Entre moradias abandonadas, boa parte delas destruídas, um varal com roupas coloridas e uma pilha de telhas ainda sem uso são os primeiros sinais de que há, na Vila da Paz, em Eldorado do Sul, quem tente recomeçar. Objetos infantis e vozes de crianças em um dos terrenos dão vida ao lugar, ainda que as construções dali estejam por desabar a qualquer momento. Assim como nesta comunidade que margeia o Rio Jacuí, milhares de moradores do município, que fica na região metropolitana de Porto Alegre, enfrentam a dor de querer ir embora e a agonia de ter que ficar.
Alheios aos dramas adultos, um menino e duas meninas trilham o barro frio de um dos pátios ainda ocupados na avenida Getúlio Vargas com os pés descalços. A umidade trazida pelo inverno deixa o chão ribeirinho úmido e pastoso. Há muita sujeira e dezenas de brinquedos espalhados por um corredor com cerca de dez metros de comprimento entre a vegetação e as paredes de tijolos sem revestimento que há um ano abrigavam duas famílias.
Sem demonstrar receio diante dos obstáculos, os três caminham na direção da mãe, a ajudante de mercado desempregada Samara dos Santos Fortes, 27 anos. Ela está na porta da casa onde vive desde que a enchente de maio de 2024 baixou. É a única naquele terreno que não foi interditada pela Defesa Civil.
“Eu morava ali na frente (uma das casas com estrutura condenada) desde que nasci”, conta. Ela vive com o marido, o autônomo André de Santos Fortes, 26 anos, e os filhos, Christopher, 9, Soraya, 6, e Yasmin, 2. A mãe de Samara, a dona de casa Rosângela Castro dos Santos, 49, por medo de uma nova enchente, se mudou para um loteamento distante do Jacuí.
“Não consegui o aluguel social, então fiquei para não perder o terreno. A mãe está gastando R$ 450, fora água e luz, mas não sabe se vai conseguir manter. Eu fui demitida do trabalho uma semana depois da enchente e não consegui mais emprego. Por mim, ia embora, mas não tenho como pagar aluguel”, lamenta.
Além de não conseguirem mudar para outro lugar, Samara e o marido não podem recuperar os estragos onde moram. Tal situação faz com que a precariedade do espaço que ocupam se agrava a cada dia. “Tem que ficar na casa desse jeito, não pode botar um piso, nada, se não paga uma multa. A casa da frente tá caindo, mas não posso mexer, eu tenho medo de deixar eles brincando na rua”, afirma.
Apenas com o trabalho do esposo, não sobra dinheiro para mais que a alimentação da família. Este seria o motivo de as crianças estarem sem calçados.
“A gente faz o que pode. É primeiro eles (filhos), depois eu e o André. Mas está difícil”, justifica Samara, que também estava sem proteção nos pés.
Resistência. A dona de casa Fernanda Silva, 35, e a filha Érica, 13, seguem na Vila da Paz, mas na casa da mãe, a também dona de casa Maristella Silva dos Santos, 51. De alvenaria, a construção resistiu, mas não sem prejuízos.
“Tinha recém-feito um empréstimo para trocar o telhado. Aí perdi tudo dentro, além de até hoje precisar arrumar portas e reboco”, narrou.
Já a moradia da Fernanda e da Érica, que ficava nos fundos, é de madeira e está interditada pela Defesa Civil. Feita sobre longos pilares de madeira, tem risco de cair.
“Penso muito em sair daqui, ter a nossa casinha segura. A gente perdeu tudo não ficou nada, tanto eu como a minha filha estamos nessa”, contou Maristella. “Minha filha (Érica) é autista”, não posso correr riscos”, avisou Fernanda.
Fênix
O casal de comerciantes Terezinha Moura, 60 e Sérgio Moura, 67, escolheu seguir na Vila da Paz, por enquanto. Quando a cheia do ano passado acabou com o mercado que mantinham na Getúlio Vargas, um prédio maior e mais resistente estava em obras.
“São 28 anos pegando enchente, só que sempre 20 centímetros, às vezes até aqui assim”, mostrou Terezinha apontando para os joelhos.
Foram quase três meses fora de casa, e em parte deste período a construção, já em fase de acabamento, ficou submersa. Em nome dos dez anos de comércio na comunidade, não desistiram de concluir a obra. “Foi preciso refazer algumas coisas, limpar tudo e correr com o que faltava para poder voltar a trabalhar”, lembrou.
O prédio velho, de madeira, ruiu. O novo comércio fica em frente ao anterior, do outro lado da rua, e tem o mesmo nome: Fênix, ave mitológica capaz de renascer.
“Vamos ficar mais um tempo, até porque nosso prédio não entrou no cadastro de atingidos pela água, mas acho que quase todo mundo está querendo ir embora. Se não ficarem aqui, não vou ter escolha”, projeta a comerciante.
No bairro Cidade Verde, mesmo as construções regulares foram deixadas para trás por antigos donos. Não há levantamento oficial do município, porém placas com ofertas de vendas e aluguel estão visíveis por todas as ruas.
É o caso da rua dona Antônia da Silva Pinheiro. Por lá, uma das famílias que mudou é a da administradora Renata Lucas de Oliveira, 54 anos. Ele e o marido, o técnico em eletrônica Alexandre Louzada de Castro, 54, viviam em uma casa de alvenaria completamente adaptada para o filho autista, Glauco Oliveira Neto, 23. O imóvel será negociado tão logo terminem os reparos necessários.
“Não foi a primeira enchente, mas esta foi muito triste, sofrida. Até hoje a situação do bairro está terrível, a gente vê rastros, no dia a dia mesmo, do estrago que foi. Quem está lá que conseguiu voltar está tendo problemas, fora o desgaste emocional”, recorda.
Atualmente a família vive na praia de Atlântida Sul, em Osório, enquanto organiza o futuro do imóvel em Eldorado. “A gente vai lá para dar uma arrumada nas coisas, para cuidar um pouco do lugar, mas a gente não voltará a morar lá, é uma lembrança muito ruim. Mesmo que a gente conseguisse, porque a casa está num estado que não tem como. Quem está lá (no bairro) vai ficar esperando a próxima enchente, só voltou porque não tem realmente o que fazer”, acredita Renata.
Danos
Eldorado do Sul foi um dos municípios mais afetados pela enchente na região metropolitana de Porto Alegre. Levantamento da Defesa Civil local estima que 97% da área urbana – 80% da área total do município – onde vivem 42 mil pessoas, foi impactado pelas águas do Jacuí e do Guaíba. Os bairros com mais danos foram Cidade Verde, Vila da Paz e Sans Souci. Ao menos 5,5 mil pessoas foram desalojadas no auge da crise.