A New York Fashion Week entra na reta final nesta segunda-feira (14) depois de uma temporada que, até aqui, parece pouco disposta a passar despercebida. Nas coleções de Primavera/Verão 2027, o minimalismo não desapareceu, mas passou a dividir espaço com cores mais intensas, referências históricas, mistura de estampas, transparências, trabalho artesanal e uma dose maior de personalidade.
A pluralidade talvez seja justamente a principal característica desta edição. Ao fazer um balanço do terceiro dia da NYFW, a Harper's Bazaar Brasil destacou que fantasia, nostalgia, experimentação e diferentes interpretações do estilo americano passaram a coexistir nas passarelas. De Altuzarra a Anna Sui, de Tibi a Prabal Gurung, não há uma única fórmula apontando para o verão de 2027.
Na beleza, a mudança também começa a aparecer. A pele luminosa continua em alta, mas a estética quase invisível das últimas temporadas ganha companhia de blush mais marcado, olhos esfumados, tons terrosos e cabelos que respeitam a textura natural. A Teen Vogue, ao reunir as tendências de beleza vistas até agora na temporada, apontou justamente o blush evidente, ondas mais naturais e cores mais expressivas entre os elementos recorrentes nos desfiles.
Conner Ives aposta na volta da diversão à moda
Um dos momentos que sintetizam esse movimento veio de Conner Ives. Nascido em Nova York e radicado em Londres, onde construiu boa parte da carreira depois de estudar na Central Saint Martins, o estilista escolheu a cidade natal para sua estreia na NYFW.
Batizada de Across the Pond, a coleção transformou a identidade dividida entre Estados Unidos e Reino Unido em ponto de partida. Western, Art Déco, referências ao flamenco, alfaiataria, vestidos de chiffon, jeans bordados, franjas e cores vibrantes apareceram sem a preocupação de construir um guarda-roupa excessivamente comportado.
Segundo a Hypebae, Ives defende justamente a extravagância e a alegria de se produzir, em uma coleção que pergunta por que a moda deveria ter vergonha de demonstrar paixão pelas roupas. Lila Moss e Iris Law estiveram entre os nomes que cruzaram a passarela. (Hypebae)
A coleção também dialoga com um movimento maior da temporada: depois de anos em que conceitos como luxo silencioso e minimalismo dominaram boa parte da conversa sobre moda, o excesso volta a reivindicar seu espaço.
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Christian Cowan revisita a velha Hollywood
Christian Cowan procurou outra época para falar sobre o presente. Na coleção Primavera/Verão 2027, o estilista britânico partiu da velha Hollywood e da construção pública da imagem feminina para explorar o contraste entre glamour, performance e identidade.
Cowan não buscou reproduzir de maneira nostálgica a era de ouro do cinema. Referências clássicas, como vestidos de festa e peças associadas às estrelas das telas, apareceram desconstruídas, envelhecidas ou reinterpretadas, deslocando o glamour de seu lugar mais perfeito.
A beleza acompanhou esse raciocínio. Assinada pelo beauty artist Marcello Costa, a maquiagem apostou em pele luminosa e hidratada, lábios e olhos em tons amarronzados e blush aplicado de maneira ampla, subindo até as têmporas.
O preto pesado no olhar dá lugar ao lápis marrom esfumado, enquanto a pele aparece com aquilo que Costa define como um “glow confortável”, com viço, mas sem aparência excessivamente molhada. Nos cabelos, lisos com movimento, ondas naturais, tranças e acabamentos molhados reforçam a valorização da textura individual das modelos.
Mais do que uma volta à maquiagem carregada, a proposta aponta para uma beleza novamente perceptível. A maquiagem aparece e participa da construção do look, sem depender de camadas excessivas ou de um acabamento rigorosamente perfeito.
Do clássico americano à roupa como experimentação
Essa vontade de revisitar códigos conhecidos sem simplesmente repeti-los aparece em outros pontos da temporada. A alfaiataria continua presente, assim como vestidos fluidos, jeans e referências ao guarda-roupa tradicional americano, mas as combinações se tornam menos previsíveis.
Altuzarra, por exemplo, levou à passarela uma coleção inspirada pelas fotografias de Casa Susanna, espaço frequentado nas décadas de 1950 e 1960 por homens que encontravam ali liberdade para experimentar outras expressões de gênero. Cintos abertos, peças que parecem escorregar pelo corpo, couro, xadrez, animal print e flores foram combinados em uma leitura que mistura romantismo e punk.
Anna Sui caminhou em outra direção ao aproximar contos de fadas, referências vintage e a obra da artista britânica Pauline Boty. Já Prabal Gurung investiu em cores intensas e volumes marcantes, enquanto a Tibi partiu de peças cotidianas para alterar proporções e criar combinações cromáticas menos óbvias.
Em comum, essas propostas ajudam a afastar a ideia de que uma única tendência precisa dominar a estação. A força desta NYFW parece estar justamente na convivência entre linguagens.
Moda americana também revisita os próprios clássicos
Os nomes mais estabelecidos também procuraram novas maneiras de trabalhar códigos conhecidos. Tommy Hilfiger escolheu o The Plaza Hotel para marcar seu retorno à NYFW e revisitou elementos clássicos do estilo preppy americano.
A Reuters registrou que a coleção, definida pela marca como “Prep Made Current”, atualizou polos, xadrezes e referências tradicionais da grife para uma geração mais jovem. Gigi Hadid abriu o desfile, que também reuniu nomes como Kate Moss e Camila Cabello entre os convidados.
O movimento ajuda a explicar outra característica da temporada: em vez de abandonar suas próprias histórias, algumas das principais marcas americanas estão tentando relê-las para consumidores que não necessariamente têm com esses códigos a mesma relação das gerações anteriores.
Uma mudança importante acontece fora das passarelas
A Primavera/Verão 2027 também marca uma alteração institucional na semana de moda. A política que proíbe o uso de pele animal nas coleções apresentadas no calendário oficial passou a valer nesta temporada.
De acordo com o Council of Fashion Designers of America (CFDA), organizador do calendário oficial da NYFW, a medida havia sido anunciada em setembro de 2025 e entrou em vigor agora. O calendário preliminar desta edição reúne cerca de 70 desfiles e apresentações, além de coleções exibidas digitalmente ou mediante agendamento.
A decisão coloca a discussão sobre materiais e responsabilidade ambiental ao lado das conversas estéticas da temporada e estabelece um novo parâmetro para as marcas interessadas em integrar oficialmente a semana nova-iorquina.
NYFW chega à reta final
A programação nesta segunda-feira (14) tem nomes como Ulla Johnson, Fforme, Diotima, Carolina Herrera, Luar e LaQuan Smith, mantendo o contraste entre diferentes leituras da moda americana.
Na terça-feira (15), último dia da edição, Collina Strada, Sabyasachi e Thom Browne estão entre os nomes que movimentam a programação. Browne será responsável pelo encerramento oficial da temporada. E é justamente neste último dia que o Brasil volta ao calendário.
A PatBO, da estilista mineira Patricia Bonaldi, apresenta sua coleção de Primavera/Verão 2027 nesta terça-feira (15). A marca está programada para uma apresentação by appointment, das 11h às 13h30, no horário de Nova York, formato que permite uma observação mais próxima das peças do que o modelo tradicional de desfile.
A apresentação chega no momento em que a NYFW começa a fechar suas principais mensagens para o próximo verão. Depois de uma semana marcada por cores, nostalgia, experimentação, releituras do glamour e pela recuperação do prazer de se vestir, a expectativa agora se volta para a maneira como a PatBO colocará sua identidade brasileira dentro dessa conversa.
