Falar em K-Beauty quase sempre significava lembrar das famosas rotinas de skincare com muitos passos. Limpeza em duas etapas, tônico, essência, sérum, máscara, hidratante e proteção solar ajudaram a transformar os cuidados coreanos com a pele em um fenômeno mundial. Agora, porém, essa influência entra em uma nova fase.
Em vez da quantidade de produtos, ganham espaço fórmulas multifuncionais, ativos mais direcionados e cuidados voltados à hidratação e ao fortalecimento da barreira cutânea. Ao mesmo tempo, marcas sul-coreanas chegam com mais facilidade às prateleiras brasileiras e empresas que atuam no País passam a incorporar ingredientes, texturas e conceitos popularizados pela K-Beauty.
Para o dermatologista Octávio Guarçoni, a própria rotina de skincare passa por uma simplificação. O especialista aponta que o acúmulo de produtos nem sempre significa mais benefícios e pode, inclusive, comprometer a tolerância da pele. A tendência é concentrar os cuidados em quatro pilares: limpeza, hidratação, ativos escolhidos conforme as necessidades individuais e proteção solar.
Esse movimento, conhecido como skinimalism, ajuda a explicar uma mudança importante em relação à imagem que tornou a K-Beauty famosa no Ocidente. O interesse continua, mas a lógica passa a ser menos sobre cumprir uma sequência rígida de etapas e mais sobre entender do que aquela pele realmente precisa.
A cosmetóloga Roseli Siqueira, com mais de 50 anos de atuação na área, acrescenta outro ponto à discussão: uma rotina criada em um país com características climáticas e culturais diferentes não precisa ser reproduzida integralmente pelas brasileiras.
Ela reconhece entre os principais legados da beleza coreana a constância e a atenção dedicada à pele, mas defende uma adaptação à realidade tropical. Em um clima quente e úmido como o brasileiro, mais camadas não significam necessariamente melhores resultados.
Até o famoso glow ganha outra interpretação. Mais do que o efeito visual provocado pela sobreposição de cosméticos, a luminosidade saudável estaria relacionada à hidratação, à integridade da barreira cutânea e à vitalidade da pele.
Cinco cuidados para adaptar a K-Beauty à rotina brasileira
- Evite copiar todos os passos da rotina coreana: mais produtos e mais camadas não significam, necessariamente, uma pele melhor.
- Leve o clima em consideração: no calor e na umidade brasileiros, a tendência é priorizar rotinas mais leves.
- Escolha produtos de acordo com a sua pele: a recomendação é personalizar os cuidados, em vez de seguir protocolos prontos.
- Priorize hidratação e barreira cutânea: para Roseli, o glow saudável está mais relacionado à hidratação, resistência e vitalidade da pele do que ao acúmulo de cosméticos.
- Valorize a constância: regularidade e prevenção são princípios da K-Beauty que podem ser aproveitados sem a necessidade de uma rotina extensa.
Da inspiração coreana aos produtos brasileiros
A influência da K-Beauty já pode ser percebida em produtos desenvolvidos por marcas brasileiras. A Klass Vough, por exemplo, entrou no segmento de skincare com a Klass Vough Skin, coleção de dez produtos inspirada nas tendências da beleza coreana. Entre os ingredientes escolhidos estão a Centella Asiática e o PDRN, ativos que ganharam projeção justamente com a popularização dos cosméticos sul-coreanos.
A linha contempla diferentes momentos da rotina, da limpeza ao tratamento e à proteção da pele, mostrando como referências que antes estavam concentradas em produtos importados começam a aparecer em formulações desenvolvidas para o mercado nacional.
Outro exemplo é o Litchi Refresh Toner, da Minéraux Beauty. O produto parte do conceito coreano de treatment essence in toner, que reúne características de tônico e essência em uma única formulação. A proposta também ajuda a enxergar uma das mudanças apontadas pelos especialistas: em vez de acrescentar mais uma etapa ao nécessaire, o mesmo produto passa a concentrar diferentes funções, preparando, tratando e potencializando os cuidados seguintes.
Influência que chega também às grandes marcas
O alcance da K-Beauty pode ser percebido ainda fora das empresas coreanas ou brasileiras. Grandes nomes internacionais da dermocosmética também começam a incorporar referências associadas à inovação que tornou os cuidados asiáticos conhecidos mundialmente.
É o caso da La Roche-Posay. No lançamento do Effaclar Supramolecular, a marca relaciona o desenvolvimento do produto a um consumidor que, influenciado pela K-Beauty, passou a exigir mais das formulações em aspectos como textura, inovação de ingredientes e resultados visíveis.
O produto é apresentado como o primeiro corretor de poros e oleosidade da marca e foi desenvolvido para atuar sobre diferentes características relacionadas aos poros aparentes e ao excesso de oleosidade. A fórmula utiliza a Tecnologia Supramolecular S.A. B3™, que promove uma ligação temporária entre ácido salicílico e niacinamida. Também reúne ingredientes como sílica, ácido lático, glicerina e água termal.
Segundo informações da marca, o produto proporciona efeito blur imediato, hidratação com acabamento matte por até 48 horas e melhora gradual na aparência dos poros. Mais do que um lançamento isolado, o caso ajuda a mostrar como a influência da K-Beauty ultrapassou as fronteiras geográficas da Coreia.
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Marcas coreanas chegam mais perto das brasileiras
Enquanto empresas de diferentes origens absorvem essas referências, produtos desenvolvidos na própria Coreia do Sul também começam a chegar ao consumidor brasileiro por novos canais. A Farma Conde, por exemplo, ampliou seu portfólio de beleza com produtos de marcas asiáticas, entre elas as sul-coreanas Skin1004 e Celimax. O movimento acompanha o crescimento do interesse pela categoria. Segundo dados da Circana citados pela empresa, a participação das marcas coreanas nas vendas de skincare no Brasil passou de 0,5% em 2023 para mais de 7% até maio de 2026.
O avanço ocorre também em meio a uma mudança no comportamento de consumo. Segundo estudo da NielsenIQ citado nos materiais recebidos pelo Bella Mais, 39% da Geração Z buscam produtos de beleza com maior qualidade para o uso cotidiano, sinal de uma atenção crescente a desempenho, formulações e benefícios percebidos.
Entre os destaques da Skin1004 está a Madagascar Centella Ampoule, um dos séruns mais conhecidos da marca. Também integram a seleção o Madagascar Centella Hyalu-Cica Blue Sérum, voltado aos cuidados faciais, e o Centella Light Cleansing Oil. Este último conversa com um dos hábitos que ajudaram a popularizar a rotina coreana no Ocidente: a dupla limpeza, que inclui o uso de um produto à base de óleo como uma das etapas da higienização da pele.
A Celimax, por sua vez, aparece com produtos da linha The Vita-A Retinal Shot, entre eles o Tightening Booster e o Tightening Dual Cream. O Dual Cream é um creme noturno com retinal voltado a questões como linhas finas, rugas, perda de firmeza e elasticidade, aparência dos poros e textura irregular.
O diferencial apresentado pela marca está na tecnologia Dual Cream, que reúne uma formulação de tratamento com retinal e outra direcionada à hidratação e ao fortalecimento da barreira cutânea. A variedade mostra como a K-Beauty atual vai bem além da estética das embalagens ou da busca pela chamada "pele de vidro". Tratamento, hidratação e atenção à barreira cutânea passam a ocupar cada vez mais espaço.
Da K-Beauty ao interesse pela beleza asiática
O crescimento da beleza coreana também ajuda a abrir espaço para outro movimento: a maior presença de cosméticos asiáticos no varejo brasileiro. É importante fazer a distinção. Marcas como Tsubaki e Shiseido são japonesas e pertencem a uma tradição própria de cuidados, associada à J-Beauty. Ainda assim, aparecem entre os produtos asiáticos que começam a ganhar mais visibilidade no Brasil no mesmo momento em que cresce o interesse pela K-Beauty.
A Tsubaki amplia esse olhar principalmente para os cabelos. Sua linha Premium reúne opções voltadas a diferentes necessidades dos fios, como hidratação, reparação e volume. No mesmo movimento, produtos capilares da japonesa Shiseido também passam a integrar o sortimento oferecido ao consumidor brasileiro.
A ampliação mostra que a curiosidade despertada pela Coreia pode estar abrindo uma porta maior. Depois do skincare coreano conquistar espaço nas redes sociais e nos nécessaires, outras referências de beleza da Ásia também começam a ficar mais próximas das consumidoras brasileiras.
