. O experimento, conduzido ao longo de seis meses, também identificou redução do trabalho realizado fora do horário regular.
Duas horas podem não parecer muito dentro de uma grande estrutura. Para quem concentra atendimento, vendas, financeiro, marketing e operação na mesma pessoa, duas horas por semana são mais de cem horas ao longo de um ano. É tempo que pode voltar para a estratégia, para uma conversa com um cliente, para desenvolver um novo produto ou simplesmente para não precisar terminar mais um dia trabalhando quando todo mundo já parou.
Também precisamos tomar cuidado para não transformar a inteligência artificial em mais uma cobrança sobre as mulheres. Não quero trocar o “você precisa dar conta de tudo” pelo “agora você precisa dominar todas as ferramentas de IA”. Não é sobre conhecer cada novidade que aparece. É sobre identificar aquilo que ocupa horas da nossa rotina sem necessariamente precisar de nós.
Talvez o primeiro passo para construir um negócio que cresce não seja contratar dez pessoas ou implementar uma tecnologia sofisticada. Pode começar de uma maneira muito mais simples, deixando de executar manualmente uma tarefa que se repete todos os dias.
Empreender sozinha pode ser uma circunstância. O problema começa quando fazemos dela um modelo permanente de funcionamento. Porque autonomia não deveria significar dependência absoluta da fundadora. Um negócio que só funciona quando sua dona está disponível o tempo inteiro não dá liberdade a ela. Apenas criou uma nova forma de jornada sem fim.
Se você empreende e sente que não existe espaço na agenda para pensar no crescimento do seu negócio, talvez valha fazer um exercício: quais tarefas da sua semana realmente precisam ser feitas por você? Se souber a resposta, ela pode mostrar que antes mesmo de montar um time, existe espaço para começar a construir estrutura.
Aline Busch é empreendedora e co-fundadora do Instituto Ladies in Tech, primeira rede estruturada de apoio a mulheres empreendedoras em tecnologia do Rio Grande do Sul. Criadora da Softsec Lavanderia e da Colocker, startup de armários inteligentes, aborda temas sobre inovação, empreendedorismo feminino e mulheres na tecnologia.
