Marina Käfer

A moda é para todos?

Marina Käfer questiona a falsa promessa de inclusão na moda e denuncia a exclusão de diferentes corpos e classes sociais

Na moda contemporânea, o discurso de diversidade termina na campanha publicitária
Na moda contemporânea, o discurso de diversidade termina na campanha publicitária Foto : Freepik

Existe um discurso vazio de que a moda é pra todos, mas basta dar uma volta em qualquer loja para perceber que “todos” ainda é muito seletivo. Os tamanhos param no G - e quando chegam ao GG, é como se fosse um favor. O corpo fora do padrão precisa “dar um jeito”, se esconder, se conformar.

A indústria fecha os olhos e os zíperes também. Com a chegada de medicamentos para perder peso, influenciadores que falavam sobre a luta contra padrões agora estão falando sobre emagrecimento em clínicas, contradizendo as frases antigas de que emagrecer é possível, basta querer - ou melhor, basta ter dinheiro!

Enquanto isso, o discurso de inclusão estampa campanhas com modelos diversos só até o comercial acabar, porque na arara, o que tem mesmo é P, M, G - às vezes nem isso. A moda adora a estética da diversidade, mas não quer o esforço real da inclusão.

Na última edição da SPFW, com 17 marcas, mais de 400 modelos entraram na passarela, mas somente três eram “curve” - que vestem acima do 38 até o 42.
E quando falamos de acesso, o abismo fica ainda maior. Como falar em moda democrática se uma camiseta custa metade do salário de quem está na base da pirâmide? O fast fashion é o que sobra — e ainda vem com julgamento embutido. Mas quem dita as tendências não mora em bairro periférico, não pega ônibus lotado e nunca teve que escolher entre o pão e a blusa da vitrine para estar na moda.

Quem sustenta esse sistema de exclusão é quem acredita ainda fazer parte de uma elite seletiva. Compram bolsas de grife feitas na China, vestem logomarcas com orgulho e fingem que o luxo é só deles. Mas até o luxo já se popularizou, e o que resta é a ilusão de superioridade.

Moda é expressão, sim, mas também é poder. Enquanto ela continuar servindo apenas aos corpos magros e aos bolsos cheios e não falarmos sobre a exclusividade em um desfile onde o racismo e a agressão estiveram presentes, essa expressão será sempre limitada e covarde. Então, a pergunta é: se a moda é pra todos, por que ela exclui tantos?

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Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.