Elisa Fernandez

O peso invisível das decisões que você toma todo dia

Elisa Fernandez reflete sobre como crescemos associando liberdade à escolha, mas nem sempre fomos preparadas para o peso de decidir o tempo todo

Entre tantas possibilidades, decidir também virou uma forma silenciosa de cansaço cotidiano
Entre tantas possibilidades, decidir também virou uma forma silenciosa de cansaço cotidiano Foto : Freepik / Divulgação / CP

Cara leitora,

A gente cresceu acreditando que liberdade era ter escolha. Quanto mais, melhor. Mais caminhos, mais possibilidades, mais controle sobre a própria vida. Mas ninguém nos preparou para o peso de decidir o tempo todo.

Você sabia que toma cerca de 35 mil decisões por dia?

Outro dia li uma publicação de Hugo Rodrigues, profissional que não é só mais um nome relevante da publicidade brasileira, mas que representa uma virada de chave de mentalidade no mercado. Hugo construiu a carreira muito conectado ao negócio, não só à criação. Isso parece óbvio hoje, mas durante muito tempo a publicidade brasileira orbitou mais em torno da ideia brilhante do que do impacto real. Ele ajudou a empurrar o mercado para um lugar onde criatividade precisa, obrigatoriamente, gerar resultado.

Na publicação, Hugo escreve sobre fadiga do volume de decisões, excesso de escolhas e ansiedade digital. Com isso, ele não está só posicionando conhecimento, está capturando um sentimento coletivo que muita gente ainda não conseguiu nomear.

Já reparou como é exaustivo? Escolhemos do que vestir ao que comer. Do que assistir ao que ignorar. Do que responder agora ao que deixar para depois. Não é sobre grandes decisões. É sobre o acúmulo silencioso das pequenas. E ele cansa. Cansa demais!

A ciência chama isso de fadiga decisória: quanto mais você decide ao longo do dia, pior você decide depois. Não por falta de inteligência, mas por esgotamento mesmo. Como um músculo que falha.

E aí entra um conceito que explica muito do que estamos vivendo: o paradoxo da escolha, descrito por Barry Schwartz.

A lógica é simples, mas desconfortável: mais opções não geram mais liberdade.
Geram mais ansiedade, mais dúvida e mais insatisfação.

Porque escolher deixou de ser só decidir.

Virou também renunciar.

Não sei se isso acontece com você, mas você já entrou em uma loja de departamentos com uma mega liquidação e saiu de mãos vazias? Já teve a sensação de dentre tantas opções e escolhas acaba não escolhendo nada?

Quanto mais opções você tem, maior é a sensação de que poderia ter escolhido melhor.

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É o tal do “e se…”.

E se tivesse outro produto?

E se tivesse outro restaurante?
E se aquela série fosse melhor?
E se eu estivesse perdendo algo?

Você pode tudo e, por isso mesmo, não consegue se aprofundar em quase nada.

O resultado não é liberdade.
É paralisia.

Um experimento clássico mostrou isso de forma quase irônica: quando consumidores tinham poucas opções de escolha, compravam mais. Quanto menos decisões, mais vendas. Quando tinham muitas, travavam.

Mais liberdade, menos ação.

No fim, a gente não ficou mais livre.
Ficou mais exausto.

E talvez a pergunta mais importante hoje não seja quantas opções você tem.

Mas quantas decisões você consegue sustentar sem se perder.

Porque clareza virou um ativo raro.

E simplificar, ao contrário do que parece, pode ser o movimento mais sofisticado que você faz.

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.