Marina Käfer

Seu guarda-roupa é descartável ou vai durar 30 anos?

Na coluna, Marina Käfer reflete sobre o consumo acelerado de moda e o valor das roupas que atravessam gerações e preservam histórias

: Entre tendências passageiras e peças que resistem ao tempo, o guarda-roupa também guarda histórias e memórias de diferentes gerações
: Entre tendências passageiras e peças que resistem ao tempo, o guarda-roupa também guarda histórias e memórias de diferentes gerações Foto : Adrienne Leonard / Unplash / CP

Se você abrir o seu guarda-roupa hoje, quantas peças acredita que ainda estarão ali daqui a 30 anos, ou contando a história da nossa década? A pergunta pode parecer exagerada. Afinal, quem pensa em três décadas quando compra uma blusa para usar no próximo fim de semana? Mas talvez seja justamente aí que esteja o problema: estamos tão acostumados a consumir moda com prazo de validade que quase não nos perguntamos o que realmente vale a pena comprar, e se o que está na moda realmente vai durar.

Durante muito tempo, uma peça de roupa podia acompanhar diferentes momentos da vida. Um casaco herdado da mãe, um vestido especial, uma jaqueta que atravessou diferentes fases. Eram peças que acumulavam histórias e, não raro, passavam de uma geração para outra. Hoje, em meio à velocidade das tendências e à facilidade de comprar pela internet, muitas roupas chegam ao armário com a mesma rapidez com que perdem o interesse, a necessidade de ter novidade casa vez mais acabou substituindo o fato de ser uma peça de roupa que conta quem somos.

A moda sempre teve ciclos. A diferença está na escala, na velocidade e no volume. Tendências surgem, viralizam e desaparecem em intervalos cada vez menores. O que ontem parecia indispensável hoje pode parecer ultrapassado. Nesse movimento, o guarda-roupa corre o risco de se transformar em um estoque de novidades, em vez de um espaço de escolhas pessoais.

Existe também uma questão econômica nessa discussão. Nem todo mundo pode investir em roupas caras, e o preço elevado não garante, por si só, qualidade. Materiais, acabamento, construção e possibilidade de manutenção são fatores que merecem atenção. Mais do que o valor pago, importa a lógica que transforma o ato de comprar em um hábito automático, alimentado pela sensação de que nunca temos o suficiente.

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Mas existe uma dimensão ainda mais interessante nessa reflexão: a memória. A moda também conta a história da humanidade. Basta observar as roupas de diferentes décadas para reconhecer transformações nos costumes, nas relações de trabalho, na posição das mulheres, nos padrões de beleza e na maneira como as pessoas passaram a ocupar os espaços públicos. O comprimento de uma saia, a popularização do jeans ou a liberdade de movimento proporcionada por determinadas peças não são escolhas isoladas. São reflexos de mudanças sociais e culturais.

A roupa é, de certa forma, um documento do seu tempo. Registra comportamentos, revela valores e ajuda a compreender quem fomos. O que hoje parece apenas uma escolha estética pode, no futuro, ser uma pista importante para entender a sociedade em que vivemos.

Essa história também acontece dentro de casa. O vestido usado em um casamento, o casaco que pertenceu à avó, a jaqueta que acompanhou alguém durante a juventude. São peças que carregam afetos, lembranças e identidades. Seu valor não está necessariamente na etiqueta ou no nome da grife, mas naquilo que representam.

Em uma época em que tantas peças são produzidas, compradas e esquecidas em intervalos cada vez menores, vale perguntar o que estamos deixando para o futuro. Que histórias nossas roupas contarão? O que as próximas gerações conseguirão compreender sobre nossos hábitos, nossos desejos e a sociedade em que vivemos?

É claro que nem toda peça precisa durar 30 anos. A proposta não é transformar o guarda-roupa em um museu, muito menos estabelecer regras para quem gosta de moda. É questionar por que nos acostumamos a substituir tantas roupas não porque deixaram de servir ou de funcionar, mas porque perderam o apelo da novidade, talvez a pergunta mais interessante não seja quantas roupas conseguiremos conservar por três décadas, mas quantas delas realmente merecem ocupar espaço na nossa vida.

A moda pode até viver de novidades, mas o estilo, a memória e a história não deveriam ter prazo de validade. E você: quando compra uma roupa, está pensando apenas no próximo look ou escolhendo algo que ainda poderá fazer sentido daqui a 30 anos?

Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.