Cara leitora,
De uns tempos para cá, tenho prestado atenção em como estamos reinventando as formas de viver, especialmente as formas de se relacionar, viver o amor romântico. Há quem chame esse movimento de revolução silenciosa dos vínculos amorosos. Silenciosa porque não vem com cartazes nem discursos inflamados, mas se infiltra no cotidiano, nas escolhas pequenas, na maneira como cada um decide amar, se entregar ou preservar sua liberdade.
Amizades adultas, coabitação afetiva, redes de cuidados estão substituindo o modelo “casal padrão” como centro da vida emocional.
O amor romântico sempre foi tratado pela cultura ocidental como núcleo central da vida adulta. O “felizes para sempre” não era apenas um desejo, mas um destino selado. Só que hoje, cada vez mais pessoas estão revendo essa centralidade do casal como eixo de felicidade, segurança e intimidade. Você lembra da cena famosa da porta do Titanic? Caberia sim Jack e Rose sobre ela, mas o peso da narrativa do amor romântico exigiu que só ela sobrevivesse, enquanto ele congelava por um ideal.
O foco excessivo no amor romântico tem desidratado os vínculos de amizade e criado expectativas irreais.
Dados mostram que quem mantém amizades profundas fora do relacionamento amoroso relata níveis mais altos de bem-estar e suporte emocional. Isso comprova que os vínculos não amorosos estão se tornando essenciais na estrutura emocional da vida adulta.
Quem não tem seu grupo de WhatsApp com melhores amigos, colegas de trabalho, ex-colegas de escola, mães e pais dos filhos e por aí afora? Um estudo publicado pelo Phys.org (2025) afirma que apenas 14,4% das pessoas consideram o (a) parceiro (a) amoroso (a) como seu melhor amigo. Então por que ainda insistimos em colocar todos os ovos na mesma cesta?
Concentrar toda a expectativa de companhia, escuta, acolhimento, cuidado e parceria em um só relacionamento é uma equação cada vez mais insustentável. E antes que me critiquem, estou trazendo apenas uma reflexão baseada na realidade: muitas rupturas amorosas hoje não acontecem apenas por incompatibilidade, mas pelo esgotamento emocional de tentar sustentar um modelo carregado de demandas. Enquanto isso, amizades fortes funcionam como fonte de pertencimento com bem menos idealizações.
Lembro de um episódio que aconteceu há uns dez anos. Meu filho era pequeno e estávamos na Costa da Lagoa da Conceição quando vimos um casal numa canoa: o rapaz remava, a moça sentada à frente sob um guarda-sol, cena típica de filme. Duas horas depois, do nada, ele me disse: “Mãe, eu não vou me casar.”
Curiosa, perguntei por quê. E ele respondeu com a simplicidade audaz de uma criança: “Porque eu não quero remar sozinho”, descrevendo a cena que havia visto, e eu sequer imaginava que ele havia reparado.
O futuro das relações não será sobre a substituição do amor romântico, mas sobre a sua descentralização. A gente vai aprendendo que é possível amar de mais de uma forma, viver junto sem casar-se, ter vínculo sem romance e encontrar sentido em pactos que não cabem nos moldes tradicionais. Algo que oferece mais do que uma aliança no dedo: algo raro e precioso, a presença real.
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
