Como brasileira, me sinto triste por não termos trazido para casa a estatueta em nenhuma das indicações, mas o quão grandes somos e fomos vai além disso. Imaginar uma vida sem arte é como imaginar o mundo sem memória, sem identidade e sem possibilidade de futuro. A arte não é apenas um fetiche da existência humana, ela é um dos pilares que sustentam nossa capacidade de sentir, refletir e nos reconhecer. Sem criar ou ter a possibilidade de imaginar algo, não teríamos como sentir ou até mesmo liberar nossas emoções; a história das nossas vidas não seria contada. E é justamente no cinema que essa força se materializa de forma coletiva, intensa e transformadora.
Quando um filme nacional alcança o reconhecimento de grandes premiações internacionais, como o Oscar, ele não carrega apenas uma narrativa, carrega um país inteiro consigo. “Agente Secreto”, ao conquistar cinco indicações, mesmo sem levar a estatueta, já atravessou uma fronteira simbólica poderosa. A indicação, por si só, representa validação artística, visibilidade global e um convite para que o mundo olhe com mais atenção para o que é produzido aqui. Mostra a qualidade do nosso cinema e dos profissionais envolvidos.
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Perder o prêmio não diminui o impacto, pelo contrário. Muitas vezes, a vitória está no caminho percorrido: nos profissionais envolvidos, nas portas que se abrem, nos investimentos que passam a surgir e, principalmente, no público que se reconhece na tela, como um espelho da sua própria vida, por meio de uma linguagem visual e até mesmo acessando memórias. O cinema nacional, quando ganha destaque, fortalece toda uma cadeia produtiva: roteiristas, diretores, atores, técnicos, figurinistas, músicos, equipes inteiras que dependem dessa engrenagem criativa para viver.
Financeiramente, o impacto é concreto. Produções de destaque movimentam milhões, geram empregos diretos e indiretos e estimulam setores como turismo, publicidade e distribuição. Um filme bem-sucedido não termina na bilheteria, ele continua performando em festivais, plataformas de streaming, mercados internacionais e na formação de novos talentos. É uma indústria que, quando valorizada, retorna não apenas em lucro, mas em desenvolvimento cultural e econômico.
Mas talvez o valor mais profundo do cinema não possa ser medido em números. Ele está na experiência individual e coletiva. Está na pessoa que se vê representada pela primeira vez, revivendo e vendo sua rotina, até mesmo a rua do seu bairro na grande tela, sendo apresentada ao mundo todo. Está no jovem que decide seguir carreira artística depois de se inspirar em uma obra. Está na conversa que surge após os créditos finais. Está na construção de identidade, na preservação de histórias e na ampliação de perspectivas.
Sem arte, viveríamos em um mundo funcional, porém vazio, podendo entrar na discussão da IA dominar o mundo: se a criatividade é o poder da arte, nós não teríamos valor.
Sem o cinema, perderíamos uma das formas mais poderosas de compreender quem somos. E, quando um filme nacional chega tão longe, mesmo sem vencer, ele nos lembra que existir, criar e contar histórias já é, por si só, um ato de resistência e também de vitória.
Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.
