São muitos os tesouros escondidos nas araras de um brechó. Um vestido de grife esquecido há décadas, um jeans de cintura alta que parecia ultrapassado, e até aquele vestido que a sua mãe usava em festas e ficou aposentado no armário durante anos. Hoje, essas peças ganham um novo brilho.
Roupas assim carregam histórias e, agora, voltam como itens de desejo para os fashionistas. Em um mundo em que as tendências são constantemente revisitadas, é impossível ignorar que o passado está em alta. A moda é cíclica, e o que um dia esteve guardado, retorna com toda força para as novas gerações, carregando não apenas estilo, mas também significado e memória.
Partindo do desejo de dar um novo destino às roupas acumuladas nas várias malas que trouxe na volta para o Brasil depois de um intercâmbio para a Espanha, Alana Muccillo criou a própria marca, a princípio como um brechó, ao lado da irmã, Carol. A paixão por moda, no entanto, começou muito antes e é atribuída a uma pessoa especial: a mãe, Valéria.
“Eu cresci vendo minha mãe garimpar”, conta Alana. Aos poucos, Valéria, que sempre foi “louca por roupas”, entrou de vez no negócio. Hoje, ela é quem responde pela curadoria do brechó da Chamaquitas e mantém um acervo tão extenso que ocupa um quarto inteiro em sua casa e uma caminhonete estacionada só com roupas separadas por sacos e cabides, já higienizadas e catalogadas com cuidado, prontas para as próximas feiras de rua que participarão.
Elas também possuem um acervo aberto ao público localizado no centro de Porto Alegre. Todas as visitas são feitas com muita cautela para que o cliente possa garimpar com calma. Por isso, precisa ter horário marcado.
A sororidade segue como um dos pilares da marca, que ganhou nome inspirado em uma expressão mexicana para “meninas”. A empreendedora, que também é produtora de moda, já fez algumas viagens pelo mundo, e um de seus destinos foi o México, onde aprendeu a gíria e levou consigo o significado. Além dos garimpos, as peças autorais também fazem sucesso entre os mais diversos perfis de mulheres brasileiras. As roupas são pensadas e confeccionadas para corpos reais, de todos os tamanhos, tudo isso visando o menor impacto ambiental possível.
A relação entre mãe e filha foi se estreitando e melhorando com o crescimento do negócio. Entre os eventos e as entregas, o dia a dia da Chamaquitas virou também rotina compartilhada: Alana na assinatura autoral e Valéria nos achados do brechó. Assim, enquanto uma aproveita as oportunidades para estudar sobre moda, a outra se empenha em garimpar relíquias para conquistar a filha. “Coisa de mãe”, diz Valéria.
A história da marca também tem seus capítulos de superação. Na pandemia, com a perda da amiga e costureira que fazia as peças sob medida, mãe e filha precisaram correr atrás de modelistas e refazer todo o sistema de produção autoral. Mesmo diante do caos e dos incontáveis pedidos que recebiam no site, mantiveram o toque manual e criativo.
O que começou motivado por uma dor como consumidoras em não encontrar modelos que as vestissem bem e valorizassem as singularidades de seus corpos, se tornou combustível para as novas criações. Foi o caso de uma calça amarela de linho, herdada do guarda-roupa da matriarca e tão amada por Alana, — que afirma que a usou até rasgar, — e virou a modelagem base para as calças da marca.
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Hoje, o autoral com foco no trabalho artesanal continua em crescimento, com botões forrados à mão, tecidos escolhidos rigorosamente e coleções desenvolvidas a partir de uma ideia de editorial, muitas vezes com inspiração em fotos e atmosferas sonhadas por ela.
Muito além da moda, a Chamaquitas é também sobre conexão. Inspirada em uma mãe que guardou com cuidado suas roupas da juventude e a filha que as transformou em algo novo, com propósito e memória. “Eu era meia fashionista, sabe?”, brinca Valéria, reconhecendo que a paixão de Alana pelo universo fashion tem raízes na relação das duas.
A mãe conta que respeita o olhar apurado da filha e, mesmo aprendendo muito juntas, encontrou o seu próprio espaço na construção da marca. Alana, por sua vez, cresceu admirando o estilo da mãe e hoje leva adiante esse legado com autonomia, mas também com gratidão. Unidas pelo bom gosto por roupas e pela parceira de longa data, mãe e filha fizeram da moda um elo genuíno, e da Chamaquitas, a celebração disso.
Confira alguns registros feitos no espaço físico da marca, no centro de Porto Alegre:
Brechó mãe e filha
*Sob supervisão de Brenda Fernández
