A maquiagem quase invisível ainda não saiu de cena, mas já divide espaço com uma beleza que quer aparecer novamente. Na New York Fashion Week, a temporada de primavera/verão 2027 começa a consolidar um movimento que vinha sendo antecipado nas passarelas internacionais: mais cor, pontos de destaque no rosto e acabamentos menos rígidos, sem abandonar a pele leve e natural.
O que antes aparecia como uma aposta para a temporada já começa a se confirmar nos bastidores dos desfiles em Nova York. De um lado, o maquiador, fotógrafo e diretor criativo brasileiro Carlos Moura, radicado em Londres, vinha apontando o retorno de uma maquiagem com mais personalidade. De outro, o beauty artist Marcello Costa, responsável pela beleza de dez desfiles nesta edição da NYFW, identifica tendências semelhantes diretamente nas passarelas. “Depois de temporadas de maquiagem quase invisível, a beleza está voltando a pedir personalidade”, observa Carlos.
A mudança, porém, não significa o retorno das camadas pesadas de base, contornos rígidos ou olhos carregados. A lógica agora parece ser outra: manter a naturalidade e escolher onde colocar a informação visual. “A tendência não é voltar para uma maquiagem pesada. O que muda é a liberdade de escolher um ponto de força e deixar que ele apareça”, explica Carlos.
Olhos ganham cor, mas também tons mais suaves
Os olhos estão novamente no centro da maquiagem, embora sem uma única direção estética. Carlos Moura aponta a presença crescente de azuis, lilases, verdes, dourados e tons pastel, usados tanto em sombras esfumadas quanto em pigmentos concentrados, cílios coloridos e efeitos metálicos. “Você pode ter uma pele praticamente sem cobertura e colocar toda a informação no olho. Isso deixa a maquiagem expressiva sem necessariamente deixá-la pesada”, afirma.
Nos desfiles assinados por Marcello Costa em Nova York, porém, outra leitura também ganha força: os tradicionais delineados pretos cedem espaço aos marrons e cinzas. Em sete dos dez desfiles em que trabalha nesta temporada, o beauty artist diz ter utilizado lápis marrom combinado ao cinza esfumado, com uma aplicação mais rápida e menos rígida.
“O resultado é um olhar definido, mas suave e extremamente feminino”, explica Marcello. As duas propostas mostram que a temporada não caminha para uma única maquiagem dominante. A tendência parece estar justamente na liberdade de escolher entre a cor mais evidente e os neutros menos pesados.
Blush deixa de ser coadjuvante
Se existe um produto ganhando protagonismo, é o blush. A Copenhagen Fashion Week já havia colocado as bochechas marcadas entre os principais códigos de beleza da temporada, e Nova York reforça essa direção. Aplicado mais alto, avançando em direção às têmporas ou até se aproximando dos olhos, o blush deixa de funcionar apenas como acabamento da maquiagem e passa a participar do desenho do rosto.
Carlos Moura aponta tons berry, vermelhos e rosados entre as possibilidades que vêm ganhando espaço. Já nos primeiros desfiles da NYFW, Marcello Costa aposta no pêssego aplicado em bloco e levado até as têmporas. Segundo o beauty artist, o efeito ajuda a trazer uma aparência de saúde ao rosto sem comprometer a naturalidade da pele.
Pele continua leve, agora com “glow confortável”
Se olhos e bochechas ficam mais evidentes, a pele segue na direção oposta ao excesso. Bases mais leves, correções pontuais e a manutenção da textura natural permanecem como características importantes da temporada. Sardas, poros e pequenas diferenças de tonalidade não precisam mais desaparecer completamente sob a maquiagem.
Marcello Costa define o acabamento que vem utilizando nos desfiles como um “glow confortável”: uma pele luminosa e hidratada, mas sem parecer excessivamente molhada. “Uma pele com viço real”, resume. Essa base mais limpa também ajuda a explicar por que outros elementos podem ganhar intensidade sem deixar o resultado carregado.
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Boca aparece com contornos menos perfeitos
Nos lábios, duas tendências se encontram. Carlos Moura aponta a força do chamado blurred lip, em que vermelhos, vinhos, berries e rosas são aplicados com bordas suavizadas e aparência levemente manchada. Em vez do desenho perfeitamente definido, o efeito procura uma boca mais espontânea.
Nas passarelas de Nova York, Marcello Costa também trabalha com uma combinação de rosa frio e vermelho mais natural. “É um vermelho que abraça todos os tons de pele, sem pesar, como o rosa frio também”, afirma. O resultado mantém os lábios em evidência, mas dentro da mesma lógica que atravessa o restante da maquiagem: menos rigidez e mais individualidade.
A imperfeição começa a fazer parte da beleza
Outro movimento observado por Carlos Moura é o abandono gradual da maquiagem excessivamente perfeita. Smoky eyes com bordas menos precisas, pigmentos aplicados de maneira aparentemente espontânea e pequenas assimetrias começam a fazer parte da proposta estética.
“Existe uma diferença entre uma maquiagem borrada por acidente e um acabamento pensado para parecer vivido. A técnica continua ali, mas não precisa ficar evidente o tempo inteiro”, diz. Para ele, a busca pela simetria absoluta perde espaço diante de uma beleza mais pessoal.
Essa valorização da individualidade chega também aos cabelos. Nos trabalhos apresentados por Marcello Costa em Nova York, fios lisos aparecem com movimento, ondas preservam sua textura natural e rabos de cavalo e tranças entram nas produções sem excesso de acabamento. “Menos chapinha, mais identidade”, resume o profissional.
Entre blush marcado, olhos coloridos ou esfumados em marrom e cinza, lábios difusos e uma pele que continua leve, a temporada aponta menos para uma maquiagem única e mais para uma mudança de comportamento. Depois do auge da beleza quase imperceptível, o rosto volta a ser espaço de experimentação.
