Aline Busch

Uma rede vale pelo que circula dentro dela

Para Aline Busch, conectar pessoas é apenas o começo. Um ecossistema se fortalece quando informação, confiança e oportunidades circulam entre elas

Um ecossistema permite que informação, confiança, negócios e oportunidades circulem de forma contínua
Um ecossistema permite que informação, confiança, negócios e oportunidades circulem de forma contínua Foto : Canva / Divulgação / CP

Recentemente, durante um painel, me fizeram uma pergunta que continuou comigo depois da conversa: o que faz uma rede deixar de ser apenas um espaço de encontros e se transformar, de fato, em um ecossistema de negócios?

A resposta mais imediata seria conexão. Afinal, nenhuma rede existe sem pessoas dispostas a se encontrar, trocar experiências e construir relações. Mas, quanto mais penso sobre isso, mais me parece que a conexão, por si só, explica pouco. O que realmente transforma uma rede é aquilo que começa a acontecer depois que essas pessoas se encontram.

Uma sala pode reunir cem profissionais interessantes, gerar trocas de contatos, novas conexões no LinkedIn e boas conversas. Ainda assim, tudo pode terminar exatamente ali. Houve encontro, mas não necessariamente houve circulação. E é justamente essa circulação que, na minha visão, separa uma rede de um ecossistema.

Ela aparece quando uma conversa vira indicação, quando uma informação chega a quem precisava dela, quando alguém apresenta um fornecedor, recomenda uma profissional, convida para um projeto ou lembra de determinado nome diante de uma oportunidade que surge semanas depois. É nesse ponto que a relação deixa de existir apenas entre duas pessoas e passa a produzir valor para além daquele contato inicial.

Ao estudar ecossistemas empreendedores, a própria Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) trata redes ao lado de elementos como acesso a mercados, conhecimento, financiamento, talento e liderança. A lógica por trás disso é relevante porque nenhum desses fatores funciona de forma completamente isolada. O valor de um ecossistema está justamente na capacidade de fazer com que conhecimento encontre quem consegue aplicá-lo, que capital chegue a bons negócios e que oportunidades alcancem pessoas capazes de aproveitá-las.

Essa perspectiva também muda a maneira como pensamos sobre networking. Durante muito tempo, essa palavra ganhou uma conotação quase mecânica, associada à ideia de colecionar contatos, participar de eventos ou manter relações pensando no que elas poderão oferecer no futuro. Mas redes consistentes não se sustentam dessa forma. Elas ganham força quando existe confiança suficiente para que as pessoas também coloquem algo em circulação.

Às vezes, esse “algo” é conhecimento. Em outros casos, pode ser tempo, uma indicação, uma vaga, uma apresentação, uma recomendação ou simplesmente a informação de que determinada oportunidade existe. Nem sempre o valor de uma rede está em algo grandioso. Muitas vezes, ele está justamente na capacidade de reduzir distâncias entre quem tem uma necessidade e quem pode ajudar a resolvê-la.

É também por isso que algumas oportunidades chegam até nós quando nem estamos presentes. Existem portas que se abrem pela competência, mas existem outras que se abrem porque alguém se lembrou do nosso nome em uma conversa da qual não participamos. Isso não diminui a importância da capacidade profissional. Uma indicação pode criar acesso, mas é a competência que determina o que acontece depois. O ponto é reconhecer que talento e oportunidade nem sempre se encontram sozinhos.

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Essa é, para mim, uma das funções mais importantes de um ecossistema, criar pontes. Quando construímos comunidades, é comum concentrarmos muita energia no encontro em si. No Ladies In Tech, por exemplo, nós organizamos eventos, convidamos pessoas, promovemos conversas e celebramos o número de participantes.

Tudo isso é importante, mas tenho percebido que o trabalho mais valioso começa depois. É preciso criar condições para que aquelas relações continuem produzindo movimento, em vez de se transformarem apenas em mais um contato salvo no celular.

Isso vale para comunidades empreendedoras, associações empresariais, universidades, aceleradoras e também para as redes que construímos individualmente ao longo da carreira. Talvez, por isso, medir uma rede apenas pelo número de pessoas que ela reúne diga cada vez menos sobre sua relevância.

Faz mais sentido perguntar quantas parcerias nasceram dali, quantas oportunidades circularam, quantas pessoas chegaram a novos clientes, fornecedores, investidores ou profissionais porque alguém fez uma ponte. Essas perguntas revelam melhor o que aquela rede efetivamente movimenta.

Existe, portanto, uma diferença importante entre ter contatos e fazer parte de uma rede, assim como existe uma diferença ainda maior entre uma rede e um ecossistema. Um contato aproxima duas pessoas. Uma rede cria relações entre várias delas. Um ecossistema permite que informação, confiança, negócios e oportunidades circulem de forma contínua.

É por isso que, cada vez mais, vejo a conexão apenas como ponto de partida. O valor não está apenas em quantas pessoas conseguimos reunir, mas no que passa a existir porque elas se encontraram.

Aline Busch é empreendedora e co-fundadora do Instituto Ladies in Tech, primeira rede estruturada de apoio a mulheres empreendedoras em tecnologia do Rio Grande do Sul. Criadora da Softsec Lavanderia e da Colocker, startup de armários inteligentes, aborda temas sobre inovação, empreendedorismo feminino e mulheres na tecnologia.