Cara leitora,
Existe um tipo de lugar que não precisa se anunciar. Sorrento é assim. Suspensa sobre falésias que caem direto no Golfo de Nápoles, com o Vesúvio no horizonte como um lembrete de que beleza e força sempre coexistiram, a cidade simplesmente acontece. Você chega e, quase sem perceber, desacelera.
Foi lá, em uma de minhas andanças, que numa noite fui parar, por indicação, num restaurante típico na Marina Grande. Pequeno, sem nenhuma pretensão, nada daquelas armadilhas de turista. E foi lá que encontrei o Antonino. Nino, como todos o chamam. Cinquenta e sete anos, quarta geração de pescadores, professor de história da arte que, em algum momento da vida, descobriu que a melhor forma de fazer as pessoas se apaixonarem é colocar um bom, belo e farto prato de comida à frente delas. Algo verdadeiramente italiano.
Mesas ao ar livre, o pôr do sol fazendo o que só o pôr do sol em Sorrento sabe fazer, encantar e tirar o fôlego, como se o tempo parasse. Um garçom jovem, atencioso, Giuseppe, com aquele jeito de cena de filme que os italianos têm sem nem tentar. A comida chegou devagar, do jeito certo. E então Nino começou a cantar. De Bocelli a Eros Ramazzotti, a voz dele preencheu o restaurante inteiro sem pedir licença. Era como estar dentro de um filme do Fellini, mas sem roteiro. E do nada, as pessoas presentes estavam ora comendo, ora dançando e cantando, como em uma festa de família.
Tive a oportunidade de me sentar com eles depois. Expliquei que escrevo colunas semanais e que a vida e história das pessoas me fascinam, pedi para batermos um papo despretensioso. E foi aí que a conversa virou outra coisa.
Nino falou sobre paixão com a intensidade que só os italianos conseguem, aquela coisa que você não sabe se é briga, declaração de amor ou só a língua sendo ela mesma. Falou sobre a mulher como centro de tudo. Sobre o matriarcado que sustenta aquela cultura por baixo de toda a exuberância masculina. Falou sobre devoção à família como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, e talvez seja mesmo. Mas foi o Giuseppe que me deixou em silêncio.
- A bagagem invisível
- As prateleiras da amizade
- O peso invisível das decisões que você toma todo dia
- Quando tudo desaba, a culpa pode ser da percepção
Ele tinha sido guarda-vidas. Depois jardineiro. Agora servia mesas com o mesmo cuidado de quem salva afogados e vidas ou cuida das mais belas plantas. Quando perguntei sobre planos, sobre sonhos, sobre o que vinha pela frente, ele pausou por um segundo e disse, sem drama nenhum: “tenho tudo o que quero aqui. Não tenho sonhos. Vivo o hoje”.
E então voltou a recolher os pratos como quem não tinha acabado de desmontar uma lógica inteira de vida. Quantos de nós conseguiríamos dizer isso sem sentir que estamos desistindo de alguma coisa?
A gente foi treinado para acreditar que felicidade é sempre um destino. Uma conquista futura. Um objetivo a atingir, uma meta a bater, uma versão melhorada de si mesmo que ainda está por vir. E aí aparece um jovem numa marina italiana, com cheiro de mar e sal nas mãos, que simplesmente decidiu que o presente é suficiente.
Nino não é menos ambicioso. Ele construiu um restaurante que é extensão de quem ele é. Canta porque quer. Cozinha porque ama. Fala de arte como quem não consegue guardar um segredo. A paixão italiana que todo mundo romantiza de fora não é sobre exagero. É sobre presença. É sobre estar inteiramente no que se faz, no que se sente, em quem se ama.
Sorrento tem um símbolo: o limão sorrentino. Grande, perfumado, quase exagerado. Não cresce tentando ser outra fruta. Cresce sendo o que é, com tudo que tem.
Você consegue dizer o mesmo sobre a sua vida?
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
