Elisa Fernandez

Quando a esteira vira cabide e a vida, paisagem

Elisa Fernandez questiona: o que deixamos de enxergar quando nos acostumamos?

O excesso de acostumar-se pode virar uma espécie de anestesia
O excesso de acostumar-se pode virar uma espécie de anestesia Foto : Freepik

Cara leitora,

Dia desses, uma amiga querida, por quem nutro a maior admiração, me mandou uma mensagem no direct do Instagram, que compartilho aqui, devidamente autorizada, como sugestão de tema. Dizia ela:

“Sabe o que eu pensei: quando nos acostumamos com as coisas? Quando a esteira (ergométrica) vira cabide de roupas?
E quando ela fica cheia de roupas e a gente nem mais liga para a esteira, para andar sobre ela, nem para as roupas sobre ela.
Em que momento nos acostumamos com as coisas sem ser demandados que isso aconteça?

Essa sugestão abre espaço para reflexões muito maiores: o que deixamos de enxergar quando nos acostumamos? Já pensou nisso?

A história da esteira se repete como tantas outras. Ela chegou em casa com pompa de promessa, símbolo de um novo estilo de vida. Algo que foi adquirido com propósito, cuidar da saúde, movimentar o corpo, mas que acabou virando apenas mais uma parte da casa, até perder o sentido. Isso mostra como, muitas vezes, deixamos de viver a experiência e passamos a apenas “ter” o objeto.

E, se pararmos para pensar, isso não acontece apenas com as coisas que desejamos ter. Quantas vezes, andando pelas ruas, deixamos de perceber o outdoor ou o painel que no início chamava atenção, mas depois se torna parte da paisagem? Esses exemplos são metáforas perfeitas para o risco de não enxergarmos mais aquilo que está à nossa frente, seja um detalhe da cidade, uma relação ou até nós mesmos.

O excesso de acostumar-se pode virar uma espécie de anestesia. A gente para de questionar, de se mover, de sentir. Surge então a pergunta: será que precisamos reaprender a olhar, tirar o pó dos olhos e da rotina, para não deixar que tudo se torne invisível?

O olhar se acostuma. O que chama atenção no início, depois vira paisagem. E isso vale para ruídos, hábitos e até relacionamentos. O olhar se acomoda e, com isso, a vida também. Vamos deixando de valorizar o que era importante: a esteira, que era sobre saúde e movimento, virou cabide; o painel, que era informação ou estímulo visual, virou parte da paisagem; e, muitas vezes, até pessoas viram “paisagem”. Sim, às vezes as pessoas estão ali, mas não são vistas. Nós estamos ali, e não olhamos para nós mesmos.

De tanto se acostumar, transformamos coisas, e até pessoas, em suportes. Já não servem mais pelo que são, mas pelo que precisamos momentaneamente. E assim vamos mantendo coisas e pessoas por hábito, costume, comodismo ou simplesmente por apego e por não saber o que fazer, nem como nos desfazer.

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Em Paciência, música de Lenine, há um trecho que traduz exatamente a ideia de não se deixar anestesiar pela pressa e pelo automatismo, de resistir ao costume de transformar tudo em paisagem:

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara...”

A música soa como um lembrete de que o olhar precisa de pausa para enxergar a verdade. E como um alerta para que estejamos atentos ao perigo que é acostumar-se com as coisas. Claro que pode ser conforto, mas também, como disse, pode ser anestesia. E talvez a vida peça de nós menos cabides e mais movimento. Menos banalização do olhar. Menos paisagem e mais presença.


Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.