Cara leitora,
A fé pode ser religiosa, espiritual, filosófica ou meramente cotidiana. Em minhas andanças recentes, visitei muitas igrejas. Sempre visito. Existe algo nesses lugares que me atrai profundamente. Talvez porque igrejas tenham essa capacidade rara de interromper o ritmo do mundo por alguns minutos. Você entra, senta, silencia... e alguma coisa muda, mesmo que você não saiba explicar exatamente o quê.
Já dizia Gilberto Gil em Andar com Fé: "Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar." Poucas frases resumem tão bem o que a fé representa para a cultura brasileira, presente em músicas, procissões, promessas, frases populares e até no humor.
A música brasileira, aliás, tem um repertório quase infinito sobre o tema. IZA, O Rappa, Gonzaguinha, Cássia Eller, Alceu Valença, Djavan, Marisa Monte. Alguns falam de religiosidade. Outros traduzem esperança, resistência emocional ou insistência na vida. No Brasil, quase sempre tudo isso se mistura, e talvez seja exatamente aí que a fé se torna algo verdadeiramente nosso.
Ela nasce, para algumas pessoas, da crença em Deus. Para outras, da confiança em si mesmas, no tempo, na vida ou na capacidade humana de recomeçar. E existe ainda uma forma muito silenciosa de acreditar que aparece nos gestos mais comuns: continuar tentando, amar de novo, levantar depois de perder alguma coisa importante, seguir mesmo quando não existem garantias.
A fé altera a forma como alguém atravessa a realidade. Duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e reagir de maneiras completamente diferentes dependendo da esperança que conseguem sustentar internamente. Não à toa, Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, observou que os prisioneiros que encontravam algum sentido para continuar, uma crença, uma pessoa amada, um propósito, resistiam de formas que a lógica sozinha não explicava. Nesse sentido, fé não é ingenuidade. É estrutura.
Mas acreditar também não significa viver em felicidade constante, positividade obrigatória ou ausência de dúvida. Talvez uma das interpretações mais honestas sobre a fé seja justamente entender que ela consegue coexistir com medo, cansaço e incerteza. Muita gente continua seguindo não porque tem certeza absoluta, mas porque precisa encontrar algum sentido para continuar.
- A bagagem invisível
- Do FOMO à loucura e a correria em nossas vidas
- Quando a felicidade não precisa de mais nada
- A razão não grita
E talvez seja exatamente isso.
A fé que me move não precisa de um nome específico nem de um altar definido. Ela apareceu em cada igreja que visitei. Não necessariamente no que rezei, pedi ou agradeci, mas no simples ato de parar. De sentar. De deixar o barulho do mundo do lado de fora por alguns minutos.
Ela apareceu em cada pôr do sol visto sem pressa, em cada taça de vinho erguida em agradecimento pela vida, pela oportunidade de viajar e conhecer lugares que antes existiam apenas na imaginação.
No fundo, talvez a fé seja isso: a capacidade de encontrar um centro enquanto tudo ao redor continua em movimento.
Não é ausência de dúvida. É escolher acordar amanhã e continuar apostando naquilo em que se acredita, mesmo sem garantias.
Você já encontrou o seu centro hoje? Qual é a fé que move você?
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
