Marina Käfer

A chegada da H&M ao Brasil: diversidade, brasilidade e capitalismo repaginado

Marina Käfer reflete sobre as escolhas de comunicação da fast fashion europeia no mercado brasileiro

A H&M traz diversidade de tamanhos, estilos, cores e identidades em sua estreia no país
A H&M traz diversidade de tamanhos, estilos, cores e identidades em sua estreia no país Foto : Murillo Lima e Ian Rassari / Divulgação / CP

A chegada da H&M ao Brasil não é apenas mais uma inauguração no calendário do varejo: é um marco que provoca reflexões sobre como nos vemos e como o mundo nos enxerga.

Pela primeira vez em muito tempo, uma marca internacional desembarca no país com um olhar que não tenta impor padrões estrangeiros, mas absorver a brasilidade presente. O resultado é uma moda que não apenas vende o produto, mas cria comunidades.

Nos últimos dias, a expectativa pela chegada da loja se tornou um dos principais assuntos nas redes sociais, não só por causa das peças, mas também pela importância de sua inauguração e curiosidade a respeito do público que participaria desse encontro. Reforçando o tom jovem e contemporâneo de sua comunicação, a marca europeia surpreendeu ao eleger Gilberto Gil como porta-voz musical para o evento.

Enquanto tantos grupos nacionais ainda patinam em inclusão e representatividade, a H&M entendeu que o corpo brasileiro não cabe em uma régua estreita. Trouxe diversidade real, de tamanhos, estilos, cores ee identidades. Trouxe também um discurso que não é só marketing, mas se manifesta nas araras, nas campanhas, nos provadores. O que sempre pedimos às nossas próprias marcas — e raramente recebemos — agora chega embalado por uma grife de fora.

Isso é, ao mesmo tempo, fascinante e incômodo. Fascinante porque o consumidor brasileiro finalmente pode se ver representado em vitrines globais mesmo com sua diversidade social e física. Incômodo porque revela que nós, no nosso próprio mercado, não conseguimos entregar esse espelho da diversidade antes que alguém viesse fazê-lo.

Mas há uma camada a mais nessa discussão: o impacto no capitalismo. A entrada da H&M injeta concorrência, movimenta o jogo dos preços e desafia as gigantes do fast fashion nacional a se reinventarem. A competição pode, sim, trazer ganhos para o consumidor, mas também escancara os paradoxos do consumo contemporâneo. Afinal, a diversidade que chega às prateleiras vem junto de um incentivo ao consumo em massa, de coleções rápidas e de uma engrenagem que gira sem parar.

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O desafio agora é pensar: como equilibrar a celebração da representatividade com a responsabilidade do consumo consciente? A H&M mostra que é possível vestir o Brasil com brasilidade, mas cabe a nós, consumidores e formadores de opinião, exigir que esse movimento não seja apenas mais um capítulo do capitalismo acelerado, e sim uma transformação real na forma como a moda conversa com a nossa identidade.


Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.