Quando decidiu ser mãe, a jornalista Mariana Weber, 30 anos, fez da gravidez um projeto acompanhado de perto. Ela havia passado por uma cirurgia bariátrica pelo método bypass em janeiro de 2023. Antes de engravidar, realizou exames pré-concepcionais, iniciou o uso de ácido fólico e reforçou a suplementação de vitaminas.
Durante a gestação, manteve reposição de ferro, ácido fólico, vitaminas D e B12, além de suplementação proteica e alimentação balanceada. Nos últimos meses, porém, o crescimento do bebê passou a exigir atenção maior. As consultas e ultrassonografias se tornaram semanais e, com 36 semanas de gestação, a equipe decidiu antecipar o nascimento.
Naquela mesma noite, Mariana começou a sentir uma dor intensa e contínua nas costas. Inicialmente, imaginou que fossem contrações. Horas depois, já quase não conseguia caminhar. O bebê nasceu por cesárea de emergência, mas a dor não desapareceu com o parto.
O que viria a seguir foi uma complicação rara e grave, que levaria Mariana a cirurgias de emergência, uma longa internação e uma mudança profunda na rotina. A história dela, no entanto, não significa que mulheres que fizeram bariátrica devam evitar a maternidade.
Para o cirurgião do aparelho digestivo e bariátrico André Bigolin, titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), a primeira informação que precisa ficar clara é justamente essa: mulheres que passaram pela cirurgia bariátrica podem engravidar.
Segundo ele, quando se compara uma paciente que conseguiu controlar a obesidade e doenças metabólicas após a bariátrica com uma mulher que permanece com obesidade e comorbidades, a cirurgia pode inclusive representar redução de alguns riscos para a mãe e o bebê.
Planejamento começa antes da gravidez
O momento de engravidar é uma das primeiras questões a serem discutidas. Bigolin recomenda um intervalo próximo de dois anos entre a cirurgia e a gestação, para que a mulher atravesse a fase mais intensa de perda de peso e alcance maior estabilidade metabólica e nutricional.
A orientação pode variar conforme o caso. Atualmente, a SBCBM indica que a paciente pode ser liberada para engravidar após cerca de 15 meses de pós-operatório. Outros materiais da própria entidade trabalham com uma janela entre um e dois anos. O princípio é o mesmo: evitar que a gestação coincida com o período de emagrecimento mais acelerado e fazer o planejamento junto à equipe médica.
O acompanhamento também não termina quando o teste de gravidez dá positivo. Bigolin recomenda que a mulher mantenha acompanhamento nutricional e endocrinológico e tenha um obstetra em contato com a equipe responsável pelo seguimento da bariátrica. Anemia e deficiências de vitaminas e minerais precisam ser identificadas e corrigidas. No caso de Mariana, esse cuidado começou antes da concepção e continuou durante toda a gravidez.
Mariana criou uma vaquinha para arrecadar recursos para a cirurgia de reconstrução do trânsito intestinal. A meta é de R$ 50 mil, valor destinado ao procedimento, às taxas da plataforma e a despesas relacionadas ao pré-operatório. Quem quiser contribuir ou compartilhar a campanha pode acessar:
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Menos alguns riscos, mais atenção ao crescimento do bebê
Estudo de 2025 ajuda a mostrar por que a discussão não cabe em uma fórmula simples de “mais segura” ou “mais arriscada”. Um grande estudo populacional publicado em 2025 encontrou, nas gestações após cirurgia bariátrica, menor chance de hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e diabetes gestacional em comparação com o grupo de controle.
Por outro lado, a chance de nascimento de bebês pequenos para a idade gestacional foi 74% maior e a de prematuridade, 27% maior. Os resultados também mostraram que o risco de bebês pequenos para a idade gestacional aumentava quando havia desnutrição, intervalos mais curtos entre a cirurgia e a gravidez e histórico de bypass gástrico.
Por isso, o crescimento fetal e o estado nutricional materno fazem parte dos pontos que merecem atenção durante o pré-natal. Mariana viveu essa preocupação. O bebê apresentava percentil baixo e, nos últimos meses, passou a ser acompanhado semanalmente. Ela fazia reposição de vitaminas, ferro e proteínas e manteve acompanhamento até a decisão de antecipar o parto. O dado, porém, não permite afirmar que a bariátrica tenha causado o baixo crescimento no caso dela. Essa relação precisa ser avaliada individualmente.
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Sleeve e bypass têm perfis diferentes
Nem todas as cirurgias bariátricas modificam o organismo da mesma forma. As duas técnicas hoje classificadas como altamente recomendadas pelo Conselho Federal de Medicina são o bypass gástrico em Y de Roux e a gastrectomia vertical, conhecida como sleeve.
No sleeve, parte do estômago é retirada e o órgão passa a ter formato semelhante a um tubo, sem a realização do desvio intestinal característico do bypass. No bypass, técnica realizada por Mariana, além da redução do estômago ocorre uma reconstrução do trânsito digestivo, com desvio de parte inicial do intestino.
Essa nova anatomia cria espaços no mesentério pelos quais, em determinadas situações, uma alça intestinal pode se deslocar, formando uma hérnia interna. O fechamento desses espaços durante a operação é uma das estratégias utilizadas para reduzir o risco.
Um ensaio clínico randomizado publicado em 2021 mostrou que, em cinco anos, a ocorrência de hérnia interna caiu de 15,5% entre pacientes sem fechamento dos defeitos mesentéricos para 6,5% entre aqueles nos quais eles foram fechados. Isso significa redução do risco, mas não sua eliminação.
Bigolin explica que o acompanhamento ao longo da vida também é importante. Dores abdominais recorrentes ou sintomas fora do habitual em uma pessoa submetida a bypass precisam ser investigados levando em consideração a anatomia modificada pela cirurgia.
Quando a dor não era da gestação
Foi justamente a dificuldade de diferenciar sintomas que tornou o caso de Mariana tão complexo. Bigolin ressalta que não existe uma relação automática em que a gravidez provoque uma complicação da bariátrica. No caso dela, diz o médico, o problema foi outro: os sintomas de uma condição abdominal grave surgiram durante a gestação e no pós-parto, período em que dores e desconfortos podem inicialmente ganhar outras explicações.
Além disso, a investigação de um abdômen agudo durante a gravidez pode ser mais complexa e exigir decisões cuidadosas sobre os exames utilizados. Mariana conta que sentia dores nas costas durante a gestação, mas elas eram interpretadas dentro das alterações esperadas daquele período.
Na noite do parto, a dor tornou-se contínua e muito intensa. Depois da cesárea, retornou conforme o efeito da anestesia diminuía. No dia seguinte, o quadro se agravou e ela passou a vomitar. Exames apontaram então a necessidade de avaliação cirúrgica urgente. O bebê deixou o hospital com o pai. Mariana foi para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Seguiram-se cirurgias de emergência. Parte do intestino apresentava sofrimento importante e precisou ser retirada. Diante da gravidade do quadro, foram necessários desvios intestinais e ostomias para controlar a situação e preservar a vida da paciente. O próprio Bigolin ressalta que a experiência de Mariana não representa a evolução habitual de uma gravidez após bariátrica. “O caso da Mariana não é comum”, afirma o cirurgião, que destaca especialmente a raridade da gravidade alcançada pelo quadro.
Um estudo prospectivo nacional realizado na Bélgica e publicado em agosto de 2026 também mostra que emergências cirúrgicas durante a gestação após bariátrica são situações específicas. Entre 33 mulheres que apresentaram complicações cirúrgicas, foram registrados 35 episódios, dos quais 25 eram hérnias internas, predominantemente após bypass em Y de Roux. A média gestacional no diagnóstico foi de 27 semanas e seis dias. Todas foram submetidas à exploração cirúrgica em até 24 horas e não houve morte materna.
Cinquenta e cinco dias longe de casa
Bigolin passou a participar do tratamento de Mariana depois das primeiras cirurgias. Àquela altura, a paciente estava extremamente debilitada e dependia de nutrição pela veia. Uma nova cirurgia aberta representaria um desafio ainda maior. A equipe então planejou uma reconstrução por cirurgia robótica.
O procedimento durou cerca de 11 horas. Segundo Bigolin, foi possível reconstruir grande parte do trânsito intestinal e permitir que Mariana voltasse a se alimentar pela boca e deixasse de depender de nutrição intravenosa.
Foram 55 dias de internação. Durante esse período, Mariana viu Rafael, seu filho, apenas três vezes. Quando finalmente retornou para casa, ainda usava sonda e duas bolsas de ostomia. Com o tempo, retirou a sonda e recuperou a alimentação oral. Hoje consegue trabalhar e participar da vida da família, mas permanece com uma ostomia e uma rotina muito diferente daquela que tinha antes.
Ela relata dores frequentes, dificuldade para absorver alimentos, fraqueza e problemas causados pelos vazamentos e pelo contato da bolsa com a pele. Também perdeu mais peso e precisa carregar roupas e materiais extras sempre que sai de casa.
A maternidade talvez seja a limitação que mais pesa. Mariana diz que não consegue permanecer sozinha com o filho em determinadas situações e que depende da ajuda de outras pessoas para parte dos cuidados. “Eu não dou conta de fazer a rotina de mãe, que era meu sonho”, relata. Além dos materiais para a ostomia, parte deles fornecida pelo SUS, ela estima gastar mais de R$ 2 mil por mês apenas com medicamentos.
Uma nova cirurgia para recuperar qualidade de vida
Agora, Mariana se prepara para outra etapa. A proposta da equipe é realizar uma nova reconstrução do trânsito intestinal por técnica robótica e tentar reverter a ostomia que ainda permanece. Segundo Bigolin, o objetivo da intervenção é diferente daquele da cirurgia anterior.
Na primeira reconstrução, o desafio era devolver a Mariana condições de sobreviver fora do hospital e se alimentar novamente. Desta vez, a meta é recuperar qualidade de vida.
O cirurgião também deixa claro que não se trata de um procedimento simples. A anatomia de Mariana passou por diversas intervenções, existem aderências e alterações importantes, e a cirurgia envolve riscos que são discutidos entre equipe, paciente e família.
A cirurgia está orçada em R$ 44,1 mil. Para tentar viabilizá-la, Mariana criou uma vaquinha com meta de R$ 50 mil, valor que inclui as taxas da plataforma e despesas relacionadas à preparação para o procedimento. Quando respondeu à reportagem, haviam sido arrecadados R$ 4.934,36.
Para Mariana, poder realizar a cirurgia significa recuperar coisas aparentemente simples: trabalhar fora de casa, cuidar do filho, dormir uma noite inteira, ir ao mercado ou sair sem precisar calcular o risco de a bolsa vazar. “A cirurgia é necessária para que eu possa fazer uma coisa que as pessoas têm e não valorizam: viver uma vida normal e ordinária”, resume.
Apesar de tudo o que viveu, ela não transforma a própria experiência em um alerta contra a maternidade após a bariátrica. Ao falar com outras mulheres que fizeram a cirurgia e desejam engravidar, sua recomendação é procurar uma equipe experiente, fazer uma avaliação antes da concepção, manter exames e vitaminas em dia e entender que o acompanhamento não termina depois da operação.
Para Bigolin, esse também é o principal aprendizado. A cirurgia bariátrica trata uma doença crônica e pode permitir que muitas mulheres realizem o desejo de engravidar com melhores condições de saúde. O compromisso com o acompanhamento, porém, permanece ao longo da vida.
Como ajudar Mariana
Mariana criou uma vaquinha para arrecadar recursos para a cirurgia de reconstrução do trânsito intestinal. A meta é de R$ 50 mil, valor destinado ao procedimento, às taxas da plataforma e a despesas relacionadas ao pré-operatório.
Quem quiser contribuir ou compartilhar a campanha pode acessar:
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