Por eu ser uma mulher negra, quando estou em uma sala desenhando algum projeto e tenho a oportunidade de falar sobre diversidade, as pessoas sempre acham que estou falando do recorte racial. Mas, quando falo de diversidade, não estou falando apenas da pauta racial, ainda que essa seja uma bandeira que carrego com propriedade.
A diversidade é um conceito maior, que abrange geração, território, deficiência, gênero, orientação sexual e tantos outros marcadores que se cruzam e se somam. Quando falamos de diversidade, também falamos dos direitos dessas pessoas, inclusive no mundo dos negócios, que, historicamente, não é nada acolhedor para essa população.
E é justamente aí que mora a virada de chave desta coluna e que me cabe esse papel importante como colunista: a diversidade não é só uma pauta social, é também uma pauta econômica.
O chamado pink money, que se refere ao poder de consumo da população LGBTQIAPN+, já é grande demais para ser ignorado. Segundo o estudo Rainbow Hom es, da Nielsen, esse público movimentou R$ 18,7 bilhões no Brasil entre os primeiros trimestres de 2024 e 2023, um crescimento de 39% no período.
Falando pelo lado do empreendedorismo, os dados também são incríveis. Um levantamento do Sebrae mostra que 3,7 milhões de brasileiros LGBT+ possuem negócio próprio ou atuam como autônomos, e 24% da população LGBT+ empreende. A maioria, porém, ainda enfrenta desafios estruturais: 82% desses negócios faturam até R$ 81 mil por ano e 63% são liderados por pessoas entre 16 e 34 anos.
Entre pessoas trans e travestis, o cenário é ainda mais revelador. Entre elas, 70% já empreendem ou desejam abrir um negócio próprio, muitas vezes como resposta à dificuldade de conseguir vaga em empresas tradicionais.
Ou seja, diversidade não é discurso: é dado e mercado. Estamos falando de pessoas construindo renda, futuro e visibilidade a partir do próprio negócio.
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Trazendo para meu campo com olhar empreendedor, apresento iniciativas e alguns dos negócios de pessoas empreendedoras LGBTQIAPN+. Se estamos falando de diversidade e inclusão, preciso trazer histórias reais para vocês e incentivá-los a consumirem e movimentarem essa economia.
Se no Brasil o movimento cresce, no Rio Grande do Sul ele também ganha corpo, inclusive em meio à reconstrução do Estado. Estou tendo a oportunidade de conexão com pessoas empreendedoras que têm me mostrado negócios de impacto social voltados ao público LGBTQIAPN+. Apresento três projetos para que conheçam:
Abalô Conexões Plurais
Mais do que divulgar negócios, a Abalô cria oportunidades. Sua plataforma funciona como um ponto de conexão e visibilidade para pequenos empreendedores, profissionais autônomos, empresas e iniciativas que, muitas vezes, ainda não possuem um site próprio ou uma presença digital estruturada.
Ao aproximar quem oferece produtos e serviços de quem busca fornecedores alinhados aos valores da diversidade, da inclusão e do respeito às diferenças, a Abalô amplia oportunidades de negócios e fortalece um ecossistema empreendedor mais plural e acessível. Paralelamente, desenvolve e coordena projetos de impacto social e oferece uma esteira de soluções que inclui palestras, workshops, consultorias, mentorias e experiências educativas voltadas à promoção da diversidade, da equidade e da inclusão.
Uma dessas soluções é o Jogo da Diversidade e Inclusão, uma metodologia desenvolvida pela Abalô para ser aplicada em workshops, treinamentos e vivências. A experiência convida as pessoas participantes a refletirem, de forma prática e colaborativa, sobre os desafios da convivência, o reconhecimento de preconceitos e a construção coletiva de soluções para ambientes mais respeitosos e inclusivos.
Utilizando um jogo de tabuleiro cooperativo, a metodologia estimula o diálogo e a participação ativa. Em vez da competição, todos caminham juntos, fortalecendo valores como empatia, escuta, respeito e pertencimento. Ao longo da jornada, as “Cartas de Afeto” tornam-se ferramentas para ampliar a consciência sobre as diferenças, desconstruir preconceitos e inspirar mudanças que impactam tanto a vida pessoal quanto os ambientes de trabalho.
Mais do que um jogo, trata-se de uma experiência transformadora, capaz de despertar novas perspectivas, fortalecer relações humanas e incentivar uma cultura organizacional mais inclusiva e consciente.
Educatransforma
Um ecossistema de diversidade com foco na educação, empregabilidade e saúde de pessoas trans e demais grupos, com atuação nacional. O projeto se coloca como uma ponte entre as pessoas transgênero e o mercado de trabalho de tecnologia e inovação, formando e capacitando essas pessoas para que passem a atuar na área. São agentes de transformação, conexão entre pessoas, organizações, qualificação profissional, diversidade e inclusão.
“Acredito em causas sociais, no impacto e na importância dos direitos humanos, principalmente de recortes mais vulnerabilizados na sociedade, por isso não meço e não medirei esforços para ser agente atuante na mudança que acredito no mundo, para nos tornarmos uma sociedade justa e equânime para todas as pessoas”, diz o CEO e fundador Noah Scheffel.
Transversal
É um Hub idealizado e especializado na população trans e travesti dentro da indústria musical. Atuam a partir da ideia de que a produção de eventos se torna ferramenta de transformação social, promovendo cultura, inclusão e visibilidade com protagonismo trans.
Desempenhando atividades em áreas importantes como produção de eventos musicais e culturais, organização de marchas e eventos de movimentos sociais, promoção da cultura trans e travesti, responsabilidade social e inclusão, além da visibilidade e direitos da população LGBTQIA+, trabalham também com um projeto fundamental chamado Coletivo Ponto de Vista.
Em funcionamento desde 2024, o projeto social de cultura, diversidade e políticas foi feito pela e para a comunidade da Ilha da Pintada, em Porto Alegre, por vezes invisível quando se fala de acesso a políticas públicas e resiliência climática. Sendo duramente atingida com enchentes e inundações no RS, a comunidade recebe o projeto que visa garantir direitos e segurança para o território em caso de novos eventos climáticos.
Muito bom né?!
Espero que conheçam e possam consumir os produtos e serviços dessa cadeia empreendedora, além de muitos negócios que temos no ecossistema. Eles são bem consolidados, com propósito muito claro e partem sempre de uma dor pessoal dos seus fundadores. Hoje, impactam e se consolidam como economia territorial, potencializando uma comunidade inteira.
Muito obrigada pela leitura e logo eu volto com mais histórias e negócios empreendedores para vocês, combinado?!
Lu Brito é mãe, empreendedora há mais de nove anos e CEO do espaço kids Gurizada Faceira. Atua como gestora de projetos e comunidade no ecossistema de inovação, gestora de projetos na B2Mamy e mentora de startups. Também é líder de inovação e articulação na Odabá - Associação de Afroempreendedores do RS.
