Por Kailany Campos (Ufrgs)*
Realizada pela primeira vez em 1955, a Feira do Livro de Porto Alegre surge de uma inspiração carioca. Um evento literário que o jornalista Say Marques, liderança da feira, conheceu na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Assim, nasceu um dos primeiros grandes passos para o mercado de livreiros da capital gaúcha. O novo método de venda de livros teve o apoio da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), da Associação Rio-grandense de Imprensa (ARI) e dos amigos Nelson Boeck, Edgardo Xavier, Mário de Almeida e Sétimo Luizelli.
Na época, o acesso à literatura ainda era muito restrito às elites, e um dos objetivos do evento era subverter essa lógica, para que mais pessoas tivessem a oportunidade de folhear as páginas. O local já havia sido escolhido: Praça da Alfândega, um dos pontos mais movimentados do Centro Histórico da capital. A iniciativa que contava com apenas 14 bancas, hoje é o maior evento literário a céu aberto da América Latina.
Com um público variado, de crianças a idosos, a popularização da programação tornou a grande feira em um marco cultural de Porto Alegre. Nas bancas, as opções também são diversas: infantil, ficção, romance, e principalmente, os clássicos da literatura. Segundo informações publicadas nas redes sociais da Feira do Livro, eles estão dominando as vendas.
Além do primeiro lugar com o livro “1984” (George Orwell), outras obras clássicas como “A Metamorfose” (Franz Kafka), “Orgulho e Preconceito” (Jane Austen), “Contos Fantásticos” (Guy de Maupassant), “Hamlet” (Shakespeare) e “O Diário de Anne Frank” (Anne Frank) também movimentaram os primeiros dias.
De volta a 1984
“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, escreveu Italo Calvino em seu ensaio “Por que ler os clássicos”. A força dessa definição se confirma nas prateleiras da mais recente Feira do Livro de Porto Alegre: entre as obras mais vendidas durante o evento, “1984”, do escritor inglês George Orwell, ocupa o primeiro lugar. Com uma discussão que atravessa gerações há mais de 75 anos após o seu lançamento, a procura do público pela obra exemplifica a capacidade de certos títulos continuarem a dialogar com o presente.
Publicado na década de 50, “1984” apresenta uma crítica ao abuso de autoritarismo e à manipulação da verdade. O livro retrata uma sociedade distópica que vive sob um regime totalitário, observada o tempo inteiro. A narrativa, embora escrita há anos, reflete debates da sociedade atual, o que, para a professora e doutora em Letras Márcia Lopes, pode justificar o aumento da procura pela obra na feira.
A professora comenta que a nova geração sempre busca uma relação entre os clássicos e o momento atual da sociedade, e que essa ideia é pertinente quando se observa, por exemplo, o cenário laboral do Brasil durante esse ano. No primeiro semestre de 2025, discussões sobre as jornadas extensas de trabalho ganharam força na Câmara dos Deputados após uma intensa mobilização social sobre a escala 6×1 – seis dias de trabalho para um dia de folga.
Com isso, as críticas apresentadas no texto referente ao fato da subjetividade e da alienação humana, por fazer todo dia a mesma coisa, conectam-se com a pauta debatida no país. Ela ainda ressalta a importância do leitor direcionar sua atenção para essa questão do livro.
“Ele é principalmente um livro sobre o quanto um sujeito, que é dono da sua identidade, da sua história, é capaz de atuar no mundo, e o quanto o assujeitamento, a falta de identidade, faz com que todo mundo perca”.
Para ela, um clássico é um livro que permanece. É um livro que, quando alguns se tornam “obscurecidos, obsoletos, anacrônicos”, continua com os seus elementos perenes, revividos a cada momento: assim como faz a obra 1984.
A literatura é para todos a toda hora?
A sexta edição da Pesquisa Retratos da Leitura, de 2024, aponta que, em quatro anos, o Brasil apresentou uma redução de quase 6,7 milhões de leitores. Na pesquisa, destaca-se que o leitor é “aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero, impresso ou digital, nos últimos três meses.”
Na grande parte dos casos, o hábito da leitura começa na infância. Mesmo com a queda no índice geral de leitura, as crianças continuam sendo o grupo etário que mais lê no país — e isso vem do fomento pela alfabetização. Mas, quando avançamos a idade, a mesma pesquisa exibe que, no Ensino Médio, 45% dos estudantes afirmam não ler literatura nem quando os professores indicam.
Para a professora formada em Letras e doutora em Linguística Michele Schmitt, a nova geração enxerga a leitura, por exemplo, de clássicos, com uma ótica de propaganda. “Se um clássico ganha uma nova cara, se um influenciador digital, uma pessoa que eu admiro, posta lá no seu TikTok, ou em outra rede social, aquele livro, isso vai impactar”.
Além disso, Michele também considera importante que novas edições e traduções de livros sejam feitas, para que alcancem diferentes gerações e históricos sociais. Afinal, pode acontecer de uma pessoa que é mais velha não possuir o hábito de leitura, e em caso de uma adaptação literária, torna-se possível o contato dela com a obra.
“A pessoa pode ter 60 anos e ela pode ser menos letrada, ter menos bagagem de letra, e não conseguir realizar a leitura como uma pessoa de 30 realiza. Então, muitas vezes, para a pessoa de 30, não precisa adaptar o clássico, mas para a pessoa de 60, sim.”
De acordo com o mesmo relatório, os principais fatores que distanciam a literatura da maioria das pessoas são preferência por outros tipos de atividades, como consumo de redes sociais, desinteresse pelo hábito e falta de tempo. Os dois últimos são o caso de duas visitantes da feira, amigas desde o período da faculdade.
Formadas em enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Sara Pinheiro, 40 anos, e Lidiane Machado, 38 anos, tiveram o maior contato com livros clássicos durante o período do vestibular, com as leituras obrigatórias para a prova de ingresso. Mas depois, com outras responsabilidades, não tiveram o interesse ou a oportunidade de retornar a esse tipo de leitura.
Sara explica que depois da gestação, a dedicação ao universo materno lhe aproximou de outros tipos de leitura, como o gênero infantil, que frequentemente lê para sua filha. “Eu não sei se eu teria interesse de novo em ler, porque faz muito tempo que eu já li esses livros. Machado de Assis, Casimiro de Abreu. Então já não faz mais o meu estilo”.
Já Lidiane, também mãe e com a rotina apertada, disse que voltaria a consumir clássicos e que gostava muito dos momentos de leitura dessas obras.
“Eu me envolvia muito nas histórias, e daí a gente cria toda aquela expectativa. A gente fica pensando no personagem ali que a gente vê, e tudo da nossa imaginação. A gente viaja mesmo, né? Até hoje, às vezes, eu lembro de alguns. Era bem bacana”.
Assim, são os clássicos: marcadores de vida, de etapas, sempre prontos para fazerem sentido nos futuros prósperos e inéditos que o destino traça.
A Oficina de Jornalismo - Talentos do Futuro - é uma realização do Correio do Povo com o patrocínio da Corsan. Nossa natureza movimenta o Rio Grande. Apoios Ulbra "É Ultra, é Única, é Ulbra" e CIEE-RS "somos integração, inovação e possibilidades".
*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier