Moda decolonial: projeto cria estampa para grupo de maculelê

Iniciativa leva cultura da dança-luta quilombola para roupas que serão apresentadas no UniSenac de Porto Alegre durante a Semana da Consciência Negra

Docente e alunos fazem modelagem de peças-piloto, corte dos tecidos e confecção dos materiais
Docente e alunos fazem modelagem de peças-piloto, corte dos tecidos e confecção dos materiais Foto : Luana Carvalho / UniSenac Porto Alegre / Divulgação / CP

Para além das tendências, as roupas expressam a identidade e a cultura de pessoas e regiões. Os tecidos, as estampas e as cores que compõem as peças criam uma narrativa visual que se conecta à história de um grupo. É o que acontece no projeto UniSenac e Quilombismo na Moda, que, em 2026, desenvolveu uma estampa autoral com elementos gráficos que representam a comunidade do Quilombo dos Machados.

A estampa criada será apresentada no 2º Festival Africano de Porto Alegre – Áfricas no Centro, evento aberto ao público que acontece em 7 de novembro no UniSenac da Capital. Durante o festival, as vestimentas produzidas pela iniciativa extensionista serão utilizadas em uma apresentação do grupo de maculelê, dança-luta realizada pelos integrantes da equipe de capoeira.

Em 2025, quando o projeto foi criado, 45 peças para o grupo de maculelê haviam sido confeccionadas. | Foto: Luana Carvalho / UniSenac Porto Alegre / Divulgação / CP

Criado pela docente do curso de Design de Moda do UniSenac – Campus Porto Alegre Debora Idalgo Paim Marque e desenvolvido por professores e alunos da graduação, o projeto de extensão tem como objetivo central fomentar a autoestima de crianças e adolescentes quilombolas, criando um espaço de aproximação entre a universidade e as comunidades. Além das roupas, uma pesquisa sobre os quilombos urbanos na cidade de Porto Alegre também havia sido realizada em 2025, sob coordenação do professor Cristiano Cunha.

Ferramenta de transformação social e cultural

Para a realização do projeto, Debora mantém contato semanal com o líder comunitário do Quilombo dos Machados, Jamaika, que, antes do início oficial do projeto, em 2025, havia procurado a unidade para manifestar interesse em um trabalho conjunto. Pelo menos duas vezes por mês, Debora os professores Cristiano Cunha e Marioara Feijó vão à comunidade para compreender as demandas do grupo.

A partir desse conhecimento, a docente e os alunos Dione Dídio, Gil Leonhardt, Julia de Almeida, Laura Espinosa, Lavínia Costa, Lívia Bordignon, Luciana Capaverde e Natana Larissa, com a parceria da laboratorista Kátia dos Santos Gomes, realizam encontros para a modelagem de peças-piloto, corte dos tecidos e confecção dos materiais.

Quilombo dos Machados, comunidade que usará as vestimentas no 2º Festival Africano de Porto Alegre | Foto: UniSenac Porto Alegre / Divulgação / CP

A valorização das raízes ancestrais é incentivada durante o projeto, como pontua a professora.

“Eu penso que é uma descoberta muito pessoal e transformadora para cada participante. É uma oportunidade para que se entenda que a moda pode ser pensada para além do entendimento convencional”, pontua.

A docente relembra um episódio marcante ocorrido no ano passado. Kátia, uma das participantes ativas e funcionária da instituição, comentou com Debora que participar do projeto e visitar um quilombo fez com que ela descobrisse mais sobre sua própria ancestralidade.

O preconceito existente em relação ao movimento quilombola também é abordado nas atividades, com o objetivo de desconstruir estigmas e tornar alunos e professores mais abertos às diferentes manifestações culturais. “Questões éticas, pessoais e importantes na formação cidadã são tratadas com os participantes”, acrescenta.

Mudança de padrões no mundo da moda

De acordo com Debora, o projeto pioneiro potencializa a pesquisa sobre o que seria uma moda decolonial. “É uma atividade em que os saberes não partem do colonizador, uma moda que não está vinculada à modernidade, não é uma estrutura normativa que reivindica a universalidade”, enfatiza.

A docente entende que a pesquisa pode contribuir para aprofundar o entendimento sobre o assunto, além de abrir espaço para ouvir designers e não designers, negros e não negros, a respeito do tema.

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