Enchente

Museu de percurso busca preservar memórias das enchentes

Iniciativa mapeou pontos do Centro de Porto Alegre que ajudam a narrar a história da maior cheia já registrada na capital gaúcha

Participantes da caminhada em frente à fachada do Correio do Povo na rua Caldas Jr.
Participantes da caminhada em frente à fachada do Correio do Povo na rua Caldas Jr. Foto : Lucas Wendt / Mupe / CP

Em maio de 2024, eu já pesquisava há alguns meses a história do muro da Mauá, tema do trabalho de conclusão de minha segunda graduação, em Museologia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Meu objetivo era refletir sobre a dinâmica de contestação à estrutura, construída na década de 1970, que se deu após o processo de redemocratização e sobre a possibilidade de ela própria ser considerada um marco de memória da vulnerabilidade de Porto Alegre a enchentes. Àquela altura, eu conhecia a dinâmica das cheias que atingiram a cidade desde sua fundação, especialmente a notória enchente de 1941, que, antes de desaguar na Capital, também devastou o Vale do Taquari e boa parte do Rio Grande do Sul. Com a chuva insistindo em cair sem trégua desde abril, eu imaginava o pior cenário.

Porém, minha imaginação – onde o Guaíba seguia atrás do muro projetado para contê-lo até uma elevação de 6 metros – não dava conta da realidade. Os primeiros dias de maio seriam de apreensão, de busca por água potável, de me engajar em redes de apoio, de reelaborar minha pesquisa. Passados mais de 80 anos da última grande cheia, parecia que a população gaúcha desconhecia os riscos e os sistemas de proteção que abraçam suas cidades. O esquecimento de tragédias, especialmente de eventos climáticos extremos recorrentes, mas sem uma periodicidade definida, leva à perda do sentido de alerta. No caso das enchentes no Rio Grande do Sul, esse apagamento é o que teria resultado nas falhas com a manutenção de sistemas de proteção contra cheias em todo o Estado.

A partir da compreensão de que apenas ao lembrar do passado é possível trabalhar para prevenir novas tragédias, participei da criação do Museu de Percurso das Enchentes - RS (Mupe). A iniciativa de alunos e professores da Ufrgs integra um dos eixos de atuação do projeto de extensão Greenart em Ação pelo Patrimônio Cultural de Porto Alegre. O Mupe busca registrar memórias das enchentes, tanto de forma virtual, ao delimitar em mapa interativo pontos afetados por inundações, quanto físico, ao propor percursos guiados em caminhadas culturais. Pois o trabalho de memória deve ser recorrente e obsessivo, e exige lembretes permanentes que nos confrontem com o sentimento incômodo da dor e do trauma – por mais que pareça reconfortante esquecer. Esses marcos cumprem o dever de memória, a missão de nos fazer rememorar tragédias, períodos de exceção e outros momentos de sofrimento coletivo. Os locais indicados não apenas foram afetados pelas inundações de 2024, como representam outras áreas e setores atingidos, além da rede de solidariedade e cooperação que se seguiu ao desastre.

O primeiro trajeto mapeado percorre o Centro Histórico de Porto Alegre, apontando pontos representativos da enchente, seja pelo volume de elevação das águas ou pelos significados desses locais para as comunidades. A proposta visa a observar a cidade de outra perspectiva e também fazer pausas pelo caminho, aproveitando para desfrutar do comércio local e apoiar sua retomada. Partindo da Ponte de Pedra, no largo dos Açorianos, e encerrando na Estação Rodoviária de Porto Alegre, o percurso-piloto reflete sobre o planejamento urbano, o histórico de aterros de cursos d’água, os resgates a pessoas e animais, o fechamento de comércios e centros de cultura e os impactos às redes de comunicação e transporte. Na chamada Esquina da Comunicação, o encontro entre as ruas Caldas Jr. e Andradas, por exemplo, lembramos que o Correio do Povo teve seu parque gráfico atingido e sua tiragem interrompida durante aqueles dias.

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Confira o percurso completo:

1. Ponte de Pedra: Erguida sobre o arroio Dilúvio, posteriormente represado. Dali se avista o Monumento dos Açorianos, que homenageia os fundadores da cidade e ficou em parte submerso, e também importantes prédios impactados, como a Fundação Pão dos Pobres, o Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF) e o Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do RS (Procergs), além de estar próximo dos bairros Cidade Baixa e Praia de Belas, fortemente atingidos pelas inundações.

2. Escola de Administração: Único prédio da Ufrgs atingido pela inundação, ajuda a refletir sobre a importância da academia no processo de produção de conhecimento e de ações efetivas durante a enchente. O ginásio da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid) se tornou abrigo para moradores desalojados. O Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) é importante fonte de informações sobre a dinâmica das águas. Demais universidades gaúchas também se engajaram no socorro a pessoas e animais, entre outras ações.

3. Usina do Gasômetro: Inserido no Parque Moacyr Scliar, que atua como dique na contenção das cheias, foi importante ponto de chegada e partida de embarcações atuando no resgate a pessoas e animais ilhados. No decorrer da inundação, a régua de medição da cota do Guaíba passou a ser acompanhada da região, onde também se dá o início do cais e do muro da Mauá.

4. Rua dos Andradas: Na antiga Rua da Praia, há diversos marcos, como o Museu do Trabalho e a Casa de Cultura Mario Quintana. Na Esquina da Comunicação, estão o Museu Hipólito José da Costa e o prédio do Correio do Povo. Pontos comerciais foram atingidos, fechando as portas e perdendo mercadorias, inclusive o Rua da Praia Shopping.

5. Praça da Alfândega: A praça histórica abriga a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre e tem no entorno importantes instituições da cultura e da economia, que ficaram submersas, como o Museu de Arte do RS Ado Malagoli (Margs), o Farol Santander, Banrisul e Caixa.

6. Mercado Público de Porto Alegre: Um dos poucos locais da Capital a contar com marco indicativo da enchente de 1941. Ao seu lado, está o Museu de Arte de Porto Alegre, no antigo prédio da prefeitura, cujas galerias subterrâneas foram inundadas. Na rua Julio de Castilhos, estão os acessos para os terminais do Trensurb e da Catsul, que ficaram sem operar, prejudicando o sistema de transportes metropolitano.

7. Estação Rodoviária de Porto Alegre: O local totalmente submerso é outro símbolo da enchente e do colapso no transporte, agravado ainda pelo alagamento e fechamento do Aeroporto Salgado Filho. Diante da rodoviária, foi construído o primeiro corredor humanitário. Dali, tem início o 4º Distrito, onde muitos comércios e indústrias tiveram perdas severas com a inundação e milhares de pessoas tiveram que deixar suas casas, a exemplo do ocorrido em outros bairros da zona norte, como Humaitá e Sarandi.

Saiba mais no site do Museu de Percurso das Enchentes - RS (Mupe).

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Porto Alegre Inundada
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